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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Orobanche gracilis Smith (Orobanchaceae)

No primeiro post deste Verão quente de 2016, trazemos aqui a belíssima Orobanche gracilis Smith (Orobanchaceae), que ainda não tinha sido postada neste blog. Esta foto foi obtida na orla de um pequeno bosque (antigo carvalhal de Arisaro-Quercetum fagineae) no Vale de Poios (BL: concelho de Soure), no CW. calc., 29TNE4027, alt. ca. 290 m.
Agradecemos ao ilustre botânico francês James Molina a identificação desta bela planta.

sábado, 13 de junho de 2015

Um trio de plantas serranas

Trazemos hoje aqui um simpático trio de beldades serranas: Erica umbellata L., Ericaceae (no centro), Quercus pyrenaica Willd., Fagaceae (à direita) e a conhecida carqueja, com flores amarelas: Pterospartum tridentatum (L.) Willk. subsp. cantabricum (Spach) Talavera & P.E. Gibbs, Fabaceae = Leguminosae.
A foto é de 22.V.2015, algures na serra de Montemuro, talvez acima dos 1000 m de altitude.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

azevinhos e carvalhos

Azevinhal na serra da Peneda (foto: P. Alves). Os azevinhais são das formações mais interessantes em Portugal, devido à raridade e carácter pontual com que aparecem na paisagem. A sua permanência parece ter origem na resiliência do azevinho face a perturbação recorrente pelos incêndios, mas não explica completamente o fenómeno. Os azevinhais aparecem no topo das serras em locais onde todos os carvalhos foram cortados há muito tempo. Os carvalhos são árvores com um grande sucesso de germinação e a grande quantidade de endosperma das bolota dá-lhes uma vantagem competitiva mesmo quando jovens plântulas. Mas essa vantagem é uma inconveniência quando falamos na dispersão das sementes. Se não existir um carvalho que forneça propágulos na proximidade, dificilmente teremos carvalhais na paisagem. Pelo contrário, o azevinho é um campeão nesse particular, especialmente quando falamos de dispersão zoocórica. As aves são os seus maiores aliados e uma semente de azevinho chega quase a todo o lado. E por essa razão vemos bosques de azevinho exuberantes na serrana da Peneda e não conseguimos descobrir nem um pequeno carvalho…

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Cephalanthera longifolia (L.) Fritsch (Orchidaceae)


Vamos hoje aqui postar uma orquídea muito bela e pouco comum em Lu:
Cephalanthera longifolia (L.) Fritsch, Oesterr. Bot. Z. 38: 81. 1888
= Serapias helleborine var. longifolia L.  (Orchidaceae),
uma orquídea de vasta distribuição eurasiática e norte-africana, actualmente talvez já extinta na Holanda
Fotografámo-la recentemente (2.V.2014) em TM: Tabuaço: Granja do Tedo, pr. Ronção, no talude da margem da estrada para Goujoim, num local fresco com castanheiros (Fagaceae), Omphalodes nitida (Boraginaceae), Doronicum plantagineum (Compositae), Euphorbia dulcis (Euphorbiaceae), Linaria triornithophora (Plantaginaceae), Rubia peregrina (Rubiaceae), e muitas outras plantas, 29TPF1647, alt. ca. 470 m acima do nível do mar.

domingo, 13 de outubro de 2013

Maus investimentos (Castanea sativa)



A primavera foi chuvosa e os castanheiros investiram em força na produção de flor. Não me lembro de um ano com tantos ouriços.
O castanheiro gosta de verões quentes com trovoadas abundantes em chuva lá para o final de Agosto, início de Setembro (trovoada no início de Agosto trás bicho). Desta vez o tempo de verão prolongou-se até à entrada do Outono e as trovoadas chegaram tarde, na última semana de Setembro. À espera da chuva as árvores ainda atrasaram o ciclo reprodutivo cerca de uma semana em relação ao ano passado.
Nas variedades mais tardias, por exemplo na 'Longal', pode ser que a coisa ainda se componha. Os ouriços das cultivares mais precoces estão cheios de castanhas abortadas (fulecras), rachadas ou de baixo calibre.
Os mecanismos de ajustamento da produção de semente (investimento reprodutivo) à variabilidade ambiental nem sempre funcionam: a seleção natural não dá conta de tudo. Este ano os investimentos do castanheiro correram mal. Acontece o mesmo a muitos outros seres vivos.

domingo, 3 de junho de 2012

Quercus robur L. subsp. broteroana O. Schwarz? (Fagaceae)

Nem todos os botânicos aceitam o táxon Quercus robur subsp. broteroana. Uma subespécie de carvalho-roble (ou carvalha, carvalheira), endémica da península ibérica, que se distribui pelo litoral da Galiza e de Portugal a norte do rio Tejo, entrando apenas ligeiramente para o interior. Quem o aceita, diz poder distingui-la da subespécie típica da seguinte forma:

1. Quercus robur subsp. robur:
Raminhos jovens glabrérrimos; folhas macias com a página superior mate e cedo caducas; cúpulas pequenas com menos de 16 mm, com escamas acinzentadas obtusas.
2. Quercus robur subsp. broteroana:
Raminhos jovens com alguns pelos simples; folhas algo coriáceas com a página superior lustrosa, caducas tardiamente e algumas marcescentes; cúpulas grandes com mais de 16 mm, com escamas castanho-escuras, pardacentas, agudas.

(Tradução livre de: Rivas-Martínez, S. & C. Sáenz Laín (1991). Enumeración de los Quercus de la Península Ibérica. Rivasgodaya 6: 101–110.)

Há já alguns anos que observo com atenção as carvalhas, com a intenção de tomar uma decisão mais informada sobre o assunto. Optei por aceitar o táxon nos estudos que realizei na bacia do rio Paiva porque:

1. As folhas de verão apresentam, frequentemente, consistência coriácea.
2. Parte das folhas ficam secas e presas nas árvores durante o outono/inverno (marcescência; não confundir com os ataques de Altica quercetorum que levam as folhas a secar logo no verão!). (Provavelmente por razões apenas climáticas algumas folhas chegam mesmo a ficar verdes durante o outono e inverno - semicaducifolia -, em especial em áreas mais abrigadas ou termotemperadas.)
3. Detetei, invariavelmente, na página inferior das folhas perfeitamente desenvolvidas, a presença abundante de pequeníssimos tricomas (circa 0.1 mm), transparentes, apenas bem visíveis a grande ampliação (30x a 40x) e com luz rasante. (De resto, a aparência da folha é glabra à vista desarmada ou a ampliações inferiores.)
4. Detetei, por vezes, na página superior, pelos simples de 0.2 a 0.3 mm, sobre a nervura central, próximo do pecíolo, das folhas imaturas (com menos de 1 cm de comprimento); normalmente poucos, 1 a 4, que rapidamente desaparecem, apenas a folha ultrapasse aquela medida.

Destes últimos, o terceiro pareceu-me particularmente relevante, até porque este caráter está presente nas populações do Paiva, mas também de Sintra e (vi esta Páscoa) de Pombal. Posteriormente, detetei ainda tricomas glandulosos, avermelhados, não só sobre a nervura central, mas mesmo no limbo das pequenas folhas imaturas (< 1 cm), na página superior. A presença muito rara de tricomas glandulosos em folhas de Quercus robur não é nova (vide Uzunova, Palamarev & Ehrendorfer (1997). Anatomical changes and evolutionary trends in the foliar epidermis of extant and fossil Euro-Mediterranean oaks (Fagaceae). Plant Systematics and Evolution 204(3): 141–159. doi:10.1007/BF00989202.)

Esta Páscoa dei com uma carvalha num terreno do meu pai em Pombal e decidi fotografar os tricomas da página superior e inferior, para colocar aqui no blogue.


Esta é uma fotografia (6 de abril de 2012, Pombal) tirada sobre a minha lupa de campo (20x). Foi a única foto, entre meia centena, em que consegui captar condignamente os tricomas glandulosos, avermelhados, da página superior de uma folha ainda muito pequena (acabada de brotar). Apesar de ter tentado (e muito!) captar os minúsculos tricomas transparentes da página inferior, não consegui. Porém, enquanto escrevia este artigo, tive uma ideia!

Fui aqui a um quintal, onde tenho umas carvalhas plantadas que trouxe da praia natural do Pego (rio Paiva); colhi umas folhinhas acabadas de brotar e coloquei-as na lupa binocular. Fotografei um dos óculos e eis o resultado:



Na primeira (2 de junho de 2012, Campo Benfeito) vêem-se os minúsculos tricomas transparentes da página inferior, abundantes entre igualmente minúsculas papilas. Esta foto foi feita há pouco na lupa binocular regulada para 40x. A segunda é apenas um recorte da primeira fotografia.



Nestas duas (2 de junho de 2012, Campo Benfeito) observam-se os tricomas glandulosos da página superior, também com a lupa binocular regulada para 40x. A segunda é também um recorte da primeira fotografia onde, no centro, se podem observar dois pelos simples sobre a nervura central.

Serão estes os carateres distintivos de Quercus robur subsp. broteroana?... Não sei ao certo. Nunca tive a oportunidade de observar detalhadamente espécimes de outros países da Europa... (embora, de todos os carateres, os pequenos tricomas da página inferior parecem-me muito fiéis aos exemplares portugueses e que, caso estivessem presentes na subespécie tipo, teriam grande probabilidade de ter já sido detetados). 

Talvez algum leitor amigo do presente blogue queira e possa repetir a experiência com exemplares de outras proveniências...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Um ano de que não há memória

Nunca vi as cerejeiras-bravas assim ...

... flores misturadas com folhas secas do ano anterior! Nos castanheiros, as sementes secaram nos ouriços ou foram atacadas pelo bichado. A má qualidade fez descer o preço da castanha, o produto agrícola mais rentável da Terra Fria transmontana, para 1 euro/kg, ou menos. Consequências do Verão seco e quente que se fez sentir no passado ano.
2012 pode ser ainda pior. Não há memória de um ano assim. Algumas décadas atrás e a fomes grassaria pela aldeias. Vale-nos a globalização.
As chuvas que caíram nos últimos dias animaram os prados e derreteram o adubo de cobertura no centeio e nas aveias. No entanto, tirando os quatro dedos travessos mais próximos da superfície, cuja água será rapidamente consumida pelas plantas herbáceas, o solo está tão seco como no final do Verão. Mesmo que a precipitação de Abril obedeça ao padrão, milhares de árvores estão em perigo porque não haverá água suficiente no solo para transpirar no Verão.
A situação do sobreiro e o castanheiro para fruto é particularmente preocupante. Estas espécies além de não suportarem variações excessivas da precipitação, estão num deplorável estado sanitário. Algo semelhante acontece nas plantações de cerejeira para madeira. Até a frugal oliveira está em risco. Muitas oliveiras poderão colapsar, quando chegar o Verão, em fisiografias convexas ou em solos muito delgados. As que sobreviverem têm a produção deste ano e do próximo comprometida. É que a oliveira diferencia as suas flores no ano anterior.
As árvores têm memória. Os efeitos de um ano extraordinário perduram por mais de um ano.
Vamos ver o que acontece mas a esperança é pouca.

domingo, 3 de abril de 2011

Um prado, algumas ovelhas e algumas árvores (Oleaceae, etc.)

















Não têm surgido posts neste blog, recentemente, por isso ocorreu-nos deixar aqui algo, hoje um pouco diferente do habitual.
Assim, postamos aqui hoje um prado ovelhoso, com diversas ovelhas:
Sheep - Wikipedia, the free encyclopedia
Existem também algumas árvores, que talvez os ilustres frequentadores deste blog possam identificar. Para além dos habituais Eucalyptus globulus Labill. (Myrtaceae) e Olea europaea L. (Oleaceae) -a oliveira- existem mais alguns exemplares de árvores que, embora fotografados a cerca de 1 km de distância, talvez sejam identificáveis!
Presumimos que também serão visiveis espécie de Quercus (género que inclui carvalhos, azinheiras e sobreiros) e Salix sp. (os salgueiros), para além de grandes gramíneas como Arundo sp.
Convém notar que as duas fotos aqui apresentadas foram obtidas em diversas épocas do ano: a de cima em Abril (Primavera) e a de baixo em Novembro (Outono).

Como sugestão musical, deixamos hoje a excelente Christina Pluhar e sua orquestra - e quem é que não aprecia uma verdadeira alma italiana?:
YouTube - Christina Pluhar, une âme italienne.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A marcescência das folhas em Quercus faginea (Fagaceae)


Exemplar de carvalho-alvarinho semi-caducifólico em S. Pedro de Moel.

Num excelente post anterior do meu amigo Carlos Aguiar, falou-se no conceito de marcescência e semi-caducifolia e deu-se como exemplo Quercus faginea e Quercus pyrenaica. É complicado referir que uma determinada espécie do género Quercus é marcescente ou semi-caducifólica porque se trata de género com multi-espécies que hibridam nas zonas de contacto e portanto podem partilhar haplótipos facilmente. A semi-caducifolia é típica das zonas temperadas húmidas na costa Este dos continentes e nas zonas subtropicais enquanto a marcescência ocorre em zonas montanhosas interiores em clima mediterrânico. O carvalho-cerquinho (Quercus faginea) é uma espécie típica das zonas mais continentais da Península Ibérica (Quercus faginea subsp. faginea). A sua presença no quadrante Sudeste da Península Ibérica (Quercus faginea subsp. broteroi), em zonas litorais parece ser uma contradição da ecologia desta espécie. Contudo a sua capacidade para absorver mais nutrientes durante o Outono, uma característica típica da marcescência, permitiu-lhe colonizar os solos pobres calcários do maciço estremenho, ocupando um nicho ecológico vago, já que sobreiro é incapaz de ocupar solos básicos. O centro Oeste do litoral Ibérico possui algumas áreas com um andar bioclimático e ombroclima (mesomediterrânico inferior húmido) com algumas semelhanças com as zonas temperadas húmidas, e que permitem o aparecimento dos louriçais mais exuberantes da nossa laurissilva incipiente. Neste contexto climático alguns exemplares de Quercus faginea e Quercus robur são claramente semi-caducifólicos, deixando parte das folhas verdes durante todo o ano. O facto de nesta região o carvalho-alvarinho e o carvalho cerquinho partilharem alguns haplótipos (especialmente na zona compreendida entre a Serra da Boa Viagem e Valongo), juntamente com as enormes populações de Quercus x coutinhoi (híbrido entre as duas espécies) da zona da Serra de Sicó, parecem indicar que estas estratégias evolutivas não são características intrínsecas das espécies mas sim o resultado de uma extensa troca de genes seguida de uma selecção positiva.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Mais uma planta não identificada (Brassicaceae)




Trazemos hoje aqui uma crucífera não identificada, fotografada no Jardim Botânico de Berlim já há vários anos. Não sabemos se será uma planta particularmente comum, mas parece-nos dar-se bem em sítios frescos e sombrios, apresentando uns curiosos bulbilhos globosos anegrados, algo semelhantes às amoras das silvas.
Pode ser que algum dos ilustres leitores deste blog nos possa esclarecer acerca da identidade desta crucífera...
A Fagus sylvatica L. (Fagaceae) e a Hedera helix L. (Araliaceae) também são bem visíveis nestas duas fotos, e, possivelmente, ainda outras espécies umbrófilas.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O castanheiro e a castanha, outra vez

Duas semanas de geada e secura retiveram a castanha nos ouriços, e os ouriços nas árvores. Alguns agricultores, preparavam-se já para pulverizar a copa dos castanheiros com água, a fim de promover uma queda uniforme dos ouriços e a expulsão da castanha. Dois homem, um tractor, uma cisterna a reboque e uma pistola de pulverização, ou um homem e um tractor com um atomizador acoplado aos três pontos são suficientes para a operação.
Felizmente nos últimos três dias choveu com abundância.
Hoje está um belíssimo dia de sol. A castanha cai em força. Nos soutos a azáfama é grande: gente amarrada ao chão apanha castanha para sacas de adubo ou de batata-semente, drenadas para os armazéns da cidade em carrinhas de caixa aberta.
No passado recente ninguém se atreveria a trabalhar no Dia de Todos os Santos. Os tempos são outros!

A) B)
 A) Ouriço aberto depois da castanha tombar ao solo; n.b. as quatro valvas características dos ouriços de Castanea e as três cicatrizes deixadas por cada uma das castanhas. B) Ouriços acabados de abrir em consequência das chuvas de ontem (mais informação sobre a morfologia floral do castanheiro aqui e aqui).

Alguns números que certamente alguns dos leitores deste blog gostarão de saber:
  • Um castanheiro dos grandes produz mais de 200 kg de castanha;
  • Um bom souto de castanhas pode produzir 15 T/ha de castanha;
  • Um homem pode colher 200 kg/dia, mas à jorna raramente ultrapassa os 150-180 kg/dia;
  • Uma saca de adubo com castanha pesa cerca de 40 kg;
  • Este ano a castanha está a ser paga entre 1 a 1,5 euros/kg; as variedades de castanha grande e precoce (e.g. 'Judia') são as mais bem pagas;
  • A jorna está a 45-50 euros;
  • A colheita da castanha custa, em média, 0,3 euros/kg; os grageios e o transporte oneram com mais 0,2 euros/kg o preço da castanha.
Sendo a castanha "o ouro da Terra Fria transmontana" por que razão dados quantitativos, como estes, são tão difíceis de obter? Mais ainda. Por que é tão parca em informação agrícola a internet? Por que escasseiam nos livros números fiáveis relacionados com a agricultura, às escalas local e regional?
As fotos de plantas endémicas disponíveis na net são melhores e mais variadas do que de muitas plantas agrícolas. É mais fácil conseguir listas de plantas do que descrições satisfatórias de sistemas de agricultura. Há mais informação etnobotânica publicada do que etnoagrícola. As práticas festivas tradicionais das sociedades camponesas estão descritas com mais pormenor na bibliografia do que o dia a dia agrícola e pastoril.
Este enviesamento é impróprio e reflecte o crescente afastamento das economias e das sociedades modernas das suas bases produtivas. E a agricultura é tão ou mais interessante do que a botânica!

domingo, 7 de março de 2010

A marcescência das folhas em Quercus pyrenaica (Fagaceae)

Na pouca botânica que se ensina na escola portuguesa, repetem-se, pelo menos em três anos distintos, os conceitos de caducifolia e de perenifolia. Os livros-texto escolares consideram caducifólias as plantas que perdem as folhas no Outono; a perenifolia é exemplificada como sendo o oposto de caducifolia. No Brasil ensinar-se-á, suponho, que as folhas das plantas caducifólias tombam no solo, quase em simultâneo, no início da época da seca. O conceito de caducifolia é afinal um pouco mais lato: nas plantas caducifolias a copa está despida de folha na estação desfavorável, que poderá ser a mais fria ou a mais seca do ano.
Nos dicionários de botânica encontram-se dois outros conceitos relacionados com os anteriores: semi-caducifolia e marcescência. As plantas semi-caducifólias perdem parte das folhas na estação desfavorável, permanecendo algumas delas funcionais, verdes, portanto. De acordo com esta definição, o
Quercus faginea subsp. broteroi «carvalho-cerquinho» e algumas populações portuguesas de Quercus robur «carvalho-roble» são semi-caducifólias. Nas plantas ditas marcescentes as folhas secam na copa e aí ficam, secas e pendentes, até ao início da estação favorável.

Diz-nos o livro "Los Bosques Ibéricos: una Interpretación Geobotánica" (Costa Tenório et al., 2001) que o Quercus pyrenaica (Fagaceae) «carvalho-negral» é uma planta marcescente.
Observem as imagens:


Quercus pyrenaica (Fagaceae) [as duas fotos mais pequenas foram tiradas na semana passada a caminho de Miranda do Douro, respectivamente em Ifanes (Miranda do Douro) e em Moveros, Espanha ; fotos CA]


A marcescência no Q. pyrenaica tem que se lhe diga.
As plantas jovens de Q. pyrenaica são marcescentes, muito bem. As plantas adultas, pelo contrário, são caducifólias, ou parcialmente marcescentes. Nas árvores representadas nas fotos, a parte superior da copa está despida de folhas, enquanto os ramos inferiores ou os rebentos de raiz (poulas radiculares) continuam revestidos de folhas. Aparentemente, as folhas secas persistem nos ramos juvenis (mais próximos do colo da árvore e que não produzem fruto), e caem dos ramos adultos (afastados do colo e que produzem fruto) no Outono.
E por que retêm as folhas os ramos juvenis de Q. pyrenaica?
Vêm-me desde já à ideia três hipóteses: 1) as folhas secas reduzem os efeitos das geadas, uma protecção importante para os ramos de pequeno diâmetro, e casca delgada, situados próximo da superfície do solo; 2) os Q. pyrenaica arbustivos e de pequeno porte competem ferozmente com os arbustos altos (e.g. Erica arborea e Cytisus), como Q. pyrenaica inicia o seu ciclo vegetativo muito tarde, é capaz de ser "boa ideia" dificultar o acesso dos competidores mais directos à luz do sol; 3) a marcescência é um carácter neutral, sem uma função clara, pelo menos na actualidade.
Provavelmente já alguém estudou o fenómeno. Senão, aqui fica uma deixa para uma bela tese em ecologia evolutiva.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Vegetação Natural Potencial de Portugal Continental

O grande fitossociólogo alemão R. Tüxen (1953) definiu do seguinte modo Vegetação Natural Potencial (VNP): um estado natural imaginário da vegetação ... que poderá ser projectado para o tempo actual ..., se a influência humana na vegetação fosse removida ... e a vegetação natural fosse imaginada como movendo para um novo equilíbrio numa fracção de segundo ... de modo a excluir os efeitos das alterações climáticas e as suas consequências”.
Por trocados ...
Imaginem que todas as pessoas abandonavam a vossa terra, e a vegetação podia evoluir livre da influência do Homem. Suponham ainda que a progressão do coberto vegetal ocorria suficientemente depressa de modo a que o clima mantivesse características semelhantes às actuais. A comunidade vegetal de maior complexidade estrutural - i.e. com maior número de estratos vegetais, e.g. estratos herbáceo, arbustivo e arbóreo - que culminaria esse processo de sucessão ecológica designa-se por Vegetação Natural Potencial (VNP).
Embora a identificação da VNP não seja fácil, e alguns aspectos teóricos do conceito sejam discutíveis, a verdade é que o conceito de VNP é insubstituível e tem uma inegável utilidade prática.

Uma equipa de fitossociólogos (especialistas em vegetação) portugueses liderada pelo Dr. Jorge Capelo (Estação Florestal Nacional)
publicou, recentemente, uma carta da VNP de Portugal Continental (Lu):



Carta da VNP de Lu (Capelo et al., Phytocoenologia, 37, 399-415, 2007). A resolução do mapa é propositadamente baixa e a legenda foi retirada (copyright oblige !)


Algumas das conclusões, muitíssimo breves, que se podem tirar da análise da referida carta:
  • A VNP em Lu é geralmente arbórea e dominada por uma ou mais espécies de árvores do género Quercus (Fagaceae), ainda que por vezes acompanhadas por Juniperus oxycedrus (Cupressaceae) «zimbro» nos vales mais secos, por Betula celtiberica (Betulaceae) «bidoeiro» nas montanhas, ou por Fraxinus angustifolia (Oleaceae) «freixo» nos solos mais férteis e espessos, por exemplo;
  • A Betula celtiberica (Betulaceae) «bidoeiro» é dominante nos bosques das áreas hiper-húmidas das Serras do Gerês, Peneda e Estrela;
  • Nos solos mais húmidos que o normal (e.g. fundos de vale) o estrato arbóreo dos bosques potenciais é constituído por Alnus glutinosa (Betulaceae) «amieiro», Fraxinus angustifolia (Oleaceae) «freixo» e/ou Salix sp.pl. (Salicaceae) (várias espécies de salgueiros);
  • A Olea europaea var. sylvestris (Oleaceae) «azambujeiro», acompanhada ou não pela Ceratonia siliqua (Fabaceae) «alfarrobeira», substitui os Quercus nos solos muito argilosos (barros ou solos vérticos) do sul do país (e.g. barros derivados de basaltos e rochas afins, de Lisboa e Beja);
  • A VNP tem um porte (fisionomia) arbustivo em "habitats especiais", como sejam o andar orotemperado da Serra da Estrela (grosso modo acima dos 1750 m de altitude), as escarpas interiores mais declivosas (e.g. encostas do troço final do Guadiana), as linhas de água permanentes de maior torrencialidade, as escapas litorais, as dunas secundária e terciária, e algumas comunidades de sapal.

domingo, 8 de novembro de 2009

Sobre a introdução da cultura do castanheiro para fruto em Portugal


Fim de semana outonal na Aldeia de Maçãs (Bragança). Os soutos estão cheios de gente a apanhar a castanha do chão. O produto de um longo dia de trabalho, acondicionado em sacas de adubo ou de batata-semente acumula-se junto à estrada, sob a protecção de um frondoso castanheiro. A tardinha aproxima-se. Mais uma hora e a carrinha de caixa aberta estará atestada de sacos de castanha, pronta para partir para a cidade.

Uma recente revisão das fontes históricas e paleoecológicas disponíveis sobre a história antiga do castanheiro como planta cultivada na Europa, oferece-nos quatro importantes conclusões (Conedera et al., Veget Hist Archaeobot, 13, 2004):
  • A primeira evidência do alargamento da distribuição do castanheiro liderado pelo Homem provém da Anatólia (Turquia) e data de 2100-2050 a.C.;
  • O cultivo do castanheiro terá sido levado para a Península Itálica pelos Gregos;
  • Não existem provas da plantação e cultivo sistemático do castanheiro fora da Península Itálica durante o período romano;
  • O castanheiro só ganha importância como planta frumentária no NW europeu na Alta Idade Média, consolidando-se nos sistemas tradicionais de agricultura a partir do séc. XI.
Esta última conclusão é particularmente importante. A cultura do castanheiro para fruto é, então, uma das inovações tecnológicas agrícolas da "revolução agrícola medieval"!

sábado, 7 de novembro de 2009

Três notas sobre o castanheiro (Castanea sativa, Fagaceae) III

O Engº Malato Beliz questionava, em 1987, a carácter indígena do castanheiro em Portugal, com base em dois argumentos: 1) o castanheiro está sempre associado à presença do homem; 2) e ausente dos bosques caducifólios mais bem conservados. Os surtos de tinta do castanheiro iniciados no século XIX não explicam esta ausência porque os solos de bosque são supressivos (impedem a acção) para o agente desta doença.
O castanheiro é, ou não, uma planta indígena de Portugal continental? Um pergunta importante, para uma importante planta cultivada.
Comecemos pelo princípio.
Os grãos de pólen depositados em turfeiras são a principal fonte de informação para reconstruir a história do castanheiro, e de muitas outras plantas, em Portugal, mas não a única (os autores clássicos, e.g. Plínio o Velho e Columella, a genética [estudos filogeográficos] e os macrorrestos vegetais [e.g. pedaços carbonizados de madeira], são também importantes).
As turfeiras são depressões permanente encharcadas que acumulam sedimentos orgânicos, ácidos e de lenta decomposição. Os grãos pólen que acidentalmente tombem numa turfeira degradam-se muito lentamente. Algumas trufeiras acumularam sedimentos e, por conseguinte, grãos de pólen, durante milhares de anos. Quanto maior profundidade, maior a antiguidade dos grãos de pólen e dos sedimentos que os contêm. Com técnicas apropriadas estes grãos de pólen podem ser identificados (geralmente ao nível da espécie ou do género), contados e, com maior ou menor precisão, indirectamente datados. O coberto vegetal variou ao longo do tempo, e, por esse motivo, a concentração e os tipos de pólen que se acumularam nas turfeiras. As sondagens paleopalinológicas são, por isso, uma fonte essencial de informação na reconstrução da paisagem vegetal, e dos climas passados, sobretudo nos últimos 11.500-14.000 anos antes do presente (BP).

Lama Grande (Montesinho, Bragança). Uma antiga turfeira drenada para o cultivo da batata semente nos meados do séc. XX.

É consensual que o castanheiro se refugiou na Península Ibérica durante a última glaciação (concluída cerca de 11.500 anos BP). Nas sondagens paleopalinológicas obtidas no norte e centro do território continental Português, ou em regiões espanholas vizinhas, os grãos de pólen de castanheiro são mais ou menos constantes num pequeno período quente chamado Interestadial Tardiglaciar (ca. 14.000-12.700 BP). O castanheiro acompanha a regressão da vegetação arbórea associada ao Dryas recente, um curta pulsação fria com cerca de mil anos de duração (ca. 12.700-11.500 anos BP, datas calibradas), e não recupera com a chegada do Holocénico (de 11.500 anos BP até hoje), ou as suas concentrações polínicas nas sondagens paleopalinológicas são tão baixas que existe o risco do seu pólen ser confundido com outros pólenes análogos (e.g. Sedum e Hypericum).
Alguns autores defendem que a C. sativa seria uma espécie pioneira de solos florestais intactos, o que justificaria a sua raridade durante o período de máxima expansão dos bosques holocénicos (grosso modo entre 1/4 e 1/2 do Holocénico) e a sua (modesta e pontual) recuperação, antes da romanização, em consequência de um incremento das actividades humanas durante as idades do bronze e ferro. Outros autores, com base em macrorrestos recolhidos em Portugal, propõem que o castanheiro teria persistido até muito tarde no NW de Portugal, em bosques de biótopos (sítios) húmidos e quentes, possivelmente próximos do litoral.
O mais provável - os dados paleopalinológicos e a ecologia actual da espécie assim o indicam - é que o castanheiro se tenha extinguido no território continental Português, num momento impossível de precisar, algures durante o último quarto do Holocénico. Se o castanheiro teve como habitat preferencial solos florestais húmidos (não encharcados), ricos em nutrientes, das terras baixas do NW de Portugal, é admissível que estes tenham sido, na sua totalidade, reclamados pela agricultura. Os castanheiros que hoje se cultivam no país são domesticados de origem, por enquanto, muito discutida. O castanheiro não é, portanto, indígena de Portugal!

domingo, 1 de novembro de 2009

Quercus x neomarei (Fagaceae) e Cistus x cyprius (Cistaceae)

Pouco antes das férias grandes o meu amigo Rubim Silva (F.Ciências-U.Porto) enviou-me um artigo da Nature - Rieseberg et al., The Nature of Plant Species, Nature, 440, 7081, 2006 - onde se concluía, preto no branco, que as espécies de plantas existem mesmo! Surpreendido? Não pense que se trata de uma questão científica menor e ultrapassada, ou então de um capricho de teórico. Embora antiga e discutida até à exaustão, a realidade da espécie nas plantas, e, implicitamente, a aplicação do conceito biológico de espécie e a similaridade (ou a dissimilaridade) dos processos de especiação nos animais e nas plantas, são temas em aberto, e de ponta.
A partir de dados recolhidos em mais de 200 géneros de plantas, os suprareferidos autores, resumidamente, defendiam que:
1) nas plantas com reprodução sexual a existência de grupos discretos indivíduos de morfologia similar é a regra, e não a excepção;
2) estes grupos de indivíduos estão, geralmente, reprodutivamente isolados. Os eventuais híbridos têm uma elevada probabilidade de serem estéreis, aliás, os híbridos férteis são mais prováveis entre os animais, do que entre as plantas;
3) a formação de híbridos não é a principal causa de, ainda assim, algumas espécies apresentarem fronteiras (morfológicas) mal definidas.
Em suma, a espécie não é um artefacto da razão. Muitos botânicos sobrevalorizaram, abusivamente, as dificuldades taxonómicas, e os testemunhos de hibridação, em Quercus (Fagaceae), Cistus (Cistaceae), Rubus (Rosaceae), Taraxacum (Asteraceae) ou Hieracium (Asteraceae), por exemplo, concluindo que as plantas são mais promíscuas do que os animais. Este enviesamento é antigo, e contaminou muitos teóricos da especiação (e.g. Darwin, por influência do seu amigo, e enorme botânico, Joseph Hooker).
Óptimo.
Para comemorar a descoberta, e a partilha de propriedades evolutivas entre plantas e animais, publico as fotos de dois híbridos (e respectivas espécies parentais), frequentes em Trás-os-Montes ;-)

Quercus pyrenaica (Fagaceae) «carvalho-negral» [Bragança]

Quercus faginea subsp. faginea (Fagaceae) «carvalho-cerquinho» [Bragança]

Quercus x neomarei (= Q. faginea subsp. faginea x Q. pyrenaica) (Fagaceae). N.b. folhas brilhantes, de recorte intermédio

À esquerda Q. pyrenaica; à direita Quercus x neomarei. N.b. diferenças na cor da folhagem


Cistus laurifolius (Cistaceae) [Bragança, Monte de S. Bartolomeu]

Cistus ladanifer (Cistaceae) «esteva, xara, ládano» [Bragança, Monte de S. Bartolomeu]

Cistus x cyprius (= C. ladanifer x C. laurifolius) (Cistaceae) [Bragança, Monte de S. Bartolomeu]

[fotos C. Aguiar]

domingo, 11 de outubro de 2009

Três notas sobre o castanheiro (Castanea sativa, Fagaceae) II

Castanea sativa 'Longal'

Castanea sativa 'Judia'

A 'Longal e a 'Judia' são as variedades de castanha mais cultivadas no NE de Trás-os-Montes. A primeira é uma castanha alongada, com poucas penetrações (envaginações da camisa na semente), um "marron", portanto, de sabor muito agradável e de fácil conservação. Por tudo isto, é a variedade regional mais procura pela indústria (a camisa é fácil de retirar) e a mais exportada para o Brasil (consegue resistir ao uma travessia de barco debaixo do inclemente sol tropical). A 'Judia' é uma castanha de grande calibre, carnuda, óptima para consumir em fresco. No ano passado, no início da estação, chegou a ser paga a 2,5 euros/kg, ao produtor.

O futuro da cultura do castanheiro está ameaçado. Por dois conjuntos de razões. Em primeiro lugar é expectável uma redução dos preços nos próximos anos, porque o castanheiro está em franca expansão na Turquia e na China. Embora a castanha portuguesa seja particularmente saborosa, a castanha estrangeira, depois de assada, congelada ou transformada a marron-glacé, será difícil de distinguir da nacional. Quanto vale a diferença de sabor? Muito pouco, provavelmente! E tanto os comerciantes, como os consumidores, são economicamente racionais!

Picnídios - estrutura reprodutiva assexual, em forma de pera, com um orfício para o exterior, no interior do qual se formam esporos assexuados, os picnidiósporos - de Cryphonectria (Endothia) parasitica (Fungi, Ascomycota), um fungo, agente causal do cancro-do-castanheiro. N.b. pequenos picnídios vermelhos a emergirem de uma fenda na casca, de um ramo, de um castanheiro.

Castanheiro com sintomas de tinta, uma doença radicular causada pelo "fungo" Phytophthora cinnamomi (Chromalveolata, Oomycetes). N.b. árvores saudáveis ao fundo.

As doenças, particularmente a tinta do castanheiro e o cancro, são duas outras ameaças sérias à cultura. A tinta controla-se com o uso de porta-enxertos resistentes, híbridos de C. crenata x C. sativa. O cancro combate-se com a aplicação de oxicloreto de cobre na parte intermédia da copa, ao abrolhamento. As consequências económicas das doenças no castanheiro, e a necessária reconversão dos soutos, embora com menos gravidade, recordam a crise da filoxera (uma praga radicular) e do míldio na vinha (uma doença tradicionalmente combatida com sulfato ou oxicloreto de cobre), no final do séc. XIX (vd. aqui).
[fotos C. Aguiar]

sábado, 10 de outubro de 2009

Três notas sobre o castanheiro (Castanea sativa, Fagaceae) I

Choveu finalmente em Trás-os-Montes (NE de Portugal). Ano desgraçado, este. Noutros tempos significaria fome; hoje, desde que haja água na torneira ...
A produção e a qualidade da castanha depende, em larga medida, das trovoadas de Verão. As chuvas de Verão engrossam a castanha, e aumentam o número de frutos férteis por ouriço. O castanheiro foi uma das culturas mais sacrificadas por este ano de seca. Nos soutos abundam as fulecras (frutos sem semente, a parte comestível da castanha, vd. aqui), a produção será fraca.

Muitas árvores mergulham verticalmente no solo raízes profundantes, especializadas na absorção de água, em busca dos lençóis freáticos. As fagáceas são vedoras particularmente eficientes; nos montados, por exemplo, em pleno Verão, por entre as ervas crestadas pelo sol e pela seca, os sobreiros e as azinheiras mantêm, frequentemente, os estomas (pequenos orifícios na superfície das folhas e dos caules verdes) abertos, transpirando grandes quantidades de água. A precipitação invernal é também essencial para o castanheiro - conforme se pôde perceber este ano - porque as águas subterrâneas acumuladas durante o Inverno sustentam as árvores durante o Verão.
Os castanheiros vivem tempos difíceis. Além do escasso reabastecimento dos lençóis freáticos nos últimos Invernos, as águas subterrâneas estão a ser activamente bombeadas para consumo público, ou rega. Consequentemente, muitos castanheiros dos soutos situados nas partes mais altas dos termos das aldeias (= território de uma aldeia) estiveram sujeitas a um stress hídrico acrescido durante todo o Verão. A doença da tinta vai-se agravar nos próximos anos!



Castanea sativa (Fagaceae). N.b. frutos (castanhas) em grupos de três em cada ouriço; os ouriços são deiscentes por quatro valvas; o ouriço tem origem numa cúpula que envolve três flores férteis (ver aqui); na terceria foto a contar do topo (clicar para ampliar) identificam-se no interior do ouriço três cicatrizes, correspondentes a três castanhas [fotos C. Aguiar].

A chuva humedeceu os ouriços e despoletou a deiscência dos frutos (libertação dos futos e consequente queda no solo). Se nas próximas três semanas visitarem um souto ouvirão o restolhar compassado da queda das castanhas no solo. Sem chuva, a deiscência dos frutos, sobretudo em variedades como a 'Judia', estaria em risco. Nos Outonos muito secos os produtores de castanha chegam a pulverizar com água a copa das árvores para facilitar a queda da castanha.
Por estes dias muitos bragançanos estão de férias, e os soutos enchem-se de gente a apanhar a castanha. Mais um mês e colhe-se a azeitona. São estas as duas maiores fontes de renda dos agricultores transmontanos.