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domingo, 31 de janeiro de 2010

O maneio dos lameiros no Res Rustica de Columella (4-70 d.C.)

Roma deixou-nos três grandes tratados de agronomia: o De Res Rustica, ou De Agri Cultura, do zelador dos bons costumes Marco Pórcio Catão (Marcus Porcius Cato) (234-149 a.C.); o Rerum Rusticarum do polímata de Pompeu o Grande, Marco Terêncio Varrão (Marcus Terentius Varro) (116-27 a.C.); e o Res Rustica do bético, cidadão de Cádiz, (Lucius Junius Moderatus) Columella (4-70 d.C.).
Recentemente foi publicada uma tradução comentada em espanhol do De Agri Cultura, infelizmente centrada no direito romano (vd. aqui). Existe uma tradução comentada portuguesa do livro de Varrão da autoria de Moisés Amzalak, publicada em 1953. O Columella está disponível em inglês aqui; com algum esforço encontrarão na net um pdf com a versão latina e a tradução inglesa em paralelo.

Nos alfarrabistas aparece de vez em quando uma tradução das Georgicas de Vergílio comentada pelo Prof. Ruy Mayer, professor de hidráulica no Instituto Superior de Agronomia, publicada pela Sá da Costa, em 1949. Dizem os exegetas que Vergílio foi beber grande parte do saber agronómico ao Rerum Rusticarum de Varrão, e que erra quando resolve seguir o seu próprio caminho. Neste post interessa-me apenas chamar a atenção que para além da substância agronómica do texto vergiliano, os comentários do Prof. Ruy Mayer são do maior interesse porque fazem um relato comparado, rico de erudição e pormenor, entre a agricultura romana e a agricultura orgânica praticada no sul do país, antes da generalização das máquinas agrícolas e dos fertilizantes de síntese. Ninguém deveria terminar um curso de agronomia ser ler Columella e a tradução das Geórgicas do Prof. Ruy Mayer! Ninguém deveria cursar agronomia sem um disciplina consistente de história da agricultura!

Espero voltar muitas vezes aos textos destes sábios. Por ora comento uma bonita passagem sobre lameiros do livro de Columella (II, 17, tradução da versão inglesa de H. B. Ash, 1941): "O cuidado dos lameiros é, no entanto, mais uma questão de cuidado do que de esforço. Em primeiro lugar não devemos deixar que arbustos ou espinheiros ou infestantes vigorosas permaneçam neles, antes do Inverno e durante o Outono haverá que desenraizá-los ..."
Para cuidar de um lameiro, diz-nos então Columella, não basta fenar (cortar, secar e remover a erva), e compor cuidadosamente muros e agueiras. O controlo manual de infestantes é uma tarefa indispensável, a ser realizada durante o período de interrupção do crescimento das ervas pratenses.

Aqui, no NE de Portugal, as infestantes herbáceas que mais estragos causam nos lameiros podem ser organizadas em dois grupos: herbáceas higrófilas, provenientes de ecossistemas ripícolas (que marginam os cursos de água; e.g.
Mentha suaveolens); herbáceas meso-higrófilas, com um óptimo ecológico nos carvalhais climácicos, ou nas suas orlas (e.g. Brachypodium rupestre).
Uma gestão descuidada da flora dos lameiros durante o período de repouso vegetativo pode ter estas consequências:

Lameiro invadido por Mentha suaveolens (Lamiaceae) a partir de uma linha de água (não visível à direita da fotografia)


Invasão de lameiros por Brachypodium rupestre (Poaceae) a partir de orlas florestais. N.b. invasão em mancha de óleo por via vegetativa (o B. rupestre produz rizomas que se espraiam em todas as direcções)


Planta e espiguetas de Brachypodium rupestre (Poaceae). Os herbívoros evitam esta espécie porque as suas folhas são cortantes e ricas em sílica. Um lameiro invadido por B. rupestre não serve para feno ou para pasto e só poderá ser recuperado com uma mobilização do solo, de preferência sucedida pela ressementeira do prado.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O fogo e a paisagem

Num post anterior falei da relação entre as montanhas e o fogo e comentei o paradoxo de apesar das plantas dos matos mediterrânicos terem desenvolvido funcionalidades que as ajudam a propagar os incêndios, esse factor não aumenta a frequência dos mesmos. A técnica da queimada não tem as mesmas vantagens nestas áreas e por isso não é usada para renovar pastos. Queimar os matos significa queimar também as pequenas árvores que lá se encontram no meio, e em épocas mais antigas isso significava abdicar de um bem precioso, o combustível. Esse conhecimento foi obtido da pior maneira, através de séculos e séculos de más práticas, muitas vezes fomentadas pelos governantes, numa tentativa de “domesticar” este território e que levaram ao desenvolvimento do “slash-and-burn” na Península Ibérica. E essa domesticação teve como consequência a diminuição do fundo de fertilidade dos solos e o desaparecimento da maioria das florestas contínuas. Contudo, a lenta morte anunciada do pastoreio extensivo e o abandono agrícola do interior podem trazer a maior mudança paisagística sofrida na Península Ibérica dos últimos 500 anos. A questão é saber se essa mudança é positiva ou se vai levar a alterações em termos de uso de solo com consequências bem piores.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Vacas e pastores III

A Drª Melinda Zeder publicou recentemente uma síntese indispensável sobre a origem da agricultura na Bacia do Mediterrânico (ver aqui). As datas da domesticação da vaca, do porco, da ovelha e da cabra, em anos antes do presente (BP), propostas por esta autora estão resumidas nesta figura:



Os mamíferos herbívoros domésticos das regiões de clima temperado/mediterrânico (exceptuando o coelho, ver aqui) foram originalmente domesticados no SW asiático, assim como a maioria da plantas cultivadas (tema para desenvolver um destes dias). Tudo aconteceu em apenas 1000 anos, pouco depois da invenção da agricultura (ca. 12.500 BP, data impossível de precisar, ver aqui a explicação) e do final da última glaciação (11.500 BP). A vaca evoluiu do auroque (Bos primigenius), extinto no séc. XVII, o porco do javali (Sus scrofa), a ovelha do muflão-asiático (Ovis orientalis) e a cabra da cabra-selvagem (Capra aegagrus). Existem evidências, na Europa, de domesticações politópicas (múltiplas), ou do cruzamento de populações selvagens com domesticados de origem oriental, no porco e na vaca. Nada de surpreendente. Tanto o javali como o auroque eram frequentes em grande parte da Europa. Os criadores de porcos de montanheira sabem, por experiência própria, que os javalis-macho cobrem com frequência e com um assinalável impacte económico, as submissas fêmeas de 'large-white' ou de 'porco-preto'. O mesmo certamente aconteceria entre vacas e auroques-macho.
A domesticação das cabras e ovelhas é mais antiga (ca. de 1000 anos) do que até agora se supunha. Os porcos e o gado bovino foram domesticados pouco depois das ovelhas e cabras. As datações dos macrorrestos de herbívoros domesticados de Chipre são particularmente importantes. Por serem tão próximas das datas da Anatólia e das Montanhas de Zagros indiciam que a pastorícia foi uma invenção de sucesso, e de fácil exportação. Os agricultores migrantes, e o seu kit de animais e plantas domesticadas, atingiram o território continental português três mil anos depois de Chipre, ca. 7500 anos BP.

Rebanho misto de ovelhas bordaleiras (a ovelha mais à direita é do grupo das churras) e cabras serranas [Serra da Estrela: Manteigas, foto CA]

Recordemos os posts anteriores desta série (ver aqui e aqui). ... Assim como as formigas co-evoluíram com os afídeos, o mesmo terá acontecido connosco e com os nossos domesticados animais? Será a nossa relação com os herbívoros domésticos foi suficientemente longa, e suficientemente profunda, para transportamos marcas genéticas recíprocas? Pois, parece que sim. Que as vacas, os porcos, as cabras ou a ovelhas evoluíram nas nossas mãos é algo que ninguém duvida. Todas estas espécies partilham em maior ou menor extensão um conjunto de características morfológicas comuns geneticamente reguladas, o sindrome de domesticação, e.g.: reduzida agressividade, presença residual de defesas físicas (e.g. cornos e presas) ou comportamentais (e.g. comportamento perante a ameaça de predadores), maior produtividade (e.g. de carne ou de leite) e prolificidade (nº filhos/fêmea/ano), e dependência do homem para o cumprimento do ciclo biológico. Beja-Pereira et al. na Nature Genetics (ver aqui) publicaram uma prova definitiva da co-evolução entre humanos e vacas ao demonstrarem que a distribuição dos genes que controlam a tolerância à lactose na Europa, i.e. a capacidade de digerir o açúcar do leite, coincide razoavelmente com a localização de culturas neolíticas fundadas no consumo de leite de vaca.
Portanto, meu caro naturalista que gosta de plantas, quando se ajoelhar para observar formigas e afídeos nos tecidos mais tenros de um cardo recorde-se: a domesticação é um fenómeno universal, não foi "inventado" por nós; os afídeos têm muito em comum com as vacas e com o trigo, e nós com as formigas.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Vacas e pastores II

A interacção entre espécies - e.g. relações "predador-presa", "polinizador-planta polinizada" ou "herbívoro-planta" - gera, frequentemente, respostas evolutivas recíprocas. Estas respostas têm uma base genética e uma expressão morfológica, fisiológica e/ou comportamental em todas as espécies envolvidas na interacção (daí a reciprocidade). Designa-se este fenómeno por co-evolução. Muito importante: a co-evolução gera diversidade de formas e funções, enquanto que a adaptação ao ambiente físico faz o contrário. O tema foi já directa ou indirectamente abordado neste blog (ver aqui e aqui).
O termo co-evolução foi cunhado por Paul Erlich, um biólogo que dedicou grande parte da sua vida académica a alertar para as consequências desastrosas do crescimento populacional, e por Peter Raven, um botânico hiperconhecido, há décadas director do Jardim Botânico do Missouri (clicar aqui), possivelmente o mais importante centro de investigação de taxonomia de plantas do mundo.

Se o meu leitor tiver paciência para ler o post anterior (clicar aqui) perceberá que o mutualismo formiga-afídeo retratado na foto foi trabalhado pela co-evolução. Admitindo que os comportamentos envolvidos na relação espécie-espécie têm uma base genética (não são transmitidos culturalmente, por aprendizagem), a foto mostra-nos que as formigas são pastores inatos (nos dois sentidos do termo), e que os afídeos "aprenderam" a gerir em seu proveito a presença das formigas. Vou especular um pouco. Em dado momento da sua história evolutiva, muitas espécies de formigas tiveram como opção evolutiva comer os afídeos; os antepassados dos afídeos, em vez de se especializarem na produção de xaropes adocicados, poderiam ter desenvolvido carapaças, velos de cera ou esguichos de compostos químicos mortais (algumas destas opções foram seguidas, por exemplo, pelas cochonilhas, Homoptera, Coccidae). Por outras palavras, a evolução transformou a interacção formigas-afídeos numa relação de cooperação, em vez de forçar uma "corrida às armas". Calhou assim.

A co-evolução entre formigas e afídeos tem imensas variantes e gradações, legíveis nas características das formigas e afídeos. O Prof. Edward O. Wilson conta-nos alguns casos extremos (ler páginas 356 e 357 deste livro). Por exemplo, algumas espécies de formigas protegem ninfas hibernantes de afídeos no interior dos ninhos durante a estação favorável, e afídeos há que se reduziram a frágeis e complacentes criaturas sem qualquer tipo de protecção física e comportamental frente aos seus potenciais predadores e parasitóides.



Um notável vídeo da BBC. N.b. o ataque das formigas a uma joaninha (Coccinella septempunctata), um voraz predador de afídeos. O Cirsium pratense (Asteraceae) - a planta colonizada por afídeos no vídeo - é muito frequente em Portugal. A meio do filme (15'') aparece de relance o capítulo de um Cirsium vulgare; o realizador não era botânico :)

As formigas são então pastores geneticamente eficientes, e os afídeos dóceis herbívoros, que em vez de leite produzem mel. Onde é que eu, e o naturalista que gosta de plantas que me está a ler, já vimos algo semelhante?
Vou adiar mais uma vez a explicação da etiqueta: História da agricultura. De qualquer modo o vídeo antecipa o último post desta série (ver aqui).

sábado, 19 de dezembro de 2009

Vacas e pastores I

Num destes dias de Outono fotografei esta terna cena pastoril ...



... formigas de Camponotus cruentatus (Hymenoptera, Formicidae) - uma espécie muito comum na Península Ibérica - a ordenharem cuidadosamente um pequeno rebanho de afídeos (Homoptera, Aphidae), num ramo de dois anos de Cytisus striatus (Fabaceae) «giesta-amarela». Os Camponotus da imagem aproximavam-se, geralmente por detrás, dos seus afídeos, estimulavam-nos com as antenas, estes libertavam uma pequena gota brilhante de um líquido açucarado (a melada), que as formigas sorviam com avidez.
O C. cruentatus alimenta-se de insectos mortos, ou de secreções açucaradas produzidas por plantas ou afídeos. Estudos de ecologia alimentar revelaram que esta espécie tem uma clara preferência pelas meladas de afídeo (Alsina et al., 1988).

As relações mutualistas entre formigas e afídeos são um caso sério de sucesso evolutivo. No Reino Holártico (regiões do hemisfério norte de clima não tropical) os afídeos são muito comuns em folhas e ramos não atempados (ainda verdes), enquanto não chegam os frios invernais. E onde há afídeos ... há formigas.
Os princípios desta relação mutualista são relativamente simples. As formigas oferecem uma protecção agressiva contra predadores e parasitóides (pequenas vespas que depositam ovos no interior do corpo de insectos, como nos filmes da saga "Alien", ver, em sequência, aqui, aqui e aqui). Os afídeos compram um serviço de segurança usando como moeda de troca um alimento energético, extraído directamente do floema das plantas (feixes vaculares que transportam a seiva elaborada nas plantas) com uma armadura bucal picadora-sugadora (constituída por um tubo flexível que penetra os tecidos das plantas).
Protegidos dos seus inimigos, os afídeos podem dedicar-se ao pecado da gula, e reproduzir-se aceleradamente. Durante a maior parte do ano a reprodução faz-se sem sexo (os afídeos que se observam nas árvores de fruto e outras plantas são geralmente fêmeas partenogenéticas, i.e. que se reproduzem assexuadamente). Os machos e as fêmeas sexuadas geralmente só se diferenciam no final da estação favorável (nas nossas latitudes no Outono).
Os afídeos têm, por norma, um efeito muito depressivo no crescimento das plantas. Muitas plantas cultivadas são susceptíveis aos ataques de afídeos (e.g. macieira, pessegueiro e cerejeira) ou aos vírus por eles transmitidos (e.g. batateira e beterraba). Não surpreende, por isso, que a indústria de pesticidas tenha desenvolvidos insecticidas específicos contra afídeos, os aficidas.

Qual a relação entre a cena bucolica representada na fotografia e os sistemas de agricultura, i.e. e o uso agrícola das plantas e animais domesticados (vd. etiqueta)? Será este o tema do próximo post.

sábado, 21 de novembro de 2009

Vale da Vilariça (Moncorvo)

O chão transmontano é pouco propício a uma agricultura capitalista intensiva. Os solos são ácidos e pobres em nutrientes. A boa terra agrícola reduz-se a pequenas nesgas alongadas de coluvião de fundo de encosta comprimido entre a linha de água e a aldeia, ou a algum depósito de cobertura neogénico (com uma idade inferior a 23 milhões de anos). Quando faz calor escasseia a água, como é próprio do clima mediterrânico. No Inverno a chuva por vezes é tanta que os cereais não enraízam em profundidade o suficiente para adequadamente suportarem as primaveras mais secas. A natureza do solo e o relevo movimentado obviam o desenvolvimento do regadio, e explicam a dominância das culturas de sequeiro de baixa produtividade nos sistemas regionais de agricultura.


Vale da Vilariça (Moncorvo). No centro da imagem, pelo monte acima, o fantástico azinhal-zimbral da Quinta da Terrincha.

Os planaltos ácidos e oligotróficos e os exíguos coluviões que caracterizam a paisagem agrária transmontana são interrompidos por dois vales neotectónicos profundos (de formação recente, à escala de tempo geológica, claro) - o Vale da Vilariça e a Veiga de Chaves - preenchidos com solos de grande aptidão agrícola. Estes vales simbolizam, de algum modo, aquilo que Trás-os-Montes nunca foi: uma terra úbere, benevolente para com os seus povoadores.

Na Vilariça além do mosaico policultural, só de si digno da atenção do naturalista que gosta de plantas, sobressaem os fabulosos bosques mistos de azinheira e zimbro da Quinta da Terrincha.


Bosque misto de Quercus rotundifolia (Fagaceae) «azinheira» e Juniperus oxycedrus (Cupressaceae) «zimbro», um importante habitat prioritário Rede Natura 2000 ("9560 Florestas endémicas de Juniperus sp.", vd. aqui). Uma parte significativa do bosque da Terrincha ocupa mortórios, i.e. solos cultivados com vinha até à crise da filoxera, na segunda metade do séc. XIX (vd.este post). N.b. a copa avermelhada (efeito das folhas senescentes) de Pistacia terebinthus (Anacardiaceae) «cornalheira», uma das raras espécies caducifófias do nosso bosque perenifólio, passe a aparente contradição; as árvores despidas de folhas são choupos híbridos (Populus x canadensis, Salicaceae) de plantação recente.






Churra-badana (em cima) [foto Amândio Esteves] e Churra-da-terra-quente (em baixo) [foto C. Aguiar]

Conta-me o meu bom amigo Manuel Cardoso, ilustríssimo médico veterinário e escritor de Macedo de Cavaleiros, que a raça ovina Churra-da-terra-quente, também conhecida por ovelha Terrincha, "nasceu" de um cruzamento experimental entre a rústica Churra-badana, uma raça trasmontana seriamente ameaçada de extinção (o efectivo não ultrapassa os 3000 animais), e a produtiva Mondegueira, realizado na Quinta da Terrincha, no séc. XIX.

domingo, 8 de novembro de 2009

Sobre a introdução da cultura do castanheiro para fruto em Portugal


Fim de semana outonal na Aldeia de Maçãs (Bragança). Os soutos estão cheios de gente a apanhar a castanha do chão. O produto de um longo dia de trabalho, acondicionado em sacas de adubo ou de batata-semente acumula-se junto à estrada, sob a protecção de um frondoso castanheiro. A tardinha aproxima-se. Mais uma hora e a carrinha de caixa aberta estará atestada de sacos de castanha, pronta para partir para a cidade.

Uma recente revisão das fontes históricas e paleoecológicas disponíveis sobre a história antiga do castanheiro como planta cultivada na Europa, oferece-nos quatro importantes conclusões (Conedera et al., Veget Hist Archaeobot, 13, 2004):
  • A primeira evidência do alargamento da distribuição do castanheiro liderado pelo Homem provém da Anatólia (Turquia) e data de 2100-2050 a.C.;
  • O cultivo do castanheiro terá sido levado para a Península Itálica pelos Gregos;
  • Não existem provas da plantação e cultivo sistemático do castanheiro fora da Península Itálica durante o período romano;
  • O castanheiro só ganha importância como planta frumentária no NW europeu na Alta Idade Média, consolidando-se nos sistemas tradicionais de agricultura a partir do séc. XI.
Esta última conclusão é particularmente importante. A cultura do castanheiro para fruto é, então, uma das inovações tecnológicas agrícolas da "revolução agrícola medieval"!