sábado, 12 de setembro de 2009

Árvore filogenética das Angiospérmicas: últimas novidades

Não me canso de olhar para esta árvore, que nos é oferecida pelo Dr. P. F. Stevens (Missouri Botanical Garden) aqui:


O exercício é sempe o mesmo: precorrer a árvore e descobrir as diferenças em relação às versões anteriores (embora todas as alterações estejam relatadas no website).
Nos últimos meses as alterações foram significativas. As Caryophyllales - ordem que inclui os cactos, as pequenas Cariofiláceas e as plantas de sapal (Amaranthaceae) referidas nos últimos posts - já não estão na vizinhança da base das Eudicotiledóneas. Dados recentes indicam que a divergência deste grupo é posteiror à do grande clado das Rosidas. Alterações significativas ocorreram também em ramos mais recentes desta grande árvore, por exemplo, com a colocação dos Escalloniales lá para os lados dos Asterales, a ordem que inclui a grande família das Asteráceas. Quem não conhece a Escallonia rubra, um arbusto chileno resistente ao frio muitíssimo cultivado em Portugal em sebes de jardim, cujas conexões filogenéticas eram incertas há pouco tempo atrás?

Escallonia rubra (Escalloniaceae) [foto C. Aguiar]

Ler árvores filogenéticas tem os seus truques. Uma óptima introdução pode ser importada daqui, a conselho de P. F. Stevens.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Apiáceas litorais: Daucus carota subsp. halophilus

Um endemismo da Costa Vicentina e do Barlavento Algarvio, o Daucus carota subsp. halophilus:


Esta apiácia pode ser localizada, sem grande esforço, nas escarpas litorais, geralmente em ressaltos húmidos e protegidos do sol.
A subsp. halophilus é bem distinta das restantes (quatro) subespécies de Daucus carota presentes em Portugal continental. Não sei que chegue de Daucus para ter uma opinião informada, mas o estatuto de espécie fazia sentido nesta planta.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Sarcocornia perennis vrs. S. fruticosa (Amaranthaceae)

Continuando pelo litoral ...
Num post recente (aqui) apresentei dois géneros fundamentais na estrutura da vegetação de sapal: Sarcocornia e Arthrocnemum. Pertencem ambos à família Amaranthaceae (inc. Chenopodiaceae) e mostram uma morfologia semelhante: plantas perenes de caules carnudos e articulados. O Arthrocnemum macrostachyum, a única espécie do género em Portugal, habita sapais mediterrânicos não sendo por isso conhecido dos sapais a norte do Rio Mondego. A Sarcocornia fruticosa sobe um pouco mais a norte, até ao sistema lagunar do Vouga. A S. perennis é frequente em todos os sapais nacionais.

Antes de explorar a estrutura da vegetação dos sapais, tema que abordarei um destes dias, é necessário distinguir bem Sarcocornia perennis de S. fruticosa, e as duas subespécies de S. perennis.

O arbusto prostrado em primeiro plano é a Sarcocornia perennis subsp. perennis; em segundo plano, à esquerda, temos a Sarcocornia fruticosa, e, à direita, outra importante planta de sapal, o Halimione portulacoides. As plantas da foto estão cobertas de uma fina película de limo porque são visitadas pelas marés duas vezes por dia .


Pormenor de Halimione portulacoides (Amaranthaceae). Nos sapais eurossiberianos, a Norte de Aveiro, são frequentes comunidades quase extremes desta espécie.

A Sarcocornia perennis distingue-se facilmente da S. fruticosa pelos seus artículos caulinares em forma de barril e por enraizar nos nós (necessariamente do caule porque só os caules têm nós), como se constata na figura seguinte:

Pormenor de Sarcocornia perennis subsp. perennis (Amaranthaceae). N.b. raizes adventícias inseridas nos nós de caules submergidos na vasa (plantas arrancadas para o efeito).

As subespécies portuguesas de S. perennis são muito semelhantes. A S. perennis subsp. perennis é um pequeno arbusto sufruticoso (= sufrútice) rasteiro de caules flexuosos (até 20 cm de altura); a S. perennis subsp. alpini tem caules mais rígidos e ergue-se a maior altura (até 60-80 cm de altura).
[fotos C. Aguiar]

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Plantago maritima (Plantaginaceae)

Temos um outro Plantago litoral nas plataformas rochosas sobraceiras ao mar e nos sapais do NW: o Plantago maritima. Conforme se pode confirmar na foto a morfologia das folhas é suficiente para separar o P. maritima das formas litorais de P. coronopus.

Plantago maritima (Plantaginaceae). Espécie distribuida pelas costas atlânticas da Europa e da América do Norte, atingindo, com populações mais dispersas as costas mediterrânicas ocidentais [Foto Esposende, Fão; C. Aguiar].

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Comunidades de paredes ressumantes do SW Alentejano

Nas escarpas litorais com águas ressumantes organiza-se umas das comunidades de plantas mais notávies do SW Alentejano. Recentemente, um grupos de fitossociólogos, encabeçados pelo Prof. Carlos Neto da Fac. Letras da Univ. Cl. de Lisboa, descreveu esta comunidade sob o nome Didymodon spadicei-Adiantetum capilli-veneris (classe Adiantetea).



O Didymodon-Adiantetum capilli-veneris é dominado pelo feto Adiantum capillus-veneris «avenca». Acompanha este feto um leque variado de espécies onde se destacam, entre outras, o Samolus valerandi e o Isolepis setacea(= Scirpus setaceus).


Samolus valerandi (Theophrastaceae). Planta recentemente transferida para a família Theophrastaceae, comum nos solos temporariamente encharcados do litoral centro e sul.
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Isolepis setacea (Cyperaceae). Uma das plantas mais frequentes nas comunidades de solos temporariamente encharcados um pouco por todo o Portugal Continental

Nas comunidades de escarpas ressumantes litorais do SW Alentejano é comum um Plantago coronopus perene, de folhas crassas (gordas) dentadas no ápice que o Prof. João do Amaral Franco designou por P. coronopus subsp. occidentalis. Este táxone é dificilmente sustentável porque são frequentes morfologias intermédias entre ele e as formas continentais de P. coronopus. Vi plantas semelhantes a estas nas arribas litorais da Ilha de S. Miguel.

Ecótipo litoral de Plantago coronopus (Plantaginaceae).
[Fotos C. Aguiar]

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Apiáceas litorais: Distichoselinum tenuifolium e Cachrys libanotis

Raramente tenho oportunidade de explorar a flora e a vegetação litorais na Primavera porque vivo a 200 km do mar. Chegam o Verão, as férias e a praia ... e a maior parte das plantas do litoral já floriu e frutificou. Não vejo Armeria, Thymus, Stauracanthus ou Linaria anuais em flor. Em contrapartida, colho e fotografo bons "cadáveres" de apiáceas. Sobra-me esta consolação porque para identificar apiáceas (= umbelíferas) são necessários frutos maduros de preferência colhidos em indivíduos senescentes (a grande maioria das umbelíferas portuguesas é anual ou se perene renova anualmente a parte aérea na Primavera).

Aqui vão duas curiosas e infrequentes umbelíferas litorais:



Distichoselinum tenuifolium. O género Distichoselinum é endémico da Península Ibérica e monoespecífico (detem uma única espécie). O D. tenuifolium distribui-se desde a Comunidade Valenciana (Espanha) até ao Algarve. Fotografei esta planta nas arribas sobranceiras à praia do Burgau (Algarve).



Cachrys libanotis. Esta espécie dunar tem uma área de distribuição mais lata (W da Região Mediterrânica) embora em Portugal se restrinja ao Algarve e à costa do SW. Sem grande esforço podem-na encontrar nas dunas secundárias de algumas das praias mais famosas da Costa Vicentina.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Sarcocornia vrs. Arthrocnemum (Amaranthaceae)

Despedi-me das férias com uma demorada e agradabilíssima visita ao Sapal de Aljezur (NW do Algarve).



A biomassa dos sapais externos (parte do sapal mais próxima do mar e, por isso, ciclicamente submersa por águas de elevada salinidade) mediterrânicos e temperados é dominada por arbustos baixos e por sufrútices (pequenas plantas perenes lenhosas na base) da família das Amaranthaceae. Entre estas plantas sobressaem pela sua abundância as plantas de caules carnudos e articulados dos géneros Arthrocnemum e Sarcocornia.
Os dois géneros distinguem-se bem no pino do Verão. Basta observar com cuidado as flores ou as cicatrizes deixadas pela queda dos futos nas espigas já secas:
  • Género Arthrocnemum. Uma única espécie em Lu: A. macrostachyum. Arbusto glauco (azulado) ou verde até 1,5 m; flores ligeiramente salientes ; queda das inflorescências parciais (cimeiras de três flores) origina uma cavidade indivisa;
  • Género Sarcocornia. Duas espécies em Lu: S. perennis e S. fruticosa. Sufrútices ou arbustos baixos (até 1,5 m); flores totalmente embebidas nos cachos; a queda das inflorescências parciais dá origem a uma cavidade tabicada com três depressões (uma por flor).


Espiga de Arthrocnemum macrostachyum (Amaranthaceae). N.b. Inflorescências parciais (cimeiras trifloras) com três flores salientes.


Espigas secas de Arthrocnemum macrostachyum (Amaranthaceae). N.b. Entrenós articulados; espigas secas; cavidades indivisas formadas após a queda das inflorescências parciais (cimeiras de três flores).



Sarcocornia fruticosa em plena floração. N.b. espigas localizadas na extremidade das plantas (não ultrapassadas pelos ramos estéreis), como é característico do género Sarcocornia


Sarcocornia fruticosa. N.b. espiga constituída por flores embebidas num eixo carnudo cilíndrico, +/- liso; estames e estígmas; inflorescências parciais com três flores sendo a flor central francamente maior do que as duas flores laterais, como é característico da S. fruticosa
(Aljezur, fotos C. Aguiar)