sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Anacardium occidentale (Anacardiaceae) «cajueiro»

O Miguel Porto ofereceu-nos num comentário recente um extraordinário excerto do Sertões de Euclides da Cunha. Tamanha é a graça e a substância do texto que não resisto em transcrevê-lo, fazendo-o acompanhar de imagens do Anacardium occidentale, um parente chegado do dulcérrimo Anacardium humile, o cajuzinho-do-cerrado citado por Euclides da Cunha.

«Vêem-se numerosos aglomerados em capões ou salpintando, isolados, as macegas, arbúsculos de pouco mais de metro de alto, de largas folhas espessas e luzidias, exuberando floração ridente em meio da desolação geral. São os cajueiros anões, os típicos anacardia humilis das chapadas áridas, os cajuís dos indígenas. Estes vegetais estranhos, quando ablaqueados em roda, mostram raízes que se entranham a surpreendente profundura. Não há desenraizá-los. O eixo descendente aumenta-lhes maior à medida que se escava. Por fim se nota que ele vai repartindo-se em divisões dicotômicas. Progride pela terra dentro até a um caule único e vigoroso, embaixo.
Não são raízes, são galhos. E os pequeninos arbúsculos, esparsos, ou repontando em tufos, abrangendo às vezes largas áreas, uma árvore única e enorme, inteiramente soterrada.
Espancado pelas canículas, fustigado dos sóis, roído dos enxurros, torturado pelos ventos, o vegetal parece derrear-se aos embates desses elementos antagônicos e abr
oquelar-se daquele modo, invisível, no solo sobre que alevanta apenas os mais altos renovos da fronde majestosa.»



Flores de Anacardium occidentale (Anacardiaceae) «cajueiro». O centro de origem desta espécie situa-se no NE Brasileiro; no Brasil o cajueiro além de ser cultivado para a produção de fruto, é muito frequente como árvore de arruamento

Frutos de Anacardium occidentale (Anacardiaceae) «cajueiro». N.b. no género Anacardium o pecíolo do fruto, a "maçã-do-caju", é carnudo e doce; o fruto (inc. semente) é reniforme e conhecido por castanha; o conteúdo da castanha em verde corrói a pele, não façam como eu que por ignorância trinquei uma e queimei metade do lábio inferior; a semente processada de A. occidentale é a apreciada castanha-de-caju; a tecnologia da castanha-de-caju envolve a extracção do pecíolo carnudo (muito usado em sumos), a secagem ao ar, a torrefacção ou cozedura sob pressão, e a descasca do fruto (reduzido a uma tona não comestível) [fotos CA]

13 comentários:

  1. Que árvore tão engraçada! - e será que é cultivada em Portugal?

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  2. A Hovenia dulcis (Rhamnaceae) apresenta algumas características similares: na altura da frutificação o pedúnculo torna-se carnudo e é comestível (tem um forte cheiro a maçã-reineta); o fruto em si é de dimensões menores do que no Anacardium. Pode-se observar um exemplar no Jardim Botânico em Lisboa(Rato).

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  3. Nunca vi nenhuma, nem sequer num jardim botânico.

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  4. Então é mesmo super-rara entre nós!

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  5. Olá Carlos,

    Mas que interessante, só mesmo uma inenarrável descrição com esta de Euclides da Cunha para se entender o que consegue fazer um único cajueiro ... Se quiser conhecer um exemplar raro, leia o post: Um cajueiro ou um parque? http://arboretto.blogspot.com/2007/08/um-cajueiro-ou-um-parque.html

    A descrição corresponde não somente ao comportamento do cajuí, mas também ao do cajueiro, Anacardium occidentale, este sim dulcérrimo. O Anacardium humile, o cajuzinho-do-cerrado embora muito consumido, aqui no cerrado está mais para acérrimo...mas pode ser que o do caatinga seja diferente.

    Um abraço.

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  6. Olá Lúcia. Obrigado pelo comentário. Provei apenas um cajuzinho-do-cerrado, nos Pireneus, e achei-o doce. A amostragem foi pequena, vale pouco. A doçura dos frutos indígenas do Brasil - provei poucos, diga-se - impressionou-me. Volte sempre.

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  7. Jamil Ribeiro pires5 de abril de 2010 às 23:42

    Olha a muito não me deliciava com um caja- manga já a conheço a tempos mas não sabia que era parenta do cajú que é outra delicia, ganhei muito com essa informação. Obrigado.

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  8. nunca vi em sitio algum...

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  9. No Jardim Botânico do Porto também há um excelente exemplar

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  10. Olá pessoal, tenho um Cajueiro no meu jardim

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  11. Mandei vir de Moçambique, já tenho. Umas 5 castanhas de Cajueiro a germinar
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    ,e também. Tenho 8 pés de imbomdeiro.muito bom.,nunca imaginei conseguir germinar o imbomdeiro.

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    1. Tudo que é frutos tropicais me fascina, Jorge.brasao@hotmail
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