domingo, 13 de junho de 2010

Thesium humifusum ou o caju português


No outro dia fiquei fascinado ao ter "descoberto", após ter observado ao vivo, que um género que temos em Portugal - Thesium - possui um fruto com uma característica muito peculiar que é bastante mais típica das plantas tropicais: a parte carnuda do fruto maduro corresponde na verdade ao pedúnculo, que após a fecundação acumula substâncias nutritivas, engrossa e se torna carnudo. O "verdadeiro" fruto é uma pequena "noz" seca, que se encontra apensa ao extremo deste pedúnculo engrossado. Isto é praticamente o mesmo que acontece no caju (Anacardium occidentale), como já foi abordado aqui há uns tempos, sendo até a morfologia dos dois um tanto ou quanto semelhante. Esta adaptação, segundo a Flora Iberica, está relacionada com a dispersão por formigas, e assemelha-se à carúncula das sementes das Euphorbia e de muitas outras plantas que temos por cá. No entanto, as origens são distintamente diferentes, pois aqui estamos a falar de uma estrutura totalmente exterior à flor que se torna carnuda, e não do receptáculo (como nos morangos e maçãs) ou de uma estrutura interior ao fruto (como nas Euphorbia).
Na foto em baixo pode-se ver, ainda que muito incipientemente, o pedúnculo de uma flor acabada de fecundar, que irá engrossar até se tornar maior que o próprio fruto. Notar o ovário ínfero logo acima de cor mais escura, e o perianto persistente no cimo de tudo.



[Fotos: Ana Júlia Pereira]

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Gagea bohemica subsp. saxatilis? (Liliaceae)















Em 8 de Abril de 2004 fotografámos esta bela planta bolbosa em pleno carvalhal de Rebordãos: Holco mollis-Quercetum pyrenaicae Br.-Bl., P. Silva & Rozeira 1956, o maravilhoso bosque que se dá muito bem sobre as rochas básicas de Bragança e arredores. Pensamos que poderá possivelmente tratar-se da Gagea bohemica (Zauschner) Schultes & Schultes fil. subsp. saxatilis (Mert. & Koch) Ascherson & Graebner, Syn. Mitteleur. Fl. 3: 79 (1905); Syn.: Gagea nevadensis sensu Richardson in TUTIN et al. (eds.), Flora Europaea, non Boiss.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Thymelaea coridifolia subsp. dendrobryum (Thymelaeaceae)

Um passeio pelos cervunais (prados seminaturais de altitude) da serra da Estrela pode revelar-se deveras interessante pois neles ocorrem um conjunto de espécies particulares da flora portuguesa. Os cervunais são prados de áreas relativamente elevadas, pobres em espécies, dominadas pelo cervum (Nardus stricta L.) e outras gramíneas perenes, densas e cespitosas. Estas espécies estão bem adaptadas ao frio, precipitações elevadas e a solos orgânicos, mal drenados, profundos e ácidos, muitas vezes húmidos e encharcados. Os cervunais, regra geral, ocupam áreas de depressão resultantes da erosão levada a cabo durante o último período glaciar, onde ocorre acumulação de materiais líticos de áreas convexas adjacentes.
Distinguem-se assim os cervunais húmidos e secos e os do andar superior e do andar intermédio (num post posterior tentarei caracterizar cada um dos subtipos).
Estes meios, no Parque Natural da Serra da Estrela, são desde há muito utilizados como áreas de pastoreio, tendo sido, por isso, sujeitos a vários tipos de pressão como o fogo, a herbivoria e o corte. A principal ameaça que recai sobre os cervunais é o abandono da ancestral e tradicional prática do pastoreio estival que “naturalmente”, impede a invasão destes prados pelos urzais e zimbrais de altitude. Estes habitats foram considerados de interesse comunitário prioritário (Directiva 92/43/CEE para o estabelecimento da Rede Natura 2000).

Apresento, hoje uma planta, que pode ser observada por esta altura nos cervunais de natureza mais seca da serra da Estrela, onde se associa e confunde, antes e depois da floração com Calluna vulgaris. Thymelaea coridifolia subsp. dendrobryum, endemismo ibérico, descoberta no nosso país por P. Van der Knap (J. Paiva, com. Verb), encontra-se representada no nosso país apenas nesta serra numa única localidade. A população não deverá exceder os 500 indivíduos e ocupa uma área inferior a 1 ha. É um subarbusto lenhoso, de até 10 cm de altura e hábito prostrado, com folhas lineares a lineares-lanceoladas pilosas na extremidade e flores unisexuais, solitárias que surgem na extremidade dos ramos do ano anterior de cor amarelada.


segunda-feira, 7 de junho de 2010

Saxifraga dichotoma Willdenow subsp. albarracinensis (Pau) D.A. Webb (Saxifragaceae)














Deixo aqui uma saxífraga algo semelhante à Saxifraga granulata L., mas que parece ser antes a Saxifraga dichotoma Willdenow subsp. albarracinensis (Pau) D.A. Webb = Saxifraga albarracinensis Pau (basion.) - Muito obrigado ao ilustre botânico Carlos Aguiar pela excelente sugestão identificativa, que nos parece ser absolutamente correcta!

Saxifraga dichotoma subsp. albarracinensis (Pau) D. A. Webb, é um endemismo exclusivo da Península Ibérica (Marhold, K. (2011): Saxifragaceae. – In: Euro+Med Plantbase - the information resource for Euro-Mediterranean plant diversity: http://ww2.bgbm.org/EuroPlusMed/PTaxonDetail.asp?NameId=31419&PTRefFk=7200000).

A foto de cima foi obtida em 7 de Abril de 2004 nas rochas básicas ou ultrabásicas do castelo de Rebordãos, pr. Bragança, na Serra de Rebordãos ou de Nogueira.


A foto de baixo foi obtida no monte da Senhora do Monte ou do Vencimento, no conc. de S. João da Pesqueira, no Sul da província de TM, a sul do rio Douro,  29TPF3057, alt. ca. 780 m, 28.III.2004.
Este local representa um alargamento muito significativo da área de distribuição desta espécie rara em Portugal, quase 100 km para SW em relação aos outros locais conhecidos!

domingo, 6 de junho de 2010

Árvores-garrafa: Pachypodium lealii (Apocynaceae) e Moringa ovalifolia (Moringaceae)

Nas regiões semidesérticas paleotropicais (da África e da Ásia) são frequentes árvores caducifólias de estação seca, de caules anormalmente alargados na base. Este tipo de suculência - conhecida por paquicaulia - é uma adaptação à escassez e irregularidade da precipitação. Mais do água, a região engrossada do tronco destas plantas invulgares acumula grandes quantidades de hidratos de carbono e aminoácidos.
A abundância de árvores hiperpaquicaules, ou árvores-garrafa, é um dos aspectos mais curiosos da fisionomia da vegetação semidesértica do SW de Angola. Esta adaptação surgiu de forma independente, por convergência, em grupos evolutivamente muito dispares, tanto de mono como de eudicotiledóneas.
A Moringa ovalifolia e a Pachypodium lealii são duas das espécies hiperpaquicaules mais comuns da faixa semidesértica que envolve o Deserto do Namibe:

Moringa ovalifolia (Moringacea)
[foto amavelmente cedida por J.C. Costa ]

A M. ovalifolia é um endemismo angolano-namibiano. As suas folhas e frutos são consumidos por girafas e elefantes, entre outros grandes herbívoros. A família das Moringaceas inclui um único género com 12 espécies de distribuição paleotropical, adaptadas a climas áridos.


Pachypodium lealii Welw. (Apocinaceae)
[fotos amavelmente cedidas por J.C. Costa ]

O P. lealii é endémico do Sul de Angola e Norte da Namíbia. Foi dedicado ao geólogo português Fernando da Costa Leal pelo grande botânico austríaco Friedrich Welwitsch [1806-1872], conhecido explorador da flora angolana ao serviço da coroa portuguesa. À semelhança de muitas outras apocináceas, o P. lealii produz um latex tóxico.

Certamente muitos dos leitores deste blogue conhecem o Brachychiton populneus (Malvaceae, Sterculioideae), uma árvore-garrafa relativamente comum nas avenidas e jardins portugueses.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ctyphostemma uter (Vitaceae)

O Prof. José Carlos Costa (ISA), sabendo do meu fascínio por África, ofereceu-me um conjunto de fotografias da flora do Sul de Angola de sua autoria. Quando pela primeira vez as folheei no computador, detestei-as. Muito me custou concentrar a atenção nestas plantas deslumbrantes, emersas em paisagens tremendas que provavelmente nunca terei a sorte de ver! Que saudades dos sítios onde nunca fui, e das experiências botânicos que nunca tive! Mas, enfim, há que racionalizar a coisa ;)

A maior parte das árvores do sul de Angola está citada no excelente Field Guide to Trees of Southern Africa, de van Wyk & van Wyk. Na lombada do livro e mais adiante, na página 46, estão retratadas umas estranhas vitáceas - i.e. plantas da família da videira! - lenhosas e garrafais, do género Ctyphostemma, adaptadas ao excessos climáticos do deserto do Namibe.
Estas duas fotos fazem jus à extraordinária morfologia deste extraordinário grupo de plantas:

A)B)
Ctyphostemma uter (Exell & Mendonça) Desc.
A) Deserto do Namibe; n.b. C. uter ao centro, próximo da margem esquerda da fotografia. B) C. uter despida de folhas Um dos autores originais da espécie, o Dr. Francisco da Assunção Mendonça, foi um ilustre naturalista da Universidade de Coimbra (ver e.g. aqui).

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Veratrum album (Melanthiaceae)
















Fica hoje aqui esta bela planta alpina: Veratrum album L., Sp. Pl. 2: 1044. 1753 [1 May 1753], como se pode consultar aqui:
Biodiversity Heritage Library: Caroli Linnaei ... Species plantarum
Tão rara entre nós -apenas se pode encontrar na Serra da Estrela- é também conhecida como «Heléboro branco» ou «Veratro».
Vive em prados de montanha, no seio da classe MULGEDIO ALPINI-ACONITETEA VARIEGATI Hadač & Klika in Klika & Hadač 1944 (cujo nome correcto é Mulgedio-Aconitetea Hadač & Klika in Klika & Hadač 1944), sobretudo dentro da aliança Adenostylion alliariae Braun-Blanq. 1926 (cujo nome correcto é Adenostylion Braun-Blanq. 1926), conforme se pode consultar nesta preciosa fonte: SYNSYSTÈME DE LA FRANCE