quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Outra planta misteriosa (Convolvulaceae)




Fotografámos neste Verão passado ainda outra planta misteriosa - também não sabemos a que género ou família pertence!
Deixamos aqui as fotos da dita planta, tão ornamental, na esperança de que os ilustres leitores deste blog forneçam pistas para a sua identificação!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Mais uma planta misteriosa (Theaceae)















Fotografámos ontem uma planta tão misteriosa que nem sequer conseguimos indicar a família a que pertence! Trata-se de uma árvore ou arbusto ornamental e não pertence à nossa flora, embora frutifique muito bem (frutos globosos duros, polispérmicos e deiscentes, abrindo em forma de estrela) e produza sementes bastante volumosas e de cor castanha. As folhas são verdes e bastante lustrosas, tal como os frutos quando jovens. Aceitamos sugestões para a sua identificação!
Afinal, será provavelmente uma Camellia, da família Theaceae e ordem Ericales.
Pois, poderá ser mesmo a Camellia sinensis (L.) Kuntze -- Trudy Imp. S.-Peterburgsk. Bot. Sada 10: 195. 1887 = Thea sinensis L. -- Sp. Pl. 1: 515. 1753 [1 May 1753] (IPNI Plant Name Query Results).
Afinal parece ser antes a Camellia japonica L. -- Sp. Pl. 2: 698. 1753 [1 May 1753] (IPNI Plant Name Query Results).

domingo, 26 de setembro de 2010

Epilobium angustifolium e E. hirsutum (Onagraceae)

Nos passados 21 a 24 de Setembro decorreu em Bragança uma Conferência Internacional de Ecologia da Paisagem-IUFRO, subordinada ao tema "Forest Landscapes and Global Change" (vd.aqui e aqui).
A palestra de abertura foi entregue à Drª Monica Turner, uma conhecida ecóloga norte-americana que há décadas estuda o efeito do fogo e das explosões de escolitídeos na estrutura e função dos ecossistemas de Yellowstone (ver aqui). A palestra versou, essencialmente, o impacto dos fogos que devassaram o mais antigo Parque Nacional do planeta em 1988, e os brutais ataques de escolitídeos que se lhe seguiram  Os resultados obtidos pela equipa da Drª Turner são claros: nem os fogos de copa massivos, nem os "outbreaks" de escolitídeos são desastres ecológicos em Yellowstone; estes dois tipos de perturbação são parte integrante da história, e do funcionamento dos ecossistemas e das paisagens deste imenso território. Tudo voltará a ser como dantes, desde que o clima e os padrões de perturbação se mantenham estáveis.
A passagem da conferência que mais me impressionou foi o relato da descoberta do facto de os ecossistemas de Yellowstone conservarem eficazmente o azoto (N) após fogo. Não fazia ideia. Nas fotos que ilustraram a palestra identificavam-se muito bem, por entre os guiços ardidos de gimnospérmicas arbóreas, mares de flores rosadas de uma famosa, e formosa, planta: o Epilobium angustifolium. Trata-se de uma planta nitrófila de distribuição holártica, raríssima em Portugal (apenas está citada para Serras do Gerês e Montesinho). De acordo com a Drª Turner, esta e outras plantas subnitrófilas de orla e clareira de bosque são os agentes da conservação do N após fogo. Entretanto, a regeneração das árvores - em Yellowstone de Pinus contorta, P. albicaulis, Picia engelmannii e Abies lasiocarpa -  reduz rapidamente o habitat destas plantas preferencialmente heliófilas (de ambientes ensolarados), e os nutrientes inicialmente por elas retidos acabam por ser capturados pelas árvores. Então, a presença de plantas subnitrófilas facilita a regeneração das árvores porque o N geralmente é o nutriente mais escasso, e que mais controla a produtividade dos ecossistemas naturais. Que mecanismo maravilhoso! No nosso rectângulo, desempenham uma função semelhante, entre muitas outras plantas, várias espécies dos géneros Asphodelus (Xanthorrhoeaceae), Urtica (Urticaceae) «urtigas», Senecio (Asteraceae) e Cirsium (Asteraceae).

Como não encontro as minhas fotos de E. angustifolium, aqui vai um primo, o Epilobium hirsutum, comum de Norte a Sul nos depósitos vasosos que marginam as nossas linhas de água.

A conservação do N nas paisagens de matriz florestal não resultou de um desenho cuidado de mosaicos de ecossistemas pela mão da evolução, ou de um ente superior. A selecção natural, não esqueçamos, só actua à escala do gene, do indivíduo ou, quando muito, de pequenos grupos de indivíduos [não mais de 25, dizem-nos Levin & Kilmer (1974)]. A cíclica, e brusca, disponibilização de N por eventos de perturbação nas florestas criou oportunidades de especiação que por sua vez redundaram em benefício das essências florestais. Faz todo o sentido, mas não estava a priori previsto, creio.

sábado, 25 de setembro de 2010

Vicia narbonensis (Fabaceae) e Vicia faba (Fabaceae)

Evidências recentes datadas de 10º milénio BP (antes do presente), reunidas por Tanno & Willcox (2006), indiciam que a faveira (Vicia faba) foi domesticada no Crescente Fértil pouco depois do início do Holocénico.
O antepassado da faveira não está identificado. Alguns autores admitem que o ancestral da faveira está extinto; outros propõem que a faveira é um domesticado de V. narbonensis ou de V. galilaea, embora o número de cromossomas não seja coincidente.
As primeiras faveiras produziam sementes pequenas. Os botânicos colocaram estas plantas numa var. minor. A fava graúda que iremos semear dentro de dias, ou que encontramos nos mercados, é um seleccionado recente, talvez obtido por volta do ano 1000 d.C., na última etapa da Idade Média.
O nome Vicia faba foi atribuído por Lineu a plantas de sementes grandes originárias do Egipto. Por essa razão as faveira de sementes graúdas actuais pertencem à var. faba. O nome varietal var. major designa a mesma planta: é um sinónimo de var. faba. Portanto, o trinome Vicia faba var. major não pode ser usado. Enquanto a var. minor tem os seus autores [var. minor (Harz) Beck], a variedade tipo não leva autorias. Esta trica nomenclatural é de cumprimento obrigatório, assim o diz o Código Internacional de Nomenclatura Botânica. Já agora, estas regras não são aplicadas aos taxa subescíficos de Pinus pinaster «pinheiro-bravo» porque ninguém sabe o que é o P. pinaster var. pinaster (pelo menos até a planta ser tipificada; não sei se entretanto já o foi).
Já vi mais de uma vez a atribuição de autorias a taxa subespecíficos que ficam com o tipo nomenclatural, i.e. a nomes do tipo V. faba var. faba. Convém evitar.

Esta curta história da domesticação da V. faba é um pretexto para publicar uma foto de uma planta extraordinária:


A V. narbonensis é tudo menos abundante em Portugal. Vi-a meia dúzia de vezes, uma delas num olival de um colega, como muito vezes acontece com as espécies deste género, aproveitando a sombra da árvore e a pequena ilha de fertilidade que se cria à sua volta.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Scilla autumnalis (Asparagaceae)

















Para assinalar devidamente o Equinócio e a entrada do Outono, aqui fica a belíssima Scilla autumnalis L. -- Sp. Pl. 1: 309. 1753 [1 May 1753] = Prospero autumnale (L.) Salisb. -- Gen. Pl. [Salisbury] 28. 1866 [Apr-May 1866] ou ainda Prospero autumnale (L.) Speta -- in Veröff. Int. Clusius-Forschungsges. Güssing, 5: 4 (1982) (IPNI Plant Name Query Results), de distribuição eurasiática e norte-africana, que em Portugal não é rara, florescendo nesta época do ano.
Esta excelente planta ornamental bulbosa tem sido incluída tradicionalmente nas Liliáceas ou nas Hiacintáceas, mas parece actualmente pertencer à família das Asparagáceas, por razões filogenéticas (cf. APG III, 2009).

domingo, 19 de setembro de 2010

Pisum sativum (Fabaceae)

A ervilheira foi uma das primeiras plantas domesticadas no Médio-Oriente e no SW da Ásia central (e.g. Turquemenistão), no final do Dryas recente ou no Holocénico inicial [o Dryas recente foi uma pequena pulsação fria ocorrida, aproximadamente, de 12800-11500 cal. BP (antes do presente, em datas calibradas), que marca o final do Pleistocénico].

Pisum sativum subsp. sativum «ervilheira-cultivada»

A ervilheira faz parte do "founder crops package" - conceito cunhado por Zohary & Hopf (Domestication of Plants in the Old World, 2000) - isto é do primeiro grupo de plantas domesticadas, que incluía cereais – Triticum monoccocum, T. diccocum e Hordeum vulgare «cevada» –, leguminosas para grão – Lens culinaris «lentilha», Cicer arietinum «grão-de-bico», Pisum sativum «ervilheira» e Vicia ervilia –, e uma fibra, o Linum usitatissimum «linho». Vale a pena referir que a combinação de plantas produtora de amido (cereais, raizes ou tubérculos) com leguminosas é um padrão comum a todos os centros de origem das plantas cultivadas, seja este conceito assumido como um território concreto ou uma grande região de fronteiras difusas. A explicação é simples: os cereais esgotam rapidamente o azoto do solo; as leguminosas refazem com maior ou menor eficiência essa pool de azoto determinante da produtividade vegetal.

Pisum sativum subsp. elatius «ervilheira-brava»

Ao contrário de outras plantas cultivadas (e.g. milho, o alho e a faveira) a ervilha ainda se assemelha muito ao seu ancestral - o Pisum sativum subsp. syriacum.
Em Portugal continental é relativamente frequente o P. sativum subsp. elatius, uma subespécie quase idêntica à oriental subsp. syriacum, própria de orlas de bosques pernifólios ou de escarpas bem conservadas, invadidas por matagal. Na Primavera, aqui em Trás-os-Montes, colhem-se no campo as vagens de P. sativum subsp. elatius, que se consomem como as ervilhas-de-quebrar.
Quando deparo com o P. sativum subsp. elatius, e admiro as suas enormes e apetitosas vagens, é-me inevitável pensar que na Ibéria mediterrânica abundam plantas "domesticáveis". Faltou um estímulo externo e um ambiente cultural adequado para que essa revolução de máxima grandeza que foi o Neolítico aqui tivesse tido início.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Trifolium tomentosum (Fabaceae)

Nos prados de sequeiro com trevos-subterrâneos (T. subterraneum), naturais ou semeados, quando os anos são húmidos abundam as plantas de solos temporariamente encharcados, conforme referi neste post. Se os anos forem secos ganham dominância plantas mais xerófilas (melhor adaptadas à secura do solo), entre as quais se conta este trevo anual:

Trifolium tomentosum (Fabaceae)

Este pequeno trevo é uma das espécies do género Trifolium, indígenas de Portugal, de ciclo biológico mais curto, e mais resistentes ao pisoteio e à compactação do solo. Primavera meada não passa desapercebido em prados, margens de caminhos, estradas e passeios, com as suas frutificações esféricas prontas a rebolar pelo solo ao sabor do vento, até se encravarem numa pequena reentrância entre os paralelos de uma estrada rural ou num tufo seco de gramíneas. A anemocoria (dispersão pelo vento) neste trevo, à semelhança do T. resupinatum (vd. aqui), resulta da presença de cálices acrescentes (que crescem) após a fecundação, e colaescem numa infrutescência de grande volume e pouco peso.