sábado, 7 de novembro de 2009

Três notas sobre o castanheiro (Castanea sativa, Fagaceae) III

O Engº Malato Beliz questionava, em 1987, a carácter indígena do castanheiro em Portugal, com base em dois argumentos: 1) o castanheiro está sempre associado à presença do homem; 2) e ausente dos bosques caducifólios mais bem conservados. Os surtos de tinta do castanheiro iniciados no século XIX não explicam esta ausência porque os solos de bosque são supressivos (impedem a acção) para o agente desta doença.
O castanheiro é, ou não, uma planta indígena de Portugal continental? Um pergunta importante, para uma importante planta cultivada.
Comecemos pelo princípio.
Os grãos de pólen depositados em turfeiras são a principal fonte de informação para reconstruir a história do castanheiro, e de muitas outras plantas, em Portugal, mas não a única (os autores clássicos, e.g. Plínio o Velho e Columella, a genética [estudos filogeográficos] e os macrorrestos vegetais [e.g. pedaços carbonizados de madeira], são também importantes).
As turfeiras são depressões permanente encharcadas que acumulam sedimentos orgânicos, ácidos e de lenta decomposição. Os grãos pólen que acidentalmente tombem numa turfeira degradam-se muito lentamente. Algumas trufeiras acumularam sedimentos e, por conseguinte, grãos de pólen, durante milhares de anos. Quanto maior profundidade, maior a antiguidade dos grãos de pólen e dos sedimentos que os contêm. Com técnicas apropriadas estes grãos de pólen podem ser identificados (geralmente ao nível da espécie ou do género), contados e, com maior ou menor precisão, indirectamente datados. O coberto vegetal variou ao longo do tempo, e, por esse motivo, a concentração e os tipos de pólen que se acumularam nas turfeiras. As sondagens paleopalinológicas são, por isso, uma fonte essencial de informação na reconstrução da paisagem vegetal, e dos climas passados, sobretudo nos últimos 11.500-14.000 anos antes do presente (BP).

Lama Grande (Montesinho, Bragança). Uma antiga turfeira drenada para o cultivo da batata semente nos meados do séc. XX.

É consensual que o castanheiro se refugiou na Península Ibérica durante a última glaciação (concluída cerca de 11.500 anos BP). Nas sondagens paleopalinológicas obtidas no norte e centro do território continental Português, ou em regiões espanholas vizinhas, os grãos de pólen de castanheiro são mais ou menos constantes num pequeno período quente chamado Interestadial Tardiglaciar (ca. 14.000-12.700 BP). O castanheiro acompanha a regressão da vegetação arbórea associada ao Dryas recente, um curta pulsação fria com cerca de mil anos de duração (ca. 12.700-11.500 anos BP, datas calibradas), e não recupera com a chegada do Holocénico (de 11.500 anos BP até hoje), ou as suas concentrações polínicas nas sondagens paleopalinológicas são tão baixas que existe o risco do seu pólen ser confundido com outros pólenes análogos (e.g. Sedum e Hypericum).
Alguns autores defendem que a C. sativa seria uma espécie pioneira de solos florestais intactos, o que justificaria a sua raridade durante o período de máxima expansão dos bosques holocénicos (grosso modo entre 1/4 e 1/2 do Holocénico) e a sua (modesta e pontual) recuperação, antes da romanização, em consequência de um incremento das actividades humanas durante as idades do bronze e ferro. Outros autores, com base em macrorrestos recolhidos em Portugal, propõem que o castanheiro teria persistido até muito tarde no NW de Portugal, em bosques de biótopos (sítios) húmidos e quentes, possivelmente próximos do litoral.
O mais provável - os dados paleopalinológicos e a ecologia actual da espécie assim o indicam - é que o castanheiro se tenha extinguido no território continental Português, num momento impossível de precisar, algures durante o último quarto do Holocénico. Se o castanheiro teve como habitat preferencial solos florestais húmidos (não encharcados), ricos em nutrientes, das terras baixas do NW de Portugal, é admissível que estes tenham sido, na sua totalidade, reclamados pela agricultura. Os castanheiros que hoje se cultivam no país são domesticados de origem, por enquanto, muito discutida. O castanheiro não é, portanto, indígena de Portugal!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Aster aragonensis (Asteraceae)

Nos meados de Setembro, depois de três meses, ou mais, sem chuva, a terra ressequida que intervala as estevas do vale profundo da Terra Quente, ou os arbustos da montanha nordestina, brilha sob o sol ainda vibrante do final do Verão. As plantas perenes cerram os estomas até ao ponto em que a temperatura das folhas periga todo o sistema fotossintético. As plantas anuais há muito concluíram o seu ciclo biológico, e permanecem escondidas no solo, expectantes, reduzidas a semente. Os regatos secaram, e com eles as Mentha, os Epilobium, Scrophularia, e demais plantas higrófilas. Aqui e ali desponta uma folha de gramínea perene beneficiada por um veio capilar de água subterrânea. Os animais domésticos comem, ou comiam, quando os havia, melhor dizendo, a folha ripada do Fraxinus angustifolia «freixo-de-folhas-estreitas» e do Ulmus minor «ulmeiro», um raminho novo de Ulex «tojo» ou Pterospartum «carqueja», uma ponta de restolho calcinado pelo sol, o caule agostado de um Agrostis ou de um Arrhenatherum, ou, ainda, uma rara ervita fresca de sítio sombrio e húmido. Complementavam a alimentação do animal, alguma Cucurbita maxima «abóbora-porqueira» ou erva da cortinha, segada com foice ou gadanha, palha e pouco feno (há que guardá-lo para o Inverno), o mesocarpo (polpa) da drupa da Prunus dulcis «amendoeira» (a amêndoa fica para trás, protegida pelo caroço, i.e. pelo endocarpo) ou, mesmo, a folha libertada pela Olea europaea «oliveira», também ela sedenta, e precisada de reduzir a copa transpirante. Os rebanhos mais afortunados de gado miúdo (ovelhas e cabras) desciam ao vale do grande rio permanente, ao Sabor ou ao Côa, por exemplo, e pastavam a estreita margem verde de Festuca ampla, Agrostis e Paspalum, que serpenteia na imediata vizinhança dos poços lênticos ou de um teimoso fiozinho de água.

Terra-Quente transmontana (NE de Portugal). Em primeiro plano oliveiras, em segundo amendoeiras, e lá de trás bosque misto de Quercus rotundifolia (Fagaceae) «azinheira» e Juniperus oxycedrus (Cupressaceae) «zimbro», com algum Quercus suber (Fagaceae) «sobreiro» emergente. N.b. o J. oxycedrus distingue-se pelas copas semelhantes à chama de uma vela [Concelho de Alfândega da Fé]]

Sente-se um compasso espera. A vida está em suspenso até à chegada das primeiras chuvas outonais. Até o agricultor, se não tiver uvas para vindimar, goza dias de calmaria, enquanto aguarda pela época das sementeiras.
Acabaram as flores. O botânico pode regressar ao herbário, ou partir de férias, até Outubro, altura ideal para colher as bulbosas de Outono.
Será?

Aqui, no Nordeste, numa unidade geológica a que os geólogos chamam, se não estou enganado, "Unidade Autóctone Superior", temos uns xistos ditos verdes, duros e de lenta meteorização ("formam" solo muito lentamente), ricos em bases (e.g. cálcio e magnésio), que albergam uma flora bem curiosa. Uma das plantas que aqui se encontram é esta:


Aster aragonensis (Asteraceae), um endemismo ibérico, pontual no NE de Portugal. N.b. na 2ª foto as folhas glaucas (=azuladas) de outro endemismo ibérico, a Festuca summilusitana (Poaceae), descrita por J. do Amaral Franco e Mª da Luz Rocha Afonso em 1980. A esta gramínea nem as cabras lhe pegam! [Bragança, Serra de Nogueira]

Pois bem. Tudo seco? Dizia eu? Nem tudo, acreditem. Não sei como é, mas este Aster transpira, literalmente, vida, quando tudo o mais morre pela chegada da água e das noites frescas de Outono.
[fotos C. Aguiar]

domingo, 1 de novembro de 2009

Quercus x neomarei (Fagaceae) e Cistus x cyprius (Cistaceae)

Pouco antes das férias grandes o meu amigo Rubim Silva (F.Ciências-U.Porto) enviou-me um artigo da Nature - Rieseberg et al., The Nature of Plant Species, Nature, 440, 7081, 2006 - onde se concluía, preto no branco, que as espécies de plantas existem mesmo! Surpreendido? Não pense que se trata de uma questão científica menor e ultrapassada, ou então de um capricho de teórico. Embora antiga e discutida até à exaustão, a realidade da espécie nas plantas, e, implicitamente, a aplicação do conceito biológico de espécie e a similaridade (ou a dissimilaridade) dos processos de especiação nos animais e nas plantas, são temas em aberto, e de ponta.
A partir de dados recolhidos em mais de 200 géneros de plantas, os suprareferidos autores, resumidamente, defendiam que:
1) nas plantas com reprodução sexual a existência de grupos discretos indivíduos de morfologia similar é a regra, e não a excepção;
2) estes grupos de indivíduos estão, geralmente, reprodutivamente isolados. Os eventuais híbridos têm uma elevada probabilidade de serem estéreis, aliás, os híbridos férteis são mais prováveis entre os animais, do que entre as plantas;
3) a formação de híbridos não é a principal causa de, ainda assim, algumas espécies apresentarem fronteiras (morfológicas) mal definidas.
Em suma, a espécie não é um artefacto da razão. Muitos botânicos sobrevalorizaram, abusivamente, as dificuldades taxonómicas, e os testemunhos de hibridação, em Quercus (Fagaceae), Cistus (Cistaceae), Rubus (Rosaceae), Taraxacum (Asteraceae) ou Hieracium (Asteraceae), por exemplo, concluindo que as plantas são mais promíscuas do que os animais. Este enviesamento é antigo, e contaminou muitos teóricos da especiação (e.g. Darwin, por influência do seu amigo, e enorme botânico, Joseph Hooker).
Óptimo.
Para comemorar a descoberta, e a partilha de propriedades evolutivas entre plantas e animais, publico as fotos de dois híbridos (e respectivas espécies parentais), frequentes em Trás-os-Montes ;-)

Quercus pyrenaica (Fagaceae) «carvalho-negral» [Bragança]

Quercus faginea subsp. faginea (Fagaceae) «carvalho-cerquinho» [Bragança]

Quercus x neomarei (= Q. faginea subsp. faginea x Q. pyrenaica) (Fagaceae). N.b. folhas brilhantes, de recorte intermédio

À esquerda Q. pyrenaica; à direita Quercus x neomarei. N.b. diferenças na cor da folhagem


Cistus laurifolius (Cistaceae) [Bragança, Monte de S. Bartolomeu]

Cistus ladanifer (Cistaceae) «esteva, xara, ládano» [Bragança, Monte de S. Bartolomeu]

Cistus x cyprius (= C. ladanifer x C. laurifolius) (Cistaceae) [Bragança, Monte de S. Bartolomeu]

[fotos C. Aguiar]

sábado, 31 de outubro de 2009

Eryngium maritimum e E. pandanifolium (Apiaceae)

Chega de Eryngium! Encerro esta série de posts com o conhecido E. maritimum, espécie comum em dunas embrionárias, primárias e secundárias, de norte a sul do país:

Eryngium maritimum (Apiaceae) «cardo-marítimo» [Lourinhã, Praia da Areia Branca]

... e com o E. pandanifolium, uma infestante alóctone dos nossos arrozais (e.g. vales do Mondego, Sado e Tejo), indígena do Brasil e Argentina:

Eryngium pandanifolium (Apiaceae). N.b. cada uma das "bolinhas" da inflorescência é, na realidade, um capítulo de flores; o E. pandanifolium é um helófito (= planta anfíbia), i.e. embora viva em zonas húmidas, a maior parte dos seus orgãos aéreos (folhas, caules e flores) emergem acima da água [Paris, Jardin des Plantes]

Impressiona como um género moderadamente diverso (ca. 250 espécies) inclui plantas de ecologia tão diversa (e.g. águas livres pouco profundas, solos temporariamente encharcados, margens secas de caminhos, comunidades efémeras de plantas anuais não nitrófilas e dunas)!
[fotos C. Aguiar]

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Convergência evolutiva: Eryngium (Apiaceae), Daucus (Apiaceae) e Carlina (Asteraceae)

Costumo, logo na primeira aula teórica da disciplina de botânica que lecciono na minha escola, mostrar três desenhos, de três espécies indígenas de Portugal, extraídos da maravilhosa "Flore Complète Illustrée de France, Suisse et Belgique", de Gaston Bonnier:

Daucus carota (Apiaceae)

Eryngium campestre (Apiaceae)

Carlina vulgaris (Asteraceae)

Depois pergunto: qual a espécie evolutivamente mais próxima de Eryngium campestre? Geralmente, o srs. alunos defendem que Eryngium é um parente mais próximo de Carlina, do que de Daucus, porque ambas as espécies são espinhosas. Diz o o inverso - que Eryngium é evolutivamente mais próximo de Daucus - algum repetente, ou o aluno mais avisado que percebe que a pergunta se destina a explorar os conceitos de analogia e homologia .

Os livros escolares do 3º ciclo, ou do secundário, bem podiam divulgar exemplos de convergência evolutiva (ver conceito aqui) no reino das Plantas. É tempo de substituir o eterno exemplo das asas do morcego e da ave.

domingo, 25 de outubro de 2009

Eryngium corniculatum (Apiaceae)

Nas charcas temporárias com água livre até à entrada do Verão é frequente um outro Eryngium, o E. corniculatum.

Eryngium corniculatum (Apiaceae) [Miranda do Douro, Fonte da Aldeia]. N.b. ao fundo, no canto superior esquerdo, Mentha cervina (Lamiaceae), outra planta característica de charcas com águas livres até ao estio; próximo do canto inferior direito observa-se uma inflorescência de Polypogon maritimus (Poaceae)

Eryngium corniculatum (Apiaceae) [Miranda do Douro, Fonte da Aldeia]. As flores de Eryngium estão organizadas em inflorescências tipo capítulo, ao contrário da grande maioria das Apiaceae que possuem umbelas compostas.

O E. corniculatum é um excelente bioindicador do habitat prioritário Rede Natura 2000, "3170 Charcos temporários mediterrânicos".

Página de rosto da ficha do habitat "3170 Charcos temporários mediterrânicos" realizada pela ALFA-Associação Lusitana de Fitossociologia para o Plano Sectorial Rede Natura 2000 (clicar aqui para obter a ficha completa).

[fotos C. Aguiar]

sábado, 24 de outubro de 2009

Eryngium viviparum (Apiaceae)

Todos os anos visito uma certa charca na Serra de Nogueira para rever o Eryngium viviparum. Este ano foi terrível para as plantas anuais adaptadas a solos temporariamente encharcados. Mesmo assim o E. viviparum conseguiu cumprir o seu ciclo biológico, e produzir sementes.

Eryngium viviparum (Apiaceae) [foto C. Aguiar]

O E. vivaparum é um endemismo, de distribuição muito pontual nas fachadas atlânticas de Portugal, Espanha e França. Em Portugal estava há muito citado para três localidades nos arredores do Porto (e.g. Sr. da Pedra, Vila Nova de Gaia). Os terrenos localizados a norte de Leça da Palmeira (Matosinhos), hoje ocupados pela refinaria de petróleos do Cabo do Mundo, deveriam ser particularmente favoráveis a esta espécie. Muito botânicos percorreram nos últimos 15 anos, sem sucesso, os arredores do Porto em busca do E. viviparum. As populações douro-litorais foram certamente extirpadas pela enorme pressão urbanística e industrial a que os arredores do Porto estão submetidos.
Deambulava eu um dia, solitariamente, pela Serra de Nogueira quando dei de caras com uma pequena depressão húmida em rochas básicas, provavelmente construída pelos serviços florestais, ao longe assinalada por pequenos tufos de Juncus effusus. Amarrei-me, como se diz em Trás-os-Montes, e detectei, por entre as plantas de Mentha pulegium (Lamiaceae), as pequeninas e características folhas e inflorescências espinhosas de um grácil Eryngium anual. Como tive a sorte de observar, pela mão da Prof. Dalila do Espírito-Santo, o E. galioides no Algarve, a identificação foi imediata: E. viviparum.
Depois de uns pulos de alegria, de umas fotos e da cuidadosa colheita de 2 exemplares, estendi-me num tapete de Agrostis x fouilladei (Poaceae) com uma palhinha nos dentes a usufruir o sol ameno do início de Verão na montanha , e questionei-me. Como aparece o E. viviparum em Trás-os-Montes? Ainda por cima numa charca artificial? É possível que tenha viajado, de charca em charca, deste tempos imemoriais por esta Serra. A ser verdade os biólogos dirão que o E. vivaparum tem uma dinâmica metapopulacional na Serra de Nogueira. Porém, nunca vi outra população de E. viviparum por estas bandas! O mais provável é que uma ou mais sementes tenham sido acidentalmente transportadas por uma ave, a partir das populações do vizinho Lago de Sanábria. O mais sério candidato para este serviço de dispersão será o pato-real (Anas platyrhynchus). Desde que não seja pertubada esta espécie nidifica facilmente em pequenos charcos, ainda que secos no Verão.
Agora todos os cuidados são poucos. É essencial que os serviços oficiais tomem conhecimento da localização da única localidade portuguesa de E. viviparum, e que se preocupem com a sua conservação. É fácil. Basta deixar estar como está, e não estragar.