sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Pandorea ricasoliana (Bignoniaceae) e Cuphea micropetala (Lythraceae)














Perdoem os estimados leitores a fraca qualidade da segunda foto aqui apresentada, mas as plantas nela representadas parecem-nos bem interessantes: a bela Bignoniácea Pandorea ricasoliana "Baill." ex K.Schum. -- Nat. Pflanzenfam. [Engler & Prantl] iv. 3b (1894) 230 IPNI Plant Name Query Results;
e Cuphea micropetala Kunth, ou «flor-cigarro» (Lythraceae):
Cuphea - Wikipedia, the free encyclopedia.

Estas duas beldades ornamentais arbustivas foram encontradas em floração hoje mesmo em ambiente urbano, o que torna particularmente apropriado o seguinte acompanhamento musical, de extraordinária beleza:
YouTube - The Go-Betweens - Streets Of Your Town Version 1,
dos infelizmente já desaparecidos Go-Betweens:
The Go-Betweens - Wikipedia, the free encyclopedia

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Conopodium majus subsp. marizianum (Apiaceae)

















Aqui fica mais um dos nossos preciosos endemismos: Conopodium majus (Gouan) Loret subsp. marizianum (Samp.) López Udias & Mateo, Anales Jard. Bot. Madrid 57(2): 473. 2000 [1999 publ. Jan 2000] IPNI Plant Name Query Results
= Conopodium marizianum Samp., Ann. Sci. Nat. Porto x. 77 (1906) IPNI Plant Name Query Results, um endemismo ibérico conhecido pela curiosa designação vernácula «castanha-subterrânea-menor», como se pode verificar na excelente Flora iberica, vol. X: http://www.floraiberica.es/floraiberica/texto/pdfs/10_129_31%20Conopodium.pdf.
Para acompanhamento musical desta bela umbelífera endémica, escolhemos a excelente abertura do Meistersinger von Nürnberg:
YouTube - Wagner Die Meistersinger von Nürnberg; Prelude to Act I; Solti
Dos mestres cantores de Nuremberg, o mais famoso terá sido possivelmente Hans Sachs: Hans Sachs - Wikipedia, the free encyclopedia

sábado, 11 de dezembro de 2010

Mandragora officinarum (Solanaceae)


















Depois de um post extraordinariamente interessante e belo, aqui fica um muito mais modesto. A planta aqui apresentada, contudo, é bem fascinante: a Solanácea Mandragora officinarum L., Sp. Pl. 1: 181. 1753, conforme se pode encontrar por exemplo aqui IPNI Plant Name Query Results ou aqui: Mandrake (plant) - Wikipedia, the free encyclopedia.
Citando o grande Lineu (l.c.), esta bela planta pode encontrar-se na Região Mediterrânica, desde as Penínsulas Ibérica e Itálica até Creta e as Ilhas Cíclades.
Este endemismo mediterrânico também foi recentemente encontrado na Turquia, como se pode verificar neste excelente artigo:
http://www.academicjournals.org/AJB/PDF/pdf2009/4Aug/Fakir%20and%20%C3%96z%C3%A7elik.pdf

Como acompanhamento musical vamos sugerir 'Til I Die, do genial Brian Wilson:
YouTube - The Beach Boys - 'Til I Die

Acerca desta pérola musical, encontra-se abundante informação aqui:
'Til I Die - Wikipedia, the free encyclopedia

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Apologia do fogo - uma divagação sem rumo


Infrutescência de Banksia sp. após fogo recente. Em cada folículo aberto é visível um septo caduco, e a asa de algumas sementes
(este post é baseado em observação pessoal e não em bibliografia, algumas ideias podem estar erradas. Peço desde já desculpa pela extensão do post)

No sudoeste da Austrália, o clima também é mediterrânico. Também, como cá, as plantas aprenderam a sobreviver às grandes flutuações climáticas, em precipitação e temperatura, quer ao longo do ano, quer entre anos diferentes. Também, como cá, as plantas aprenderam a sobreviver ao fogo - mas cá, apenas algumas; lá, praticamente todas.
O fogo na Austrália mediterrânica faz parte do quotidiano das plantas, ao contrário de cá. Cá existem muitas comunidades que, após um fogo, acabam severamente alteradas na sua composição, podendo levar muitas décadas ou séculos a restabelecerem-se como eram - mas não vou entrar por aqui - ao passo que lá, mesmo as florestas dos eucaliptos gigantes - aqueles que atingem 90 metros de altura (karri, Eucalyptus diversicolor e tingle, Eucalyptus jacksonii) - mesmo estas florestas estão de alguma forma dependentes do fogo; a regeneração de semente não ocorre se não após um incêndio, a floresta "climácica" não é auto-sustentável sem esta perturbação. As árvores que fazem a floresta - vários eucaliptos - comportam-se, no fundo, como plantas pioneiras mas de vida longa.

Infrutescência de Banksia sp. antes do fogo. À direita, inflorescência de Banksia coccinea

A grande maioria das plantas arbustivas e arbóreas na Austrália possui uma estratégia que é raríssima cá: a serotinia, isto é, as sementes são apenas libertadas do fruto após um estímulo externo (e não na sua maturação, como é costume), que no caso australiano é quase sempre o fogo, quer directamente pelo calor e desidratação, quer indirectamente por matar a planta-mãe, o que resulta também na desidratação do fruto. O banco de sementes está, portanto, na copa das plantas, a salvo dos predadores, fungos e demais intempéries, e não no solo como cá acontece nas plantas a que costumamos chamar de seeders.
Entre as mais fantásticas, estão dois géneros formidáveis, Banksia e Hakea (já consigo ouvir muitos portugueses a contorcerem-se quando disse este último nome...), ambos da família Proteaceae. As infrutescências de Banksia são estruturas impressionantes. Imaginem um ananás de madeira compacta; é mais ou menos isso. Cada inflorescência de Banksia produz largas centenas de flores (milhares nalgumas espécies como B. grandis), mas só uma ínfima percentagem produz fruto. Contudo, todas as flores, polinizadas ou não, se mantém na infrutescência e endurecem, fazendo uma estrutura compacta e pesada. Uma estrutura tão compacta que não arde.

Fruto de Hakea sp. (a referida no texto), totalmente "escancarado". Vêem-se as cavidades, uma de cada lado, onde estavam alojadas as 2 únicas sementes. 55g de "madeira", 2 sementes.

Tenho alguns dados concretos, mas são medidas únicas, não médias, devem ser vistos com cautela. Um "cone" de Banksia grandis, que pesa 765g (peso seco) tem cerca de 180 sementes (o peso das sementes é desprezável). Não parece nada de especial, mas comparem com uma pinha de pinheiro bravo, que tem cerca de 180 sementes e pesa ca. 95g. Mesmo assim, a B. grandis não lhe fica muito à frente. Já uma Banksia menziesii produz um cone com 100g e que contém 18 sementes... uma outra Banksia, 190g para 18 sementes... e finalmente, uma Hakea sp. (foto acima): um fruto que pesa 55g (peso seco sem as sementes), contém apenas 2 sementes... resumindo:
Pinus pinaster: 0.6 g/semente
B.nutans: 1.1 g/s
B.grandis: 4.25 g/s
B.menziesii: 5.6 g/s
B.sp. (nenhuma das fotografadas): 10.6 g/s
Hakea sp. (foto em cima): 27.5 g/s

Hakea victoria, uma das mais famosas. A planta vai reabsorvendo os pigmentos, ano a ano, das folhas velhas, o que provoca uma gradação de cores verde>amarelo>vermelho>senescência devido aos pigmentos que ficam. Segundo bibliografia, tal não acontece quando a planta cresce em solos férteis (raros), por motivos óbvios.

É um investimento brutal em carbono fixado que estas plantas fazem, para tão poucas sementes. O caso da Hakea sp. é inacreditável. Tudo isto para garantir a sua protecção - contra o fogo e contra predadores terríveis como as cacatuas - ou para outro fins que agora não vislumbro.
As sementes, como já se depreende, permancem bem fechadas dentro dos frutos lenhificados (folículos) indefinidamente e são apenas libertadas por acção do fogo. Nada como fazer um churrasco de cones de Baksia para observar este fenómeno, que é bastante rápido após o fogo passar.
A explosão de vida após um fogo, lá, é ainda mais intensa do que cá. Para além de Banksia e Hakea, muitos outros arbustos exibem serotinia, nomeadamente uma miríade de géneros da família Myrtaceae (Melaleuca, Beaufortia, Calothamnus, Eucalyptus e sei lá quantos mais...), que é altamente diversificada naquela região; e também da família Casuarinaceae (Allocasuarina e Casuarina). Todas estas sementes de todas estas espécies aproveitam o pós-fogo, numa apoteose de germinação, favorecida pela abundância de nutrientes acabados de libertar. Outras plantas só agora florescem, a sua floração é rara e praticamente só ocorre estimulada pelo fogo. Mas isso fica para depois.
Infrutescência de Banksia grandis - 25 cm, 765g.

E termino por aqui, que já vai longo, mas ficou muita coisa por dizer. A partir desta base, que não é quase nada, podia-se abordar tantos outros temas. Em próximos posts, talvez, outras perspectivas!

Os frutos protagonistas.
Fotos: Ana Júlia Pereira e Miguel Porto

domingo, 5 de dezembro de 2010

A neve e o frio, e as vacas, as ovelhas e as cabras

Estas fotos vêm da Serra de Montemuro, tiradas na semana que passou pelo meu amigo Tiago Henriques.


Semanas a fio de frio e neve eram frequentes há poucas décadas a trás. O isolamento pouco significava para as gentes da montanha, porque isolados eram por natureza os povoados do interior norte e centro de Portugal. Difícil sim era sustentar o gado com o monte coberto de neve. Uma vaca consome ca. de 15 kg de matéria seca por dia e uma ovelha ou uma cabra cerca de 1/6 deste valor. E a falta de alimento tem um enorme impacto na saúde e na performance produtiva dos herbívoros domésticos. O feno cuidadosamente armazenado em Julho/Agosto era a solução mais fácil para obviar a escassez alimentar. As folhas dos ramos de carrasco [nome dado à azinheira, Quercus rotundifolia, no NE de Portugal] amontoados debaixo do sobrado eram outra. Muitas vezes não havia alternativa a sair com as vacas para o cucuruto do monte limpo da neve pelo vento, armado de galochas de cano alto, capa de burel pelas costas e um balde sal grosso pendurado no braço. Em tempos ainda mais recuados calçavam-se socas de amieiro e vestia-se a croça [capa de palha]. Para aumentar a palatibilidade e a ingestão pelos animais aspergiam-se com sal os ramos das carquejas (Pterospartum tridentatum subsp. pl.) e as folhas dos carrascos, duas espécies com algum valor alimentar, particularmente resistentes aos efeitos do vento frio e da geada.
Bem mais fácil é escrever posts com os pés no quente, e o vento frio e a neve contidos do lado de fora da janela hermética de PVC.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Linaria hirta (Plantaginaceae)



Falou-se ontem aqui nesta belíssima Antirrínea... por isso deixamo-la hoje aqui, fotografada já há vários anos nos terrenos da Estação Nacional de Melhoramento de Plantas, em Elvas: Linaria hirta (L.) Moench, Suppl. Meth. (Moench) 170. 1802 [2 May 1802] = Antirrhinum hirtum L., Sp. Pl. 2: 616. 1753 [1 May 1753], como se pode ver aqui: IPNI Plant Name Query Results.
Trata-se de uma planta anual, que "habita na Hispânia" (incluindo a Lusitânia!), de acordo com o grande Lineu (l.c.), em conjunto com as rubras e vistosas papoilas: Papaver rhoeas L., da família das Papaveráceas.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sinapis arvensis (Brassicaceae)

No passado mês de Junho, num leito de cheias cascalhento de um pequeno rio transmontano, longe de tudo e de todos, herborizei esta planta:

«A linha de água está pouco perturbada e as encostas sobranceiras revestidas por abundantes azinhais climácicos. A planta deve ser rara!», pensei então. Entusiasmado, corri para o herbário; segui as chaves das Floras e observei ao pormenor os meus exemplares herbário de brassicáceas com frutos compridos (silíquas). O resultado era sempre o mesmo. «Não pode ser! O sítio é perfeito para plantas invulgares!». Recusei-me a aceitar. Enviei uma foto a um amigo botânico; o veredicto foi rápido e claro: Sinapis arvensis, a mais do que frequente mostarda-dos-campos. Que desilusão! Não tinha, afinal, encontrado uma espécie nova para Trás-os-Montes, e muito menos para Portugal.

Este relato pequenino pouco interesse tem; não chega sequer para um blogue descomprometido de divulgação botânica. Porém estimula a imaginação, oferece uma razão para recuperar, ainda brevemente, uma das especulações preferidas  da comunidade fitossociológica: na paisagem pristina, há mais de 5000 anos, qual era o habitat das espécies que hoje preenchem os nossos campos e matos? Por outras palavras: Onde estavas tu, planta daninha, arbusto enfadonho, antes do Neolítico?
Estas dúvidas não têm uma resposta simples e objectiva. Vai-se especulando, vai-se cambiando de ideias com novas observações, com pequenas epifanias. Cada planta é um caso, e um caso por natureza insolúvel.
De qualquer modo, a dita Sinapis arvensis (Brassicaceae), o Pinus pinaster (Pinaceae) «pinheiro-bravo» e o Cistus ladanifer (Cistaceae) «esteva» numa escapa, a Erica australis (Ericaceae) «urze-vermelha» encavalitada numa crista quartzítica, a Spergula arvensis (Caryophyllaceae) que germina às primeiras chuvas num mato recentemente ardido ou o Cynodon dactylon (Poaceae) «grama» a perfurar um exíguo mouchão de areias acumulado nas margens de um rio de montanha, estas e muitas outras plantas, fazem-me suspeitar da sua raridade, ou, pelo menos, infrequência nas paisagens pristinas.
O Neolítico, a agricultura, alterou a ordem das coisas: o que era raro volveu abundante e o comum incomum. Com muitas excepções, suponho.
A conservação da natureza, como muito bem dava a entender o Luís Moreira num comentário a este post, está impregnada pelos modelos de paisagem das sociedades orgânicas tradicionais, que sobreviviam, mal, muito mal, a malhar nos ecossistemas naturais, numa luta diária para recuperar ou colher o átomo de azoto e de fósforo e com ele fazer a seara e a horta, e compensar à justa a enorme despesa energética dos corpos retorcidos pela enxada e pela gadanha.
Este referencial em cima do qual raciocinamos a conservação da natureza, no fundo, esta ideologia, não parece lá muito lógica.