domingo, 29 de Novembro de 2009

Serra do Reboredo II

O nome Reboredo - do latim robur (nominativo) ou roboris (genitivo) - é uma alusão directa aos carvalhais de Quercus pyrenaica (Fagaceae) «carvalho-negral» que revestiam esta serra em tempos de antanho. Ao colonizador romano que habitava as villae da Vilariça, ou ao presor astur-leonês alto-medieval, mais do que uma hipotética dominância do carvalhal, deveria impressionar a natureza insular desta montanha: um pequeno maciço montanhoso, agudo, com abundantes carvalhais, a emergir, imponente, de um mar acinzentado e tristonho de sobreiros e azinheiras.

No pequeno MPEG que se segue tentei capturar uma interessantíssima peculiaridade do carvalhal do Reboredo:

video

Conseguem ver, logo no início do vídeo, um zimbro (Juniperus oxycedrus, Cupressaceae)? E não é o único! O carvalhal do Reboredo está apinhadinho de zimbros! Se a combinação sobreiro e zimbro é incomum à escala do mediterrânico (vd. aqui), então que dizer deste "carvalhal-zimbral"!

Antes de explorar as causas desta combinação florística tão original é preciso, em primeiro lugar, perceber que este bosquete foi, recentemente, sujeito a uma cuidadosa limpeza (eliminação mecânica da vegetação arbustiva), que as suas árvores são todas muito jovens, e que os zimbros, quer adultos quer juvenis, são intolerantes à sombra.
O árvores retratadas no filme certamente, evoluíram a partir de carvalhiças (carvalhos arbustivos, baixos, com grande densidade de caules), secularmente submetidas a pastoreio e corte. Somente após os fluxos migratórios de 60-70 (séc. XX), e a generalização do uso de derivados de petróleo na cozinha e no aquecimento, as carvalhiças tiveram a oportunidade de progredir para alto fuste, i.e. de tomar um porte arbóreo. A paisagem de matriz arbórea visível nas fotos do post anterior (clicar aqui) tem uma génese muito recente (voltarei a este tema para a semana).
O carvalho-negral emite poulas radiculares com grande facilidade (rebentos caulinares com origem em gomos adventícios diferenciados em raízes próximas da superfície do solo). Graças a este mecanismo, sob regimes de perturbação (e.g. corte e fogo) de baixa intensidade, consegue rapidamente recolonizar grandes espaços, por via vegetativa, a partir de um reduzido número de indivíduos iniciais. Por conseguinte, o crescimento vertical das árvores (evolução para alto fuste) foi acompanhado pela expansão horizontal do carvalhal, e pela eliminação das clareiras.

As duas hipóteses aventadas nos parágrafos anteriores - a juvenilidade e a origem do carvalhal do Reboredo a partir de carvalhiças muito abertas e intensamente pastoreadas - sustentam-se nas seguintes observações (os inquéritos estruturados e a fotografia aérea seriam a forma mais apropriada e simples de testar estas hipóteses, mas não tive tempo):
  • árvores pequenas e equiénias (da mesma idade)
  • abundância de troncos de pequeno diâmetro mortos ou dominados (não visíveis no filme)
  • baixa diversidade específica de plantas herbáceas vivazes de orla (plantas características da classe Trifolio-Geranietea)
  • presença abundante de Cytisus striatus, uma giesta pioneira, no sub-bosque (nas orlas dos carvalhais mais maduros esta espécie é substituída pelo C. scoparius subsp. scoparius)
A janela de oportunidade oferecida pela redução da pastorícia e da recolha de lenhas terá sido aproveitada pelo zimbro, uma espécie na época frequente em afloramentos rochosos de difícil acesso no vale do Sabor, e disseminada com grande eficiência a longa distância pelas aves. A canópia (i.e. a copa) do carvalhal, entretanto, fechou, e o zimbro ficou aprisionado no seu interior. Por outro lado, a expansão do carvalhal eliminou as clareiras impedindo a regeneração do zimbro, e de muitas outras espécies heliófilas (e.g. Cytisus striatus).
Os bosques misto de carvalho e zimbro é, então, uma combinação transiente, condenada ao insucesso (à escala temporal das árvores, é claro). O filme retrata uma árvore condenada à morte pelos Quercus, um violento e impudente assassinato. Não faz sentido, por isso, descrever um novo tipo de carvalhal na Serra do Reboredo.

P.S. dedico este post aos meus alunos do CET (curso de especialização tecnológica) "Defesa da Floresta Contra Incêndios", organizado pelo IPB (Instituto Politécnico de Bragança) em Torre de Moncorvo. Nunca é tarde de mais para voltar a estudar!

sábado, 28 de Novembro de 2009

Serra do Reboredo (Moncorvo) I

Nas bibliografias agronómica e geográfica, tradicionalmente, são reconhecidos dois espaços ecologicamente homogéneos no interior norte e centro de Portugal continental: a Terra Quente e a Terra Fria. Os fitossociólogos e os bioclimatologistas confundem o primeiro com o andar bioclimático mesomediterrânico, e o segundo com o andar supramediterrânico.

Dominam as paisagens vegetal e agrária da Terra-Quente os bosques de Querci perenifólios - sobreirais e azinhais, mistos de Juniperus oxycedrus «zimbro», ou não -, os estevais de Cistus ladanifer (Cistaceae) «esteva-comum», os olivais, os amendoais e a vinha. O trigo era o cereal mais cultivado na Terra-Quente. A Terra-Fria situa-se acima dos 650-700 m de altitude. Por essa razão, chove mais, faz mais frio (temperatura média anual inferior a 12º C) e as geadas iniciam-se mais cedo do que na Terra-Quente. Encontram um óptimo ecológico na Terra-Fria os Querci «carvalhos» caducifólios (Quercus robur e Q. pyrenaica), os urzais mesófilos (matos baixos dominados por Erica [Ericaceae] «urzes»), o castanheiro, a batateira e o centeio.

O uso agrícola do território borratou a linha de fronteira entre os andares meso e supramediterrânico, i.e. entre a Terra-Fria e a Terra-Quente. A Serra do Reboredo (concelho de Moncorvo) é um dos locais mais propícios para observar esta transição em Trás-os-Montes, sobretudo no Outono, quando o amarelo e o castanho da folhagem revelam a distribuição, e a ecologia dos Querci caducifólios.


Serra do Reboredo (concelho de Torre de Moncorvo) [foto CA]. Zona indústrial de Moncorvo ao longe; a meio, na margem esquerda da foto, o Carmelo de Moncorvo (vd. foto seguinte). N.b. carvalhal de Quercus pyrenaica (Fagaceae) «carvalho-negral» a revestir a encosta norte da Serra do Reboredo; azinhais-zimbrais nos relevos convexos do planalto de Moncorvo; a transição entre os andares de vegetação meso e supramediterrânico situa-se no sopé da Serra do Reboredo; os relevos côncavos estão cultivados, o bosque que no passado os revestia, além do sobreiro, envolvia o Q. faginea subsp. faginea «carvalho-cerquinho» e o Fraxinus angustifolia (Oleaceae) «freixo-de-folhas-estreitas»


Carmelo da Sagrada Família de Torre de Moncorvo (Ordem do Carmo) [foto CA]. N.b. azinhal-zimbral no 1/4 inferior esquerdo da figura; em cima, ao fundo, azinhal-zimbral em regeneração no vale do rio Sabor.

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Crocus serotinus subsp. salzmannii (Iridaceae)

Neste post (clicar aqui) mostrei duas liliáceas bulbosas de Outono - Merendera pyrenaica e Colchicum autumnale (= C. multiflorum) - frequentes nas montanhas ácidas do norte e centro do país. Neste aqui apresentei o Crocus carpetanus, outra bulbosa, desta feita uma iridácea de floração primaveril, frequente na mesma região. Como então referiu um comentador, ficou em falta uma alusão ao Crocus serotinus subsp. salzmannii. Aqui está ele:



Crocus serotinus subsp. salzmannii (Iridaceae) «açafrão-bravo», uma bulbosa de floração outonal [Serra de Nogueira, orla de bosque de Quercus pyrenaica; foto C. Aguiar]

domingo, 22 de Novembro de 2009

Cannabis sativa subsp. sativa (Cannabaceae)

A descrição do Vale da Vilariça (vd. aqui) no "Voyage en Portugal ..." (vd. aqui e aqui) é rica em pormenores. Alguns excertos (tradução livre do francês):
"Para lá de Vila For, em direcção a Moncorvo, desce-se por uma pequena pendente suave e através de belas pastagens, até ao rico e fértil vale conhecido por Campo da Vilariça".
"As terras [da Vilariça] não são estrumadas, ao contrário das terras vizinhas".
"Além dos cereais, dos quais se colhem anualmente 30000 alqueires, cultiva-se o cânhamo [para a indústria da cordoaria] nos locais inundados pelo rio Sabor; calculamos que produzam anualmente 220 a 254 milliers [1 millier = ca. 490 kg] de cânhamo".
" A terra própria para o cânhamo em primeiro lugar é arada na Primavera [a charrua não era ainda utilizada na região, estaria em uso um arado com aivecas de madeira ] e depois gradada; quinze dias depois repete-se a operação, semeando-se em seguida. A planta do cânhamo permanece, de ordinário, 100 dias na terra; em seguida é cortada, e amontoada em grandes molhos, durante oito dias, num terreno destinado para o efeito (o tendal); de seguida fazem-se pequenos molhos, as estrigas, que são posteriormente macerados na água".
"... os melões passam por ser os melhores do Reino" ;-)



Cannabis sativa subsp. sativa (Cannabaceae) « cânhamo» [Le Château de Guédelon, Auxerre, França; foto C. Aguiar].

Na bibliografia taxonómica e nas bases de dados de nomenclatura botânica geralmente admitem-se duas subespécies de C. sativa: sativa e indica. O cânhamo textil, ou cultivado para a produção de sementes destinadas à alimentação animal (fáceis de encontrar nas lojas da especialidade em Portugal, diga-se), pertence à subsp. sativa. Esta subespécie, aparentemente, é nativa da Ásia Central; na Europa Oriental são frequentes populações naturalizadas em ambientes ruderais. As plantas da subsp. sativa têm folhas grandes de segmentos estreitos (vd. foto). Este critério morfológico, no entanto, é insuficiente para destrinçar a subsp. sativa da psicotrópica subsp. indica (vd. aqui). A taxonomia de Cannabis permanece confusa e inconclusiva.

sábado, 21 de Novembro de 2009

Vale da Vilariça (Moncorvo)

O chão transmontano é pouco propício a uma agricultura capitalista intensiva. Os solos são ácidos e pobres em nutrientes. A boa terra agrícola reduz-se a pequenas nesgas alongadas de coluvião de fundo de encosta comprimido entre a linha de água e a aldeia, ou a algum depósito de cobertura neogénico (com uma idade inferior a 23 milhões de anos). Quando faz calor escasseia a água, como é próprio do clima mediterrânico. No Inverno a chuva por vezes é tanta que os cereais não enraízam em profundidade o suficiente para adequadamente suportarem as primaveras mais secas. A natureza do solo e o relevo movimentado obviam o desenvolvimento do regadio, e explicam a dominância das culturas de sequeiro de baixa produtividade nos sistemas regionais de agricultura.


Vale da Vilariça (Moncorvo). No centro da imagem, pelo monte acima, o fantástico azinhal-zimbral da Quinta da Terrincha.

Os planaltos ácidos e oligotróficos e os exíguos coluviões que caracterizam a paisagem agrária transmontana são interrompidos por dois vales neotectónicos profundos (de formação recente, à escala de tempo geológica, claro) - o Vale da Vilariça e a Veiga de Chaves - preenchidos com solos de grande aptidão agrícola. Estes vales simbolizam, de algum modo, aquilo que Trás-os-Montes nunca foi: uma terra úbere, benevolente para com os seus povoadores.

Na Vilariça além do mosaico policultural, só de si digno da atenção do naturalista que gosta de plantas, sobressaem os fabulosos bosques mistos de azinheira e zimbro da Quinta da Terrincha.


Bosque misto de Quercus rotundifolia (Fagaceae) «azinheira» e Juniperus oxycedrus (Cupressaceae) «zimbro», um importante habitat prioritário Rede Natura 2000 ("9560 Florestas endémicas de Juniperus sp.", vd. aqui). Uma parte significativa do bosque da Terrincha ocupa mortórios, i.e. solos cultivados com vinha até à crise da filoxera, na segunda metade do séc. XIX (vd.este post). N.b. a copa avermelhada (efeito das folhas senescentes) de Pistacia terebinthus (Anacardiaceae) «cornalheira», uma das raras espécies caducifófias do nosso bosque perenifólio, passe a aparente contradição; as árvores despidas de folhas são choupos híbridos (Populus x canadensis, Salicaceae) de plantação recente.






Churra-badana (em cima) [foto Amândio Esteves] e Churra-da-terra-quente (em baixo) [foto C. Aguiar]

Conta-me o meu bom amigo Manuel Cardoso, ilustríssimo médico veterinário e escritor de Macedo de Cavaleiros, que a raça ovina Churra-da-terra-quente, também conhecida por ovelha Terrincha, "nasceu" de um cruzamento experimental entre a rústica Churra-badana, uma raça trasmontana seriamente ameaçada de extinção (o efectivo não ultrapassa os 3000 animais), e a produtiva Mondegueira, realizado na Quinta da Terrincha, no séc. XIX.

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Diplotaxis catholica (Brassicaceae) e Spergula arvensis (Caryophyllaceae)

O Outono adensa-se. Dois dias seguidos de chuva a sério, finalmente! O frio embora (muito) atrasado, não deve tardar. Entretanto, algumas das anuais que germinaram com as primeiras chuvas de Outubro, já produziram flores e frutos, e preparam-se para disseminar as primeiras sementes maduras.
Os dois campeões da precocidade no NE de Trás-os-Montes são ...

Fruto imaturo de Diplotaxis catholica (Brassicaceae). N.b. estilete e estigma na extremidade distal (oposta ao pedicelo) do fruto em formação; ovário a evoluir para fruto com sementes imaturas no seu interior; sementes dispostas em duas fiadas longitudinais, a principal característica do género Diplotaxis [Moncorvo, Vilariça]

Spergula arvensis (Caryophyllaceae) [Moncorvo, Vilariça]

Ao olhar para estas plantas recordei-me de uma das vantagens evolutivas das angiospérmicas geralmente citadas nos livros de evolução de plantas: rápida fecundação e formação de sementes (nas gimnospérmicas [e.g. pinheiros e ciprestes] a fecundação e a disseminação das sementes distam mais de um ano, enquanto uma angiospérmica [plantas com flor] pode florir e produzir sementes em poucos dias).
[fotos C. Aguiar]

domingo, 15 de Novembro de 2009

Impatiens balfourii (Balsaminaceae)

Outra planta ruderal (de margens de caminhos e muros) com frutos espermabólicos, i.e. que projectam as sementes à distância (vd. mais um exemplo aqui):

Impatiens balfourii (Balsaminaceae), uma planta anual, de crescimento rápido durante a Primavera e Verão, importada dos Himalaias pelos caçadores de plantas britânicos do séc. XIX, muito frequente - como planta cultivada ou como planta ruderal naturalizada - nas aldeias da Terra-Fria Transmontana [Bragança, Aldeia de Montesinho; Foto C. Aguiar]

As Impatiens produzem um fruto seco tipo cápsula. Ao mais leve toque a cápsula explode, literalmente, projectando as sementes a grande velocidade. Um exercício divertido a experimentar no Parque Natural de Montesinho, nos meses de Agosto e Setembro (até ao início das geadas).