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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Bem-vindos à Gralheira

"...
Dois meses depois Amaro foi nomeado pároco de Feirão, na Gralheira, serra da Beira Alta. Esteve ali desde Outubro até o fim das neves.
Feirão é uma paróquia pobre de pastores e naquela época quase desabitada. Amaro passou o tempo muito ocioso, ruminando o seu tédio à lareira, ouvindo fora o Inverno bramir na serra. Pela Primavera vagaram nos distritos de Santarém e de Leiria paróquias populosas, com boas côngruas. Amaro escreveu logo à irmã contando a sua pobreza em Feirão; ela mandou-lhe, com recomendações de economia, doze moedas para ir a Lisboa requerer. Amaro partiu imediatamente. Os ares lavados e vivos da serra tinham-lhe fortificado o sangue; voltava robusto, direito, simpático, com uma boa cor na pele trigueira.
..."
[Eça de Queiroz, O Crime do Padre Amaro]


Ontem andei pelo Montemuro (Beira Alta).
Na aldeia da Gralheira, concelho de Cinfães, mesmo ao lado da Feirão do Padre Amaro, por lá continuavam os mesmos velhos de sempre, de cajado na mão e pele arrepanhada pelo frio, a gozar a volta do sol.  Apressados, mas, suponho, com pouco que fazer, circulavam rostos femininos escondidos sob a capa burel, ataviados com a tradicional roupagem preta, mas de botas revestidas com pêlo por dentro, bem diferentes das socas de madeira de antigamente. À saída da aldeia um ou outro pastor vigiava com displicência pequenos rebanhos de arouquesas pachorrentas, a enfardelar com avidez os primeiros rebentos de final de Inverno. A ovelhas circulavam mais longe, para os lados da Lagoa de D. João, ou mais alto na serra, em redor das penedias graníticas.


Ao contrário do que seria esperar numa terra tão agreste e distante dos grandes centros, senti as gentes felizes, despreocupadas, bem. O contentamento circula por aquelas ruas de séculos maceradas pelo gelo e pelo vento. Este vento que penetra até aos ossos, a detestada ventania de Inverno é afinal a causa de uma súbita regeneração. A serra povoou-se de gigantescos moinhos de vento. Fantásticos geradores eólicos com pás de 40 m produzem electricidade dita renovável, e uma renda fixa que pinga em contínuo nos bolsos dos proprietários do monte que até há bem pouco tempo ninguém consegui a vender. Bem melhor do que o subsídio da CE ou o borrego de final de Outono! Com a nova indústria vieram mecânicos, electricistas, engenheiros e até turistas da grande cidade para quebrar a solidão do defeso invernal. Nunca faltam clientes no restaurante da aldeia, com prato do dia e onze empregados a tempo inteiro. Os migrantes de primeira e segunda geração recuperam palheiros e casas devolutas para gozar a reforma quantas vezes oferecidas ao virar os cinquenta. Alí ao lado, em Campo Bem-Feito, instalou-se um grupo profissional de Teatro. A Câmaras Municipais, com as rendas das eólicas, mantêm as estradas impecáveis. As carreiras de passageiros levam e trazem os garotos para os novos centros escolares com aquecimento central e cantina, professor de ginástica e de inglês.
Outro tempos aqueles a que Eça se refere no capítulo terceiro do "Crime do Padre Amaro"!


Parou de chover há três dias e os fogos despontaram, automaticamente, pela mão dos pastores, um pouco por toda a Serra. Melhor agora do que no pino de Verão. O solo está húmido e as plantas continuarão dormentes à espera dos calores de Primavera. Estes fogos frios e "ajardinados" são uma prática tão antiga como necessária. A palhuça seca de Agrostis x fouilladei, Molinia caerulea ou de Arrhenatherum elatius subsp. bubosum que por ora cobre a serra de pouco serve: é o pão seco e bafiento do animal. Os tapetes densos de Halimium ou as toiças envelhecidas de Ulex minor «tojo-molar» atrapalham a circulação dos animais e retiram espaço à forragem. Uma pequena carqueja aqui, um pequeno giestal acolá, tudo somado dá muito fogo que não entra nas estatísticas, que escapa à atenção de jornalistas e analistas, mas que regenera o pasto e dá de comer aos rebanhos. Nas áreas queimadas, a partir da Primavera os rebentos túrgidos de proteína do Ulex minor podem ser pastados com proveito e compensar a fibra bruta das gramíneas do monte. Um fabuloso endemismo regional, a Armeria beirana, também é beneficiado pelas "limpezas" de Inverno de potenciais competidoras. Os bosquetes de carvalho-negral (Quercus pyrenaica) suprimem o fogo e lucram com a eliminação dos arbustos de Erica arborea que lhe consomem a luz. Se é certo que o fogo pode atrasar a regeneração do bosque também é verdade que a não impede. Cada vez que vou ao Montemuro vejo mais árvores.
Os fogos violentos de Verão, esses sim, são indesejáveis e um produto da modernidade.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Apologia do fogo - uma divagação sem rumo


Infrutescência de Banksia sp. após fogo recente. Em cada folículo aberto é visível um septo caduco, e a asa de algumas sementes
(este post é baseado em observação pessoal e não em bibliografia, algumas ideias podem estar erradas. Peço desde já desculpa pela extensão do post)

No sudoeste da Austrália, o clima também é mediterrânico. Também, como cá, as plantas aprenderam a sobreviver às grandes flutuações climáticas, em precipitação e temperatura, quer ao longo do ano, quer entre anos diferentes. Também, como cá, as plantas aprenderam a sobreviver ao fogo - mas cá, apenas algumas; lá, praticamente todas.
O fogo na Austrália mediterrânica faz parte do quotidiano das plantas, ao contrário de cá. Cá existem muitas comunidades que, após um fogo, acabam severamente alteradas na sua composição, podendo levar muitas décadas ou séculos a restabelecerem-se como eram - mas não vou entrar por aqui - ao passo que lá, mesmo as florestas dos eucaliptos gigantes - aqueles que atingem 90 metros de altura (karri, Eucalyptus diversicolor e tingle, Eucalyptus jacksonii) - mesmo estas florestas estão de alguma forma dependentes do fogo; a regeneração de semente não ocorre se não após um incêndio, a floresta "climácica" não é auto-sustentável sem esta perturbação. As árvores que fazem a floresta - vários eucaliptos - comportam-se, no fundo, como plantas pioneiras mas de vida longa.

Infrutescência de Banksia sp. antes do fogo. À direita, inflorescência de Banksia coccinea

A grande maioria das plantas arbustivas e arbóreas na Austrália possui uma estratégia que é raríssima cá: a serotinia, isto é, as sementes são apenas libertadas do fruto após um estímulo externo (e não na sua maturação, como é costume), que no caso australiano é quase sempre o fogo, quer directamente pelo calor e desidratação, quer indirectamente por matar a planta-mãe, o que resulta também na desidratação do fruto. O banco de sementes está, portanto, na copa das plantas, a salvo dos predadores, fungos e demais intempéries, e não no solo como cá acontece nas plantas a que costumamos chamar de seeders.
Entre as mais fantásticas, estão dois géneros formidáveis, Banksia e Hakea (já consigo ouvir muitos portugueses a contorcerem-se quando disse este último nome...), ambos da família Proteaceae. As infrutescências de Banksia são estruturas impressionantes. Imaginem um ananás de madeira compacta; é mais ou menos isso. Cada inflorescência de Banksia produz largas centenas de flores (milhares nalgumas espécies como B. grandis), mas só uma ínfima percentagem produz fruto. Contudo, todas as flores, polinizadas ou não, se mantém na infrutescência e endurecem, fazendo uma estrutura compacta e pesada. Uma estrutura tão compacta que não arde.

Fruto de Hakea sp. (a referida no texto), totalmente "escancarado". Vêem-se as cavidades, uma de cada lado, onde estavam alojadas as 2 únicas sementes. 55g de "madeira", 2 sementes.

Tenho alguns dados concretos, mas são medidas únicas, não médias, devem ser vistos com cautela. Um "cone" de Banksia grandis, que pesa 765g (peso seco) tem cerca de 180 sementes (o peso das sementes é desprezável). Não parece nada de especial, mas comparem com uma pinha de pinheiro bravo, que tem cerca de 180 sementes e pesa ca. 95g. Mesmo assim, a B. grandis não lhe fica muito à frente. Já uma Banksia menziesii produz um cone com 100g e que contém 18 sementes... uma outra Banksia, 190g para 18 sementes... e finalmente, uma Hakea sp. (foto acima): um fruto que pesa 55g (peso seco sem as sementes), contém apenas 2 sementes... resumindo:
Pinus pinaster: 0.6 g/semente
B.nutans: 1.1 g/s
B.grandis: 4.25 g/s
B.menziesii: 5.6 g/s
B.sp. (nenhuma das fotografadas): 10.6 g/s
Hakea sp. (foto em cima): 27.5 g/s

Hakea victoria, uma das mais famosas. A planta vai reabsorvendo os pigmentos, ano a ano, das folhas velhas, o que provoca uma gradação de cores verde>amarelo>vermelho>senescência devido aos pigmentos que ficam. Segundo bibliografia, tal não acontece quando a planta cresce em solos férteis (raros), por motivos óbvios.

É um investimento brutal em carbono fixado que estas plantas fazem, para tão poucas sementes. O caso da Hakea sp. é inacreditável. Tudo isto para garantir a sua protecção - contra o fogo e contra predadores terríveis como as cacatuas - ou para outro fins que agora não vislumbro.
As sementes, como já se depreende, permancem bem fechadas dentro dos frutos lenhificados (folículos) indefinidamente e são apenas libertadas por acção do fogo. Nada como fazer um churrasco de cones de Baksia para observar este fenómeno, que é bastante rápido após o fogo passar.
A explosão de vida após um fogo, lá, é ainda mais intensa do que cá. Para além de Banksia e Hakea, muitos outros arbustos exibem serotinia, nomeadamente uma miríade de géneros da família Myrtaceae (Melaleuca, Beaufortia, Calothamnus, Eucalyptus e sei lá quantos mais...), que é altamente diversificada naquela região; e também da família Casuarinaceae (Allocasuarina e Casuarina). Todas estas sementes de todas estas espécies aproveitam o pós-fogo, numa apoteose de germinação, favorecida pela abundância de nutrientes acabados de libertar. Outras plantas só agora florescem, a sua floração é rara e praticamente só ocorre estimulada pelo fogo. Mas isso fica para depois.
Infrutescência de Banksia grandis - 25 cm, 765g.

E termino por aqui, que já vai longo, mas ficou muita coisa por dizer. A partir desta base, que não é quase nada, podia-se abordar tantos outros temas. Em próximos posts, talvez, outras perspectivas!

Os frutos protagonistas.
Fotos: Ana Júlia Pereira e Miguel Porto

domingo, 26 de setembro de 2010

Epilobium angustifolium e E. hirsutum (Onagraceae)

Nos passados 21 a 24 de Setembro decorreu em Bragança uma Conferência Internacional de Ecologia da Paisagem-IUFRO, subordinada ao tema "Forest Landscapes and Global Change" (vd.aqui e aqui).
A palestra de abertura foi entregue à Drª Monica Turner, uma conhecida ecóloga norte-americana que há décadas estuda o efeito do fogo e das explosões de escolitídeos na estrutura e função dos ecossistemas de Yellowstone (ver aqui). A palestra versou, essencialmente, o impacto dos fogos que devassaram o mais antigo Parque Nacional do planeta em 1988, e os brutais ataques de escolitídeos que se lhe seguiram  Os resultados obtidos pela equipa da Drª Turner são claros: nem os fogos de copa massivos, nem os "outbreaks" de escolitídeos são desastres ecológicos em Yellowstone; estes dois tipos de perturbação são parte integrante da história, e do funcionamento dos ecossistemas e das paisagens deste imenso território. Tudo voltará a ser como dantes, desde que o clima e os padrões de perturbação se mantenham estáveis.
A passagem da conferência que mais me impressionou foi o relato da descoberta do facto de os ecossistemas de Yellowstone conservarem eficazmente o azoto (N) após fogo. Não fazia ideia. Nas fotos que ilustraram a palestra identificavam-se muito bem, por entre os guiços ardidos de gimnospérmicas arbóreas, mares de flores rosadas de uma famosa, e formosa, planta: o Epilobium angustifolium. Trata-se de uma planta nitrófila de distribuição holártica, raríssima em Portugal (apenas está citada para Serras do Gerês e Montesinho). De acordo com a Drª Turner, esta e outras plantas subnitrófilas de orla e clareira de bosque são os agentes da conservação do N após fogo. Entretanto, a regeneração das árvores - em Yellowstone de Pinus contorta, P. albicaulis, Picia engelmannii e Abies lasiocarpa -  reduz rapidamente o habitat destas plantas preferencialmente heliófilas (de ambientes ensolarados), e os nutrientes inicialmente por elas retidos acabam por ser capturados pelas árvores. Então, a presença de plantas subnitrófilas facilita a regeneração das árvores porque o N geralmente é o nutriente mais escasso, e que mais controla a produtividade dos ecossistemas naturais. Que mecanismo maravilhoso! No nosso rectângulo, desempenham uma função semelhante, entre muitas outras plantas, várias espécies dos géneros Asphodelus (Xanthorrhoeaceae), Urtica (Urticaceae) «urtigas», Senecio (Asteraceae) e Cirsium (Asteraceae).

Como não encontro as minhas fotos de E. angustifolium, aqui vai um primo, o Epilobium hirsutum, comum de Norte a Sul nos depósitos vasosos que marginam as nossas linhas de água.

A conservação do N nas paisagens de matriz florestal não resultou de um desenho cuidado de mosaicos de ecossistemas pela mão da evolução, ou de um ente superior. A selecção natural, não esqueçamos, só actua à escala do gene, do indivíduo ou, quando muito, de pequenos grupos de indivíduos [não mais de 25, dizem-nos Levin & Kilmer (1974)]. A cíclica, e brusca, disponibilização de N por eventos de perturbação nas florestas criou oportunidades de especiação que por sua vez redundaram em benefício das essências florestais. Faz todo o sentido, mas não estava a priori previsto, creio.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Smilax pendulina Lowe

Smilax pendulina Lowe (Madeira, 2004; foto: Sandra Mesquita)


Em recente viagem á Madeira vi levadas, que por terem rebentado, arrastaram partes significativas de encostas com laurissilva de til (Clethro arboreae-Ocoteetum foetentis) e lembrei-me entretanto desta planta. Tem sido referida em floras e outras publicações, como 'Smilax aspera', esta salsaparrilha da Madeira. É uma planta da laurissilva madeirense. São plantas geralmente inermes (sem espinhos), as folhas verde-claras, são baças ou com um brilho mate e ceroso e têm consistência sub-rígida, por vezes quase herbácea. Os frutos são avermelhado-claros quando completamente maduros, com ca. de 1,2 - 1,5 cm de diâmetro, de secção triangular-arredondada. Solicito agora o pequeno incómodo de confrontar os citados caracteres com uma descrição de S. aspera. Pode ser aqui na Flora iberica. Os deslizamentos na laurissilva resultam do encontro da perturbação gravitacional espontânea, das chuvadas catastróficas e de alguma irreflectida engenharia. Com muitas outras plantas, entre elas tis centenários, as derrocadas deste ano - algumas com largas dezenas de metros de extensão, arrastaram banais Smilax aspera ou endémicos S. pendulina? Julguem os leitores por si próprios , se nos serve uma taxonomia assim?

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Serra do Reboredo II

O nome Reboredo - do latim robur (nominativo) ou roboris (genitivo) - é uma alusão directa aos carvalhais de Quercus pyrenaica (Fagaceae) «carvalho-negral» que revestiam esta serra em tempos de antanho. Ao colonizador romano que habitava as villae da Vilariça (ver aqui), ou ao presor astur-leonês alto-medieval, mais do que uma hipotética dominância do carvalhal, deveria impressionar a natureza insular desta montanha: um pequeno maciço montanhoso, agudo, com abundantes carvalhais, a emergir, imponente, de um mar acinzentado de sobreiros e azinheiras.

No pequeno MPEG que se segue tentei capturar uma interessantíssima peculiaridade do carvalhal do Reboredo:


Conseguem ver, logo no início do vídeo, um zimbro (Juniperus oxycedrus, Cupressaceae)? E não é o único! O carvalhal do Reboredo está apinhadinho de zimbros! Se a combinação sobreiro e zimbro é incomum à escala do mediterrânico (vd. aqui), então que dizer deste "carvalhal-zimbral"!

Antes de explorar as causas desta combinação florística tão original convém saber que este bosquete foi, recentemente, sujeito a uma cuidadosa limpeza (eliminação mecânica da vegetação arbustiva), que as suas árvores são todas muito jovens, e que os zimbros, quer adultos quer juvenis, são intolerantes à sombra.
O árvores retratadas no filme certamente, evoluíram a partir de carvalhiças (carvalhos arbustivos, baixos, com grande densidade de caules), secularmente submetidas a pastoreio e corte. Somente após os fluxos migratórios de 60-70 (séc. XX), e a generalização do uso de derivados de petróleo na cozinha e no aquecimento, as carvalhiças tiveram a oportunidade de progredir para alto fuste, i.e. de tomar um porte arbóreo. A paisagem de matriz arbórea visível nas fotos do post anterior (clicar aqui) tem uma génese muito recente (voltarei a este tema para a semana).
O carvalho-negral emite poulas radiculares com grande facilidade (rebentos caulinares com origem em gomos adventícios diferenciados em raízes próximas da superfície do solo). Graças a este mecanismo, sob regimes de perturbação (e.g. corte e fogo) de baixa intensidade, consegue rapidamente recolonizar grandes espaços, por via vegetativa, a partir de um reduzido número de indivíduos iniciais. Por conseguinte, o crescimento vertical das árvores (evolução para alto fuste) foi acompanhado pela expansão horizontal do carvalhal, e pela eliminação das clareiras.

As duas hipóteses aventadas nos parágrafos anteriores - a juvenilidade e a origem do carvalhal do Reboredo a partir de carvalhiças muito abertas e intensamente pastoreadas - sustentam-se nas seguintes observações (os inquéritos estruturados e a fotografia aérea seriam a forma mais apropriada e simples de testar estas hipóteses, mas não tive tempo):
  • árvores pequenas e equiénias (da mesma idade)
  • abundância de troncos de pequeno diâmetro mortos ou dominados (não visíveis no filme)
  • baixa diversidade específica de plantas herbáceas vivazes de orla (plantas características da classe Trifolio-Geranietea)
  • presença abundante de Cytisus striatus, uma giesta pioneira, no sub-bosque (nas orlas dos carvalhais mais maduros esta espécie é substituída pelo C. scoparius subsp. scoparius)
A janela de oportunidade oferecida pela redução da pastorícia e da recolha de lenhas terá sido aproveitada pelo zimbro, uma espécie na época frequente em afloramentos rochosos de difícil acesso no vale do Sabor, e disseminada com grande eficiência a longa distância pelas aves. A canópia (i.e. a copa) do carvalhal, entretanto, fechou, e o zimbro ficou aprisionado no seu interior. Por outro lado, a expansão do carvalhal eliminou as clareiras impedindo a regeneração do zimbro, e de muitas outras espécies heliófilas (e.g. Cytisus striatus).
O estrato arbóreo dos bosques misto de carvalho e zimbro caracteriza-se, então, por uma combinação florística fortuita e transiente, condenada ao insucesso (à escala temporal das árvores, é claro). O filme retrata uma árvore condenada à morte pelos Quercus: um violento e impudente assassinato, com uma lentidão e requinte próprios do mundo vegetal. Não faz sentido, por isso, descrever um novo tipo de carvalhal na Serra do Reboredo. Os bosques mistos de zimbro e carvalho são uma curiosidade tão rara, como temporária.

P.S. dedico este post aos meus alunos do CET (curso de especialização tecnológica) "Defesa da Floresta Contra Incêndios", organizado pelo IPB (Instituto Politécnico de Bragança) em Torre de Moncorvo. Nunca é tarde de mais para voltar a estudar!

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Alyssum serpyllifolium subsp. lusitanicum (Brassicaceae) I

O A. serpillifolium subsp. lusitanicum (= A. pintodasilvae) é uma pequeno arbusto da família da couve (Brassicaceae), supostamente endémico das rochas ultrabásicas do NE de Portugal (Maciços de Morais e de Bragança-Vinhais) e da Galiza (Melides). Encontra-se, neste momento, em plena floração cobrindo de um manto amarelo os serpentinitos transmontanos.


Comunidade de A. serpillifolium subsp. lusitanicum (Samil, Bragança) [foto C. Aguiar]

Esta espécie coloniza solos recentemente abandonados pela agricultura cerealífera e margens de caminhos. Embora menos abundante é frequente em estevais de Cistus ladanifer e Genista hystrix e em comunidades herbáceas vivazes.
A regeneração do Alyssum depende da perturbação do solo. A mobilização mecânica do solo, a movimentação dos animais domésticos, as fossadas dos javalis ou os ciclos de congelamento-descongelamento da superfície do solo nos dias frios de Inverno facilitam a instalação desta espécie. A sua abundância está, em grande medida, relacionada  com o historial recente de uso agrícola do solo.
A correlação entre a presença desta espécie e os afloramentos de rochas ultrabásicas é absoluta. Uma boa ajuda para os especialistas em cartografia geológica e para os prospectores de minerações de níquel, crómio e platina.