
Figura1.
Rhynia gwynne-vaughanii
Figura2. Psilotum nudum (foto: J.Capelo, 2009 no Jardim Botânico de Leiden, Holanda)
Todos temos fascínio pelo arcaico, o mais antigo, o primevo. No meu caso, foi numa colecção de cromos, que tinha quando era criança, que vi uma figura da planta vascular terrestre mais antiga conhecida: a
Rhynia gwynne-vaughanii (figura 1). É um fóssil descrito em 1917 por Kidston e Lang, de quartzitos devónicos de Aberdeenshire, na Escócia. Trata-se de uma planta com caules simples, ramificados dicotomicamente e com esporângios terminais. As raizes correspondem a uma especialização subterrânea dos ramos. Uma planta lacustre, lembrando um junco, ainda próxima dos talófitos aquáticos (isto é das 'algas', digamos assim). A opinião corrente é que o parente mais próximo vivo seria
Psilotum nudum (L.) Beauvois, um pteridófito apresentando uma estrutura superficialmente análoga a
Rhynia: caules simples, ramificados em dicotomias e com esporângios sub-terminais. É certamente uma planta vascular muito primitiva, um fóssil vivo, como se dizia antes. Contemplá-la é contemplar a mais simples e arcaica planta que se conhece (pode representar uma simplificação evolutiva ulterior, mas a opinião mais recente é que é mesmo muito primitiva e mesmo que não fosse isso não lhe tira a emoção do arcaico). Na Europa apenas existe na Serra de Algeciras (Cadiz, Espanha) [
P. nudum var.
mollesworthii]. Em rigor, a relação taxonómica não é directa,
Rhynia é um
Rhyniophyta e
Psilotum, um
Pteridophyta. Separam-nas, portanto, a categoria de Divisão do reino Plantae. São suficientemente diferentes para tal distinção.
Esta planta fui-a encontrando de vez em quando. Vi a primeira numa exposição permanente do Museu, Laboratório e Jardim Botânico de Lisboa, num pavilhão que reconstroi o ambiente vegetal do Secundário, de forma agradavelmente ingénua e com objectivos didácticos (bem haja a quem montou a exposição, certamente já há vários anos e lá pôs o
Psilotum nudum!). Talvez ainda lá esteja, com os seus dinossaurios pintados na parede...
Depois, no campo, vi-a em Moçambique numas rochas riolíticas junto á conhecida cascata da Namacha, assim que pús os pés fora do carro (houve uma telenovela que tinha muitas cenas nesta cascata). O encontro mais curioso foi num vaso no
campus da Universidade da Madeira e ninguém fazia a mínima ideia de como lá foi parar.
Depois fui-a vendo em jardins botânicos, não é assim tão difícil de encontrar. A figura 2 é uma foto tirada no Jardim Botânico de Leiden, há 15 dias.
Gosto tanto desta planta.