domingo, 2 de janeiro de 2011

Cladoptose II

As árvores não são eficientes por igual a libertarem-se dos ramos em excesso. O Pinus pinaster (Pinaceae) «pinheiro-bravo» desrama naturalmente, sobretudo em povoamentos densos. Os Cupressus (Cupressaceae) «ciprestes», não. À medida que os troncos de Cupressus engrossam incorporam no lenho a base dos ramos mais velhos, estejam eles vivos ou mortos. Para se obterem boas madeiras, por exemplo de C. lusitanica «cipreste-do-buçaco», é necessário desramar ciclicamente as árvores.


 Plantação de Cupressus lusitanica desramada no final do Inverno. Seis meses depois ainda lá estavam os ramos pelo chão, junto a estevas e a silvados. Não ardeu tudo no Verão porque não calhou.

Os projectos florestais apoiados com fundos comunitários prevêem a retancha (reposição) das árvores mortas nos primeiros anos. O Cupressus lusitanica pega bem e resiste estoicamente à secura, por isso é muito apreciado pelos projectistas florestais. Agora talvez não, mas quando esta árvore começou a ser plantada em Trás-os-Montes muitos proprietários florestais não sabiam que as tinham de desramar activamente, ao contrário do que era habitual com o pinheiro-bravo. Uma desarmonia de interesses, entre muitas outras, que marcam as relações entre proprietários e projectistas florestais.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

José Gomes Pedro [1915-2010]

Faleceu na manhã de ontem, em Azeitão, com 95 anos de idade o notável botânico Engº Agrónomo José Gomes Pedro.

O Engº Gomes Pedro é conhecido entre os naturalistas portugueses pelas suas publicações sobre a Flora da Serra da Arrábida. Muitos dos que com ele conviveram não saberão, porém, que antes de se dedicar à flora arrabidense o Engº Gomes Pedro foi Director-Geral da Agricultura de Moçambique e um exímio botânico tropical. Contou-me um dia que em Moçambique os carregadores lhe chamavam "o homem que sobe às árvores" - para colher flores, claro - numa língua indígena que não recordo.
Tempos heróicos estes. As excursões botânicas duravam meses. Dava tempo para semear o milho, colher as massarocas, e alimentar e criar as galinhas que faziam parte da companha. E cada planta colhida tinha boa probabilidade de vir a ser um tipo nomenclatural.
A África acabou para os botânicos portugueses, e a flora europeia não tem graça. Com menos graça ficou também a botânica portuguesa sem o Engº Gomes Pedro.

Carlos Aguiar

domingo, 26 de dezembro de 2010

Chrysothrix candelaris (Chrysothricaceae)














Ainda não tínhamos comemorado o Solstício de Inverno, momento que marca o início do Inverno, quando os dias começam a crescer e as plantas se começam a preparar para uma nova época de floração... por isso aqui fica um belo líquen dourado: Chrysothrix candelaris (L.) J.R. Laundon = Byssus candelaris L., um líquen arborícola bastante comum sobre a casca de diversas árvores e que se pode encontrar em todas as províncias portuguesas.
Aqui fica alguma informação sobre este líquen dourado:
Chrysothrix candelaris
Chrysothrix candelaris - Wikipedia, the free encyclopedia
Chrysothrix - Wikipedia, the free encyclopedia
Como acompanhamento musical, vamos sugerir a excelente abertura de Tannhäuser, de Wagner, que se pode encontrar por exemplo aqui:
YouTube - Tannhauser Overture-Wagner/Leibowitz/Part-1 of 2
ou aqui: YouTube - KARAJAN Wagner "Tannhäuser" Overture - Salzburg 1987 (1/2)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Leontopodium nivale subsp. alpinum (Asteraceae)

















Para comemorar este Natal tão gelado, com votos de boas festas para todos os camaradas botânicos e bloguistas, nada como o bom velho Leontopodium nivale subsp. alpinum (Cass.) Greuter in Willdenowia 33: 244. 2003, bem conhecido como "edelweiss" - vocábulo germânico que significa "nobre brancura" ou "nobre pureza", como se pode confirmar aqui: Leontopodium alpinum - Wikipedia, the free encyclopedia.
Também se pode designar como "pé de leão" ou "flor da rainha", como nos informa a excelente enciclopédia acima citada. É um endemismo das montanhas europeias que, infelizmente, não se encontrou ainda em Portugal.
The Euro+Med Plantbase Project

Para acompanhar musicalmente esta maravilha, vamos sugerir, do grande compositor veneziano Antonio Vivaldi, Juditha Triumphans - Arma, caedes, vindictae, furores:
YouTube - Antonio Vivaldi - Juditha Triumphans - Arma, caedes, vindictae, furores
YouTube - Vivaldi: Arma, caedes, vindictae (Juditha Triumphans)
um fragmento de uma obra composta para comemorar a vitória da República de Veneza no então recente cerco de Corfu (1716):
Juditha triumphans - Wikipedia, the free encyclopedia

Cladoptose I

Nas plantas a produção de ramos e folhas e a expansão da copa para capturar luz é uma inevitabilidade: parar de crescer é morrer, literalmente. Nas plantas lenhosas a acumulação de ramos em grande número aumenta os gastos energéticos (as células vivas consomem energia), a resistência à deslocação das seivas, o risco de ensobramento e de lesões mecânicas nas folhas, e o risco de ruptura de ramos e pernadas por efeito do peso ou da acção mecânica do vento. Por conseguinte, a rejeição dos ramos em excesso na copa e a aquisição evolutiva de mecanismos para o efeito são potencialmente vantajosos.
Ramos de Platanus orientalis arrancados numa tarde de temporal. 

A libertação controlada - por iniciativa da árvore - de ramos chama-se cladoptose. Esta expulsão, facilitada ou não pelo vento, envolve a formação de zonas de abcisão, à semelhança do que acontece com as folhas, flores abortadas, frutos maduros ou sementes.
O peso e o vento forçam também a queda passiva dos ramos em excesso, seleccionando, preferencialmente, ramos ensombrados, doentes ou mal inseridos (os ramos cruzados e sobrepostos são mais resistentes à força do vento e, por isso, passíveis de serem arrastados pelos filetes de ar). As árvores servem-se do vento para limpar (podar) as suas copas. As ventanias e os temporais afinal podem ter um papel importante na saúde das árvores!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Cyphostemma uter (Vitaceae) II

Um presente de Natal do meu querido amigo José Carlos Costa:


Mais uma imagem da Cyphostemma uter, uma vitácea [família da videira] fotografada na semana passada do deserto do Namibe, que em tempos apresentei neste blogue (aqui). Diz-me o José Carlos Costa que esta espécie é acidófila sendo substituída pela C. currorii em substratos calcários.
Aqui mostrei outras árvores-garrafa das áreas subdesérticas do SW de Angola, mas esta bate qualquer uma das outras aos pontos!

domingo, 19 de dezembro de 2010

Viscum album (Santalaceae) II
















Em época pré-natalícia, dificilmente alguma planta parecerá mais adequada do que o visco: Viscum album L., Sp. Pl. 2: 1023. 1753 [1 May 1753]:
IPNI Plant Name Query Results
Viscum album - Wikipedia, the free encyclopedia

Este belíssimo arbusto parasito, o "mistletoe" dos ingleses, tão comum na Europa -"Habitat in Europae arboribus, parasitica", segundo o grande Lineu (l.c.)-, parece infelizmente estar extinto no nosso País, embora a Flora iberica aponte a possibilidade de ele existir em duas províncias: Mi e E:
http://www.floraiberica.es/floraiberica/texto/pdfs/08_102_01%20Viscum.pdf

Outra espécie congénere, Viscum cruciatum Sieber ex Boiss., o visco das oliveiras, também terá existido rm Portugal, no AAl, mas estará actualmente já extinto, de acordo com a excelente Flora iberica.

Como acompanhamento musical para o visco, parece-nos particularmente apropriada esta bela canção de Natal de Buck Ram, Kim Gannon e Walter Kent I'll Be Home for Christmas - Wikipedia, the free encyclopedia, aqui brilhantemente interpretada pelos Carpenters: "I'll Be Home For Christmas"
YouTube - Carpenters "I'll Be Home For Christmas"