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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Centaurea amblensis Graells (Compositae)






Para comemorarmos devidamente o Solstício de Inverno e o Natal de 2012, aqui fica uma planta que poucos botânicos portugueses terão encontrado em flor, o endemismo exclusivo da Península Ibérica
Centaurea amblensis Graells, Indic. Pl. Nov. Pug.: 6. 1854 (Compositae = Asteraceae)
 Syn.: Colymbada amblensis (Graells) Fernández Casas & Susanna, 


            Centaurea Luisieri Samp.
(http://ww2.bgbm.org/EuroPlusMed/PTaxonDetail.asp?NameCache=Centaurea%20amblensis&PTRefFk=7000000)

As fotos são de 30.IV.2009 e de 15.V.2010, em plena Serra de Chavães, perto de Arcos (conc. de Tabuaço, TM), a uma altitude de ca. de 840 m acima do nível do mar.
Pensamos que também estará presente a gramínea Poa bulbosa L., característica da conhecida classe de vegetação pratense perene Poetea bulbosae Rivas Goday & Rivas-Martínez in Rivas-Martínez 1978.


domingo, 3 de abril de 2011

Um prado, algumas ovelhas e algumas árvores (Oleaceae, etc.)

















Não têm surgido posts neste blog, recentemente, por isso ocorreu-nos deixar aqui algo, hoje um pouco diferente do habitual.
Assim, postamos aqui hoje um prado ovelhoso, com diversas ovelhas:
Sheep - Wikipedia, the free encyclopedia
Existem também algumas árvores, que talvez os ilustres frequentadores deste blog possam identificar. Para além dos habituais Eucalyptus globulus Labill. (Myrtaceae) e Olea europaea L. (Oleaceae) -a oliveira- existem mais alguns exemplares de árvores que, embora fotografados a cerca de 1 km de distância, talvez sejam identificáveis!
Presumimos que também serão visiveis espécie de Quercus (género que inclui carvalhos, azinheiras e sobreiros) e Salix sp. (os salgueiros), para além de grandes gramíneas como Arundo sp.
Convém notar que as duas fotos aqui apresentadas foram obtidas em diversas épocas do ano: a de cima em Abril (Primavera) e a de baixo em Novembro (Outono).

Como sugestão musical, deixamos hoje a excelente Christina Pluhar e sua orquestra - e quem é que não aprecia uma verdadeira alma italiana?:
YouTube - Christina Pluhar, une âme italienne.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Que árvore é esta? (III)

 Genista florida (Fabaceae)

Como se constrói um montado de giestas?
Quatro etapas:
1) Suspensão da agricultura - a mobilização do solo elimina irremediavelmente as plantas herbáceas pratenses e os arbustos;
2) Reconstrução por sementeira ou por abandono do estrado arbustivo - a sementeira, por exemplo do Cytisus striatus, era uma prática comum no norte e centro de Portugal sendo a sementeira das giestas, muitas vezes, realizada em simultâneo com o cereal no último ano antes do pousio; as giestas instalavam-se então sob a protecção do  cereal; durante a ceifa (à mão) havia o cuidado de não as danificar;
3) Desadensamento e condução dos arbustos;
4) Estabilização do coberto herbáceo pelo pastoreio.
Um dos últimos grandes agrónomo portugueses - o Engº Fernando Gusmão - contou-me há uns meses atrás, que no Barroso, antes da chegada dos adubos de síntese, se praticava uma rotação de 14 anos com giestas (C. striatus) nas terras mais pobres: 13 anos de giesta e 1 de cereal. Uma rotação semelhante de 7 anos foi-me explicada para a Terra-Quente transmontana.
Quem quiser aprofundar o papel das giestas nos sistemas de tradicionais de agricultura da montanha portuguesa tem que ler os artigos do Prof. George Estabrook (ver aqui).
Remato o post com uma ideia de investigação que pelos vistos nada tem de novo: o montado de giestas. A recuperação deste modelo não é despiciente se tomarmos em consideração as ameaças à segurança alimentar que pairam sobre globo, e que a síntese da amónia depende, em exclusivo, de energias fósseis. Depois até pode ser uma forma de ajudar a desenvolver no mediterrânico o conceito de "forest garden" proposto pelos permacultores.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Que árvore é esta ? (II)

O meu último post continha uma pergunta descomprometida.
"Que estranha árvore é esta?"
 A maior parte dos leitores que se deram ao trabalho de escrever um comentário identificaram correctamente a planta retratada na foto, ou andaram lá perto. Sim, trata-se de uma Genista florida, com porte arbóreo porque foi conduzida (podada) pelo homem, e ciclicamente debicada por ovelhas e pelas vacas.


O montado de giestas-piorneiras não é novidade, e o porquê da sua existência também não. 
«Debajo de cada retama [Retama sphaerocarpa] se cría un borrego», dizem os castelhanos. O ilustre fitossociólogo, Prof. Salvador Rivas-Martínez, costuma servir-se deste ditado para explicar a importância das genísteas [leguminosas das tribo das Genisteae, i.e. das giestas] na gestão da fertilidade do solo no passado recente. As giestas são leguminosas e estabelecem um simbiose nas raízes com bactérias fixadoras de azoto. Por essa via, desempenhavam um papel fundamental na introdução deste elemento essencial à produtividade agrícola, nos sistemas orgânicos de agricultura. Por outro lado, as suas raízes mergulham no solo a profundidades superiores às das raízes das plantas herbáceas pratenses. Com o tempo, a bombagem activa de nutrientes para as camadas superficiais, e biologicamente mais activas do solo,  acaba por criar uma ilha de fertilidade em redor das giestas. Para aproveitar estes elementos nutritivos em favor das plantas pratenses o agricultor necessita de desadensar o mato, de construir um montado. Uma elevada densidade de plantas arbustivas elimina as plantas herbáceas mais desejadas porque estas são estritamente heliófilas (exigentes em luz): a sombra e as ervas pratenses nunca combinaram.
(continua)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Serapias cordigera (Orchidaceae)







Suponho que esta bela orquídea, que aparece frequentemente em lameiros de montanha da classe de vegetação pratense perene Molinio-Arrhenatheretea, ainda não estava representada neste blog. Assim, para dar um pouco mais de cor e frescura a este Verão tão quente e seco, aqui ficam duas imagens desta espécie tão interessante e ornamental:
Serapias cordigera L. -- Sp. Pl., ed. 2. 2: 1345. 1763 [Jul-Aug 1763], conforme se pode consultar aqui:
IPNI Plant Name Query Results

terça-feira, 8 de junho de 2010

Thymelaea coridifolia subsp. dendrobryum (Thymelaeaceae)

Um passeio pelos cervunais (prados seminaturais de altitude) da serra da Estrela pode revelar-se deveras interessante pois neles ocorrem um conjunto de espécies particulares da flora portuguesa. Os cervunais são prados de áreas relativamente elevadas, pobres em espécies, dominadas pelo cervum (Nardus stricta L.) e outras gramíneas perenes, densas e cespitosas. Estas espécies estão bem adaptadas ao frio, precipitações elevadas e a solos orgânicos, mal drenados, profundos e ácidos, muitas vezes húmidos e encharcados. Os cervunais, regra geral, ocupam áreas de depressão resultantes da erosão levada a cabo durante o último período glaciar, onde ocorre acumulação de materiais líticos de áreas convexas adjacentes.
Distinguem-se assim os cervunais húmidos e secos e os do andar superior e do andar intermédio (num post posterior tentarei caracterizar cada um dos subtipos).
Estes meios, no Parque Natural da Serra da Estrela, são desde há muito utilizados como áreas de pastoreio, tendo sido, por isso, sujeitos a vários tipos de pressão como o fogo, a herbivoria e o corte. A principal ameaça que recai sobre os cervunais é o abandono da ancestral e tradicional prática do pastoreio estival que “naturalmente”, impede a invasão destes prados pelos urzais e zimbrais de altitude. Estes habitats foram considerados de interesse comunitário prioritário (Directiva 92/43/CEE para o estabelecimento da Rede Natura 2000).

Apresento, hoje uma planta, que pode ser observada por esta altura nos cervunais de natureza mais seca da serra da Estrela, onde se associa e confunde, antes e depois da floração com Calluna vulgaris. Thymelaea coridifolia subsp. dendrobryum, endemismo ibérico, descoberta no nosso país por P. Van der Knap (J. Paiva, com. Verb), encontra-se representada no nosso país apenas nesta serra numa única localidade. A população não deverá exceder os 500 indivíduos e ocupa uma área inferior a 1 ha. É um subarbusto lenhoso, de até 10 cm de altura e hábito prostrado, com folhas lineares a lineares-lanceoladas pilosas na extremidade e flores unisexuais, solitárias que surgem na extremidade dos ramos do ano anterior de cor amarelada.


quinta-feira, 3 de junho de 2010

Veratrum album (Melanthiaceae)
















Fica hoje aqui esta bela planta alpina: Veratrum album L., Sp. Pl. 2: 1044. 1753 [1 May 1753], como se pode consultar aqui:
Biodiversity Heritage Library: Caroli Linnaei ... Species plantarum
Tão rara entre nós -apenas se pode encontrar na Serra da Estrela- é também conhecida como «Heléboro branco» ou «Veratro».
Vive em prados de montanha, no seio da classe MULGEDIO ALPINI-ACONITETEA VARIEGATI Hadač & Klika in Klika & Hadač 1944 (cujo nome correcto é Mulgedio-Aconitetea Hadač & Klika in Klika & Hadač 1944), sobretudo dentro da aliança Adenostylion alliariae Braun-Blanq. 1926 (cujo nome correcto é Adenostylion Braun-Blanq. 1926), conforme se pode consultar nesta preciosa fonte: SYNSYSTÈME DE LA FRANCE

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Flora do lameiro do Poulão VIII: Holcus lanatus, Poa trivialis e Briza media

Bom, aí estão as gramíneas.
Como se de uma avalanche se tratasse, num mês e meio, a gramíneas encanaram (produção de entrenós caulinares alargados), emborracharam (formação de uma intumescência na bainha da última folha causada pela subida da inflorescência), espigaram e cobriram o solo.
Entre as gramíneas mais frequentes no lameiro do Poulão contam-se:
A)B)
C)
A) Holcus lanatus «erva-lanar», B) Poa trivialis e C) Briza media.

A grande maioria das espécies de gramíneas perenes de lameiro espiga praticamente em simultâneo. A concertação dos estados fenológicos intra e - vou arriscar - interespecificamente tem certamente uma lógica evolutiva. Da mesma forma que a agregação dos peixes em densos cardumes é reprodutivamente vantajosa - e.g. reduz a probabilidade de predação dos indivíduos e dos seus ovos -, espigar ao mesmo tempo provavelmente diminui os riscos e os danos da herbivoria (e.g. consumo de folhas e sementes) e, por esta via, incrementa o sucesso reprodutivo das gramíneas pratenses.
Na paisagem pristina (antes do homem controlar em seu proveito a produtividade primária global) a concentração temporal da oferta de biomassa forraginosa atenuava o efeito dos herbívoros na capacidade competitiva e na produção de sementes das gramíneas pratenses. O corte para feno praticado pelo Homem nas pastagens higrófilas seminaturais perenes, i.e. nos lameiros, é mais extenso e uniforme do que o corte e consumo de erva realizado pelos grandes herbívoros. No entanto, a fenação tradicional faz-se muito tarde, quando muitas das cariópses (fruto das gramíneas) estão já maduras. A vibração das inflorescências produzida pelas gadanheiras, viradores de feno e enfardadeiras, pode desarticular as sementes mais maduras e frágeis, que tombam no solo acompanhadas, ou não, por algumas peças da flor [glumelas] e/ou da inflorescência [glumas], ocorrendo, deste modo, alguma ressementeira.
A herbivoria não é forçosamente a causa da concentração temporal da floração das gramíneas pratenses perenes. Por outras palavras: a hipotética redução da herbivoria resultante da concentração da floração poderia bem ser um subproduto evolutivo, uma consequência indirecta de uma pressão de selecção que nada tem que ver com grandes mamíferos. Fiz uma pequena busca na net e não encontrei nada de interessante sobre as causas da explosão de gramíneas que caracteriza as pastagens seminaturais dominadas por gramíneas perenes nos meses de Maio ou Junho. Pode ser que algum leitor deste blogue esteja ao corrente do que se tem escrito sobre o assunto.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Flora do (meta)lameiro do Poulão VII: (meta)Poa bulbosa

Os lameiros são mosaicos de comunidades vegetais organizadas ao longo de um gradiente mesotopográfico, regido pela disponibilidade de água na primavera e pelo encharcamento do solo. Os lameiros são, portanto, lameiros de lameiros, i.e. metalameiros.
Como referi num post anterior, as plantas dos habitats mais secos de lameiro geralmente são mais precoces a florir do que as plantas dos habitats de lameiro mais húmidos. Este fenómeno é particularmente evidente entre as gramíneas.

Nas cotas mais elevadas do metalameiro do Poulão floresce abundantemente por esta altura a Poa bulbosa:
Conto discorrer um pouco mais sobre a ecologia desta espécie, quando um dia escrever um grupo de postas sobre os prados naturais, ou semeados, de Trifolium subterraneum - de todas as plantas deste mundo a que mais me fascina. Para já queria chamar a vossa atenção para dois pormenores curiosos da morfologia da Poa bulbosa.
Conforme podem observar na foto, os colmos (= caule das gramíneas) da P. bulbosa apresentam um curioso engrossamento na base (daí o restritivo bulbosa). Este engrossamento deve-se à acumulação de água e amido num entrenó basal do colmo. As estruturas caulinares formadas por um ou mais entrenós alargados com função de reserva chamam-se cormos (= bolbos sólidos). Os cormos podem ser subterrâneos, ou aéreos; não preciso de explicar a diferença. Tanto os cormos como os bolbos de pequena dimensão, diferenciados nas inflorescências (e.g. Allium vineale), ou na axila de folhas (e.g. dentes de alho), são apelidados por bolbilhos.
Os bolbilhos têm um papel fundamental na propagação e dispersão da P. bulbosa. Com facilidade fragmentam-se, e são transportados, por exemplo, entre os cascos das ovelhas, e plantados no solo, dando origem a novas plantas.
Os bolbilhos são muito apreciados por porcos (bravos ou mansos) e ovelhas que os procuram activamente (com muito mais sucesso o porco do que a ovelha).
A P. bulbosa é, à semelhança de outras plantas do género Poa, uma planta vivípara. A maioria das flores, quando não todas as flores, são substituídas por bolbilhos aéreos, suspensos nos ramos da inflorescência. Em contacto com o solo, enraízam rapidamente, sustentados pelas reservas injectadas pela planta-mãe no bolbilho e pela actividade de folhas fotossintéticas (visíveis na foto).
O aspecto desgrenhado destes bolbilhos aéreos tem a sua lógica evolutiva. As pequenas folhas são rijas, e ligeiramente curvas, duas características morfológicas destinadas a facilitar a dispersão dos bolbilhos, pendentes da pelagem dos mamíferos (dispersão ectozoocórica).

A analogia subjacente ao termo vivíparo aplicado pelos botânicos à P. bulbosa é abusiva, e muito ao estilo do essencialismo biológico do séc. XVIII, e da primeira metade do séc. XIX. Os animais ditos vivíparos parem indivíduos com característica próximas dos adultos, i.e. num estadio de desenvolvimento mais avançado do que o ovo dos insectos, dos répteis, das aves, ou dos mamíferos monotrématos (nota: existem insectos e répteis vivíparos). Os bolbilhos aéreos não são sementes germinadas, mas sim estruturas vegetativas, morfologica e geneticamente idênticas à planta mãe (vd. primeira foto). Os bolbilhos aéreos são pequenas P. bulbosas suspensas no ar e no tempo, enquanto aguardam por um dispersor. Assim sendo, a P. bulbosa é uma planta de plantas: uma metaplanta, uma meta-Poa.
A analogia da P. bulbosa com os animais vivíparos só seria aceitável se existissem, por exemplo, gatos ou cães assexuados, com proliferações celulares somáticas em vez de órgãos sexuais, que no decurso da sua ontogénese felina ou canina, se diferenciassem em novos gatos, ou novos cães. Nunca vi metagatos, nem metacães clonais, de oito ou mais patas. Aliás, estou razoavelmente seguro que são uma impossibilidade biológica, porque tanto os gatos como os cães - ao contrário das plantas - são seres unitários, i.e. não têm uma estrutura modular.

Quanto mais seco o habitat da Poa bulbosa maior a quantidade de bolbilhos subterrâneos na base dos colmos, e aéreos na inflorescência. Quando a disponibilidade de água é maior, os pequenos cormos basais não se chegam a diferenciar, e maior a proporção de flores na inflorescência, i.e. maior a importância da reprodução sexuada.
A Poa bulbosa "lê" o habitat, e em conformidade modula a sua forma. Por isso, tanto coloniza prados perenes mesotróficos (lameiros), como pastagens de trevo-subterrâneo, ou afloramentos rochosos cobertos com uma delgada camada de solo. A plasticidade ecológica da P. bulbosa provavelmente é uma propriedade emergente da sua plasticidade morfológica.
Planta extraordinária, não é?

sábado, 15 de maio de 2010

Flora do lameiro do Poulão VI: Saxifraga granulata (Saxifragaceae) e Trifolium stictum (Fabaceae)

No passado fim-de-semana era assim:

Lameiro do Poulão. A Primavera foi fria e chuvosa, por essa razão os freixos (Fraxinus angustifolia, Oleaceae) que marginam o lameiro abrolharam muito tarde, na primeira semana de Maio.

Na parte mais seca do lameiro, próximo da entrada, floriam com com abundância numerosas espécies de plantas, entre as quais se destacavam a Saxifraga granulata ...

Saxifraga granulata (Saxifragaceae), uma espécie acidófila frequente em prados, taludes e margens de caminhos. Na segunda foto observam-se bolbilhos na base da planta; cada bolbilho pode dar origem a uma nova planta.

e um curioso trevo:
Trifolium strictum (Fabaceae).
N.b. na segunda foto pequena glândulas na margem da folha, abastecidas por uma pequena nervura (constituída por feixes vasculares).

O lameiro do Poulão é rico em trevos porque é pastoreado no início da Primavera e os seus solos são moderamente ricos em fósforo.

sábado, 8 de maio de 2010

Euphrasia hirtella (Orobanchaceae)














Continuando com as plantas da tribo Rhinantheae, actualmente pertencentes à família Orobanchaceae, apresentamos hoje uma imagem da belíssima e discreta Euphrasia hirtella Jord. ex Reut.
Esta erva anual hemiparasítica é muito rara em Portugal e a possibilidade de a termos encontrado deveu-se às preciosas indicações do amigo CA. Fotografámo-la há alguns anos no concelho de Bragança, num lameiro de montanha.
As suas preferências habitacionais vão para a vegetação das classes de lameiros e cervunais MOLINIO-ARRHENATHERETEA e NARDETEA STRICTAE.
Consta que existe ainda outra espécie de Euphrasia L. em Lu: E. minima Jacq. ex DC. (Syn.: E. Mendonçae Samp.), como se pode verificar consultando a Flora iberica XIII (Vitek, 2009), já disponível na Net (ver aqui), mas a Euphrasia minima deve ser ainda mais difícil de encontrar em Portugal que a sua congénere E. hirtella.
A palavra grega "euphrasía" significa alegria, regozijo, que os botânicos habitualmente sentem ao encontrar tão formosas plantas (cf. Flora iberica XIII: 454).

domingo, 2 de maio de 2010

Flora do lameiro do Poulão V: Alopecurus arundinaceus (Poaceae)

Interrompido o pastoreio, o lameiro do Poulão incha de erva. Quem manda nos lameiros em Maio e Junho são as gramíneas (= poáceas): os meristemas apicais destas plantas deixaram de produzir caule e folhas em Março, diferenciam agora flores; desde o início de Abril os entre-nós situados imediatamente abaixo da parte reprodutiva alongam-se aceleradamente pela acção de meristemas intercalares. As plantas prostradas produzem quanto antes sementes, preparando-se para serem submergidas por uma floresta de colmos (nome dado aos caules das gramíneas).

Entretanto floriu a primeira gramínea perene:


Alopecurus arundinaceus (Poaceae), a primeira gramínea a florir nos lameiros do NE de Trás-os-Montes. Tem uma clara preferência por solos encharcados bem expostos ao sol (vd. imagem 2). Ao mesmo género pertence o A. myosuroides, a mais temível infestante de cereais da Europa temperada; em Portugal as infestantes de cereais são outras.

Este ano foi particularmente chuvoso e muitos prados não puderam ser pastoreados em Março-inícios de Abril. Por outro lado há água em abundância, suficiente em muitos deles até ao fim de Junho, início de Julho. Consequentemente, em muitos lameiros a erva será muito alta, a produção de feno elevada, porém de qualidade baixa. Se a erva é muita, parte das folhas da base das gramíneas e de outras plantas não terão acesso à luz e apodrecerão. Fenos assim são pouco apreciados pelos animais.
Por hora não faltam ervas nos campos para alimentar ovelhas. Os lameiros de pasto alimentam as vacas. Mas aproxima-se o mês mais crítico na alimentação dos animais na montanha: Junho. O pouco feno que sobra do ano anterior já não presta, os animais torcem-lhe o nariz; os prados anuais de plantas indígenas estão cobertos de uma fina camada de plantas anuais secas, de baixa digestibilidade e proteína bruta; o lameiros de feno estão fechados a acumular biomassa; restolhos de cereais só mais tarde, depois da ceifa.
Ser agricultor na montanha não é tarefa fácil!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Flora do lameiro do Poulão IV: Taraxacum (Asteraceae)

Bom, um tema difícil: o género Taraxacum (Asteraceae) «dentes-de-leão».
À semelhança dos Rubus (Rosaceae) e Hieracium (Asteraceae), muitos Taraxacum são apomíticos (reprodução assexual por semente), ou misturam reprodução sexual com apomixia. Com plantas assim é difícil identificar taxa com combinações consistentes de caracteres no tempo e no espaço, e aplicar as regras lineanas de nomenclatura (ver este post).
Felizmente, acaba de ser colocada online pela Flora Ibérica uma revisão do género Taraxacum (vd. aqui).

No lameiro do Poluão identificam-se dois dentes-de-leão:


Taraxacum duriense Soest. (Asteraceae). N.b. folhas partidas com os segmento terminal curvado para trás (sagitado, pouco visível na imagem), frutos oliváceos (cor de azeitona) e brácteas involucrais externas (as que se apresentam enroladas na base da inflorescência) com uma estreita margem hialina (branca e translúcida)

Taraxacum erythrospermum Besser (Asteraceae). N.b. folhas divididas em numerosos segmentos muito estreitos côncavos, de segmento terminal triangular; brácteas involucrais verdes; corpo das cipselas (frutos) ferrugíneo (cor de ferrugem)

Impressiona-me o facto destas duas espécies, embora muito semelhantes, não partilharem o mesmo habitat; nunca as vi misturadas. O T. duriense é uma planta dos lameiros de regadio; acompanha e floresce ao mesmo tempo que as Bellis «margaridas» e o Narcissus bulbocodium. O T. erythrospermum prefere pastagens mais secas, sobre coluviossolos bem drenados. Também a vejo em margens de caminhos, malhadas (comunidades Poa bulbosa e Trifolium subterraneum) e relvados urbanos. No género Sanguisorba (Rosaceae), e não só, acontece algo semelhante: a S. minor é característica de lameiros de regadio, a S. verrucosa habita lameiros de secadal.

domingo, 25 de abril de 2010

Flora do lameiro do Poulão III: Bellis perennis, Moenchia erecta, Lepidium heterophyllum, Ranunculus peltatus

Trago hoje 4 plantas de flores bancas que por estes dias florescem no lameiro do Poulão.
Primeiro a Bellis perennis (Asteraceae), a conhecida margarida, em floração deste o início de Abril, e que persistirá até ser abafada pelas gramíneas. A B. perennis distingue-se facilmente de outras compostas arrosetadas (com folhas concentradas na superfície do solo) pelas suas lígulas brancas, muito estreitas, frequentemente tintas de vermelho.



Como choveu muito, este ano é invulgarmente frequente nas partes mais altas e secas dos lameiros a Moenchia erecta (Caryophyllaceae), uma pequena e frágil planta com uma marcada preferência por solos temporariamente encharcados. Ao contrário da grande maioria das cariofiláceas a M. erecta tem geralmente 4 sépalas e 4 pétalas. As sépalas debruadas de branco são também inconfundíveis.


Em breve tentarei explicar por que razão os lameiros não são uma comunidade, mas sim um intrincado complexo de vegetação pratense, frequentemente enriquecido com vários tipos de vegetação nitrófila, semiterrestre (= anfíbia) e aquática. A planta que se segue, o Lepidium heterophyllum (Brassicaceae), é um conhecido indicador das versões mais secas dos chamados lameiros de regadio, a comunidade vegetal mais produtiva destes complexos de vegetação. Esta pequena crucífera perene coloniza ainda com facilidade margens de caminhos e taludes algo húmidos.


Nas valas e canais iluminados pelo sol, com águas permanentes lentas mas não estancadas, está em flor o Ranunculus peltatus (Ranunculaceae):



A revisão do José Pizarro (ver aqui) tem desenhos e chaves dicotómicas muito úteis para identificar os Ranunculus aquáticos (Ranunculus subgénero Batrachium) portugueses.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Lameiro de Prados

Aproveitando o interessante post sobre o Lameiro do Poulão de autoria do Carlos Aguiar, apresento também, um lameiro, onde ocorre uma das espécies de narciso menos comum do nosso país.

Vista parcial do lameiro


Este lameiro, localizado numa área planáltica do Parque Natural da Serra da Estrela, a 1050 m de altitude, encerra a maior população desta espécie em Portugal. O solo com elevado nível de humidade edáfica, apresenta uma textura média, pH ácido e elevados níveis de matéria orgânica. É um prado meso-higrófilo submetido a fenação entre Julho e Agosto e pouco pastoreado nos meses posteriores.

Uma das primeiras plantas a iniciar o ciclo vegetativo neste lameiro, senão mesmo a primeira, é o Narciso-trombeta (Narcissus pseudonarcissus subsp. nobilis), acompanhado pelos também precoces Ranunculus ficaria e Narcissus bulbocodium. Esta espécie é um endemismo ibérico que no nosso país, segundo os últimos trabalhos de prospecção, se encontra distribuída por 7 populações no Noroeste de Portugal (MI, TM e BA), quase sempre em lameiros de feno húmidos e em solos de reacção ácida.

Esta espécie é um geófito, isto é, possui um bolbo a partir do qual despontam as folhas vegetativas, verde glaucas e oblogo-lineares. Ainda do bolbo, emerge o escapo (caule) oco que na porção superior suporta a espata (bráctea escariosa) que encerra a flor. As flores são solitárias e formadas por um perianto com seis segmentos amarelo-pálidos, algo contorcidos, e a coroa em forma de trombeta amarelo-dourada aloja seis estames dispostos numa única série e o estilete cilíndrico coroado por um estigma trilobado. O fruto é uma cápsula globosa trigonal.

Narcissus pseudonarcissus L. subsp. nobilis


A fenologia desta espécie é a seguinte: de Março a Maio ocorre a floração; de Maio a Junho verifica-se a senescência da parte aérea e início da gema terminal; em Junho dá-se a dispersão das sementes; de Agosto a Outubro inicia-se o desenvolvimento das raízes adventícias; de Outubro a Novembro, começam a despontar as folhas a partir do bolbo; de Novembro a Abril, despontam e tornam-se visíveis as folhas e também de Dezembro a Abril desenvolve-se a placa basal que ao dividir-se dá origem a um novo bolbo.

Uma das principais ameaças que recai sobre esta população é a colheita de bolbos em resultado da sua proximidade à rede viária.

Alguma da informação aqui deixada foi retirada da tese “Contribuição para a Conservação In Situ de Narciso-de-trombeta Narcissus pseudonarcissus L. subsp. nobilis (Haw.) A. Fernandes, em Portugal” de Duarte Moreira da Silva.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Flora do lameiro do Poulão II: Narcissus bulbocodium (Amaryllidaceae) e Luzula campestris (Juncaceae)

Entre as primeiras plantas a florir no lameiro do Poulão (ver aqui) contam-se estas duas conhecidas monocotiledóneas:

Narcissus bulbocodium (Amaryllidaceae)

Luzula campestris (Juncaceae)

As primeiras plantas a florir nos lameiros são curtas ou de hábito prostrado, e a maioria apresenta bolbos, rizomas ou um sistema radicular engrossado, rico em reservas. Para quê elevar as flores se as gramíneas ainda não encanaram (i.e. ainda não produziram entre-nós alongados), e a temperatura e a radiação luminosa são insuficientes para grandes acumulações de biomassa? Mais vale investir as reservas cuidadosamente escondidas no solo durante o Inverno num arranque vegetativo e reprodutivo precoce, sobrepor-se ligeiramente aos pseudocaules das gramíneas e conquistar quanto antes a atenção dos poucos polinizadores disponíveis. O tempo urge: a grande ameaça está em marcha.
[fotos CA]