domingo, 31 de maio de 2009

Paisagem vegetal transmontana no início do séc. XIX

A primeira fonte objectiva de informação sobre a paisagem sobre a paisagem vegetal de Trás-os-Montes é o “Voyage en Portugal, par le Conte de Hoffmansegg” escrito por J. Link e publicado em 1805. Este livro descreve a viagem realizada em Trás-os-Montes pelo botânico prussiano conde de Hoffmansegg no ano de 1800.

Transcrevo, apenas, duas referências a Mirandela (traduzidas do francês) que revelam uma paisagem mais intensivamente "utilizada" do que a de hoje:

"[no limite norte da Cova de Mirandela] todos os lados das montanhas são cultivados até ao cume”;

"[na proximidade de Mirandela] as montanhas estavam ornadas de grandes e belas flores de Ladanum [Cistus ladanifer] e os vales cobertos de ricas searas”.

Esteval de Cistus ladanifer [foto C. Aguiar]

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Paisagem vegetal transmontana no séc. XVI

O Doutor João de Barros, um erudito quinhentista pioneiro da história e da gramática portuguesa, visitou Trás-os-Montes em 1547. Na sua “Geographia d’entre Douro e Minho e Tras-os-Montes”, provavelmente datado de 1549, oferece-nos uma das primeiras descrições da paisagem transmontana. Transcrevo três passagens daquele texto que corroboram a hipótese de uma desflorestação do interior de Portugal continental  francamente mais precoce do que é geralmente admitido.

 “Estendese esta comarca de Traslosmontes des Galiza athe o Douro e he muito montuosa e monte e terras àsperas”.

”Os monte dali [terras de Mirandela e Lamas] são muito suaves, cheios de alecrim, rosmaninho, ruda, macella, manjerona, dormideiras e outras eruas cheirosas, e muito pouco tempo ha que ali se plantàrão as primeiras oliveiras e agora ha muito azeite na terra."

 “Esta terra [Vale da Vilariça] tem mais pombas e pombais que entre Douro e Minho, e a causa he porque as muitas aruores dantre Douro e Minho as segigão em ellas os Gauioens, Açores e outras aves de rapina lhe fasem muito dano, o que não fazem tanto em Traslosmontes, que ha menos aruores.”

terça-feira, 26 de maio de 2009

Acer pseudoplatanus (Sapindaceae)

O Acer pseudoplatanus «bordo-comum» é uma das plantas de arruamento e de parque mais comuns em Portugal. Está perfeitamente estabelecido que se trata de uma espécie indígena de Portugal (mais pormenores disponíveis neste livro).

Agora já será tarde - a floração do A. pseudoplatanus  ocorre na primeira metade de Maio - mas no próximo ano prestem atenção às inflorescências e às flores desta espécie. Em primeiro lugar há que reparar que as inflorescências se situam na extremidade dos ramos do ano: os ramos têm um crescimento determinado. Por essa razão a floração é muito tardia.

Acer pseudoplatanus (Sapindaceae) [foto C. Aguiar]

As flores são muito interessantes. Entre as pétalas e os estames observa-se um disco-nectarífero espesso e brilhante (do néctar). Os estames, geralmente 7 ou 8, um número invulgar cá para as nossas latitudes, inserem-se em pequenas reentrâncias na margem interna do disco-nectarífero. Logo após a polinização desenham-se duas protuberâncias no ovário que darão origem às asas características dos frutos dos Acer.
A sexualidade no A. pseudoplatanus é muito complexa. As flores são, regra geral, funcionalmente unissexuais - umas produzem pólen e outras frutos - coexistindo ambos os tipos nas inflorescências. Para promover a polinizaçao cruzada as flores femininas e masculinas não amadurecem ao mesmo tempo.
Os Acer foram recentemente transferidos da família Aceraceae para as Sapindáceas, a família do Litchi sinensis «líchia» e da Paullinia cupana «guaraná».

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Flores amarelas pelo caminho

A presença abundante de plantas de flor amarela a bordejar os caminhos é uma das imagens mais marcantes da Primavera em Portugal continental. A maioria daquelas plantas pertencem à família das Brassicáceas (= Crucíferas). 
Três exemplos:

Sinapis alba (Brassicaceae)

Sisymbrium officinale (Brassicaceae)

Hirschfeldia incana (Brassicaceae) [fotos C.Aguiar]

A floração das crucíferas ruderais de flor amarela não é simultânea. As primeiras a florir, geralmente, são os Diplotaxis (e.g. D. catholica) e a Brassica barrelieri. Pouco depois florescem os Sisymbrium sp.pl., a Hirschfeldia incana, a Bunias erucago, a Sinapis alba ou o Rapistrum rugosum. Estas duas últimas espécies são claramente termófilas, i.e. preferem territórios quentes pouco atreitos as geadas tardias.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A flor das angiospérmicas II

Há 25 anos atrás aprendi que a flor das magnólias (género Magnolia, família Magnoliaceae) e de outras famílias afins (e.g. Winteraceae) eram um modelo apropriado da flor ancestral das angiospérmicas. I.e., as flores das primeiras plantas com flor (= angiospérmicas), “nascidas” algures no início de Cretácico quando os dinossauros pululavam pela Terra, seriam semelhantes àquelas plantas.

Eixo floral (= receptáculo) e fruto em formação de Magnolia grandiflora (Magnoliaceae) logo após a queda das tépalas. De baixo para cima identificam-se as cicatrizes das tépalas, as cicatrizes dos estames (reparar que estão dispostas em espiral, um carácter assumido como primitivo) e o fruto em formação. No fruto imaturo - fruto múltiplo de folículos - observam-se carpelos livres próprios de um gineceu apocárpico (outro carácter primitivo) com os estigmas já secos [foto C. Aguiar]. N.b. o adjectivo "primitivo" está fora de moda, foi banido entre outras razões porque é politicamente incorrecto!!!

Dominavam na altura as ideias de dois amigos improváveis – o soviético/arménio, Armen Takhtajan, e o estadunidense, investigador do Jardim Botânico de Nova York, Arthur Cronquist (que em plena guerra fria aprendeu russo para ler os textos dos botânicos soviéticos e se deliciava a cantar com voz de barítono áreas de óperas russas) – ambos influenciados por outro grande botânico estadunidense, C. Bessey [1845-1915]. 

Armen Takhtajan [1910-] e Arthur Cronquist [1919-1992] [foto extraída daqui]

As primeiras flores, defendiam estes autores, eram grandes, com muitas peças inseridas em espiral num eixo alongado, com as peças do perianto semelhantes entre si (i.e. com tépalas), estames pouco diferenciados e carpelos livres (vd. foto de M. grandiflora). A flor primitiva seria polinizada por escaravelhos (coleópteros) que em troca do serviço polinização se banqueteavam com tépalas e estames cheios de energia, provocando geralmente sérios estragos nas peças florais.
Com entrada em cena nas duas últimas décadas da filogenia molecular e dos métodos cladísticos a interpretação da flor primitiva evoluiu assinalavelmente. A continuação da narrativa fica adiada para um destes dias.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Astragalus incanus subsp. nummularioides (Fabaceae)

O género Astragalus, com mais de 2500 espécies, é, muito provavelmente, o mais diverso entre todas as plantas flor (angiospérmicas).
O número de espécies descritas nos territórios que se estendem desde a Turquia até à Índia, nos domínios da Flora Orientalis do grande botânico suíço Pierre Edmond Boissier (disponível, por exemplo, aqui), é estonteante. Só a Turquia tem cerca de 460 espécies dispersas por 61 secções!
O género Astragalus tem uma presença bem mais modesta em Portugal (13 espécies), entre outras razões porque no nosso país dominam os solos derivados de rochas ácidas.
O Astragalus incanus subsp. nummularioides em Portugal é exclusivo dos afloramentos de rochas  ultrabásicas do Maciço de Bragança-Vinhais. O seu período de floração decorre entre o final de Abril e o início de Maio. Esta espécie tem uma raiz enorme e espessa, uma adaptação comum a várias espécies que habitam os serpentinitos nordestinos.


Astragalus incanus subsp. nummularioides (Fabaceae)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Euonymus europaeus (Celastraceae)

Um vez que hoje é o Dia Mundial da Conservação das Plantas (não o sabia, o João Pinho acabou de o referir num comentário ao último post deste blogue) duas fotos de umas das árvores mais raras, senão a mais rara, de Portugal Continental:

Euonymus europaeus (Celastraceae). Bragança, Serra de Nogueira [foto C. Aguiar]

O E. europaeus é pontual na margem de linhas de água sombrias, pouco perturbadas, com solos profundos e ricos em matéria orgânica no leste da Terra Fria Transmontana.
Sem frutos confunde-se com alguma facilidade com Salix porém, ao contrário da maioria das espécies deste género, tem folhas opostas.