terça-feira, 30 de junho de 2009

Poa annua (Poaceae)

Nada de especial, uma foto de Poa annua, uma das mais frequentes e abundantes plantas de Portugal. Presente um pouco por todo o lado em prados e caminhos, sobretudo se beneficiados com alguma humidade no final do Inverno-Início da Primavera.
Os fitossociólogos dizem que a P. annua é uma característica de Polygono-Poetea annuae, uma classe de vegetação de plantas anuais fugazes (ciclo de vida muito curto), nitrófilas (de solos com um elevado teor em azoto assimilável), adaptadas a solos pisoteados e compactados.

Para além das características morfológicas das inflorescências descritas nas Floras, no campo, a P. annua distingue-se das outras gramíneas pelo verde claro característico das suas folhas, de ápice lembrando a quilha de um barco, como é próprio do género Poa.
Como tem um ciclo de vida muito curto frequentemente está já em flor quando as restantes gramíneas ainda nem sequer encanaram (produção de entre-nós compridos que conduzirão à emergência da inflorescência através da última folha). Nos relvados das nossas cidades, em pleno Verão, vêem-se pequenas manchas ("buracos") desprovidas de plantas que durante o Inverno-Início da Primavera haviam sido colonizados por P. annua.
A Poa annua distingue-se com dificuldade de outra Poa anual, a P. infirma, com a qual convive frequentemente.
[foto C. Aguiar]

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Das grosse Rasenstück (Albrecht Dürer, 1503)

Numa exposição dedicada a Albrecht [Alberto] Dürer, organizada pelo Museu do Prado em 2005, com base no acervo do Museu Albertina de Viena de Austria, tive a rara oportunidade de fruir uma das mais espantosas pinturas naturalistas de toda a história da arte: o "Das grosse Rasenstück".
Bragança é mais perto de Madrid do que de Lisboa, o que tem as suas vantagens!

Imagem extraída daqui.

A tradução (via inglês) para português deste título, corrija-me quem sabe, poderá ser: "O grande tufo de erva" ou, com um pouco mais de liberdade, porque não, "O grande pedaço de arrelvado". O termo arrelvado é muito rico; foi usado pelo Prof. Amaral Franco na sua Nova Flora de Portugal para designar, de forma genérica, comunidades herbáceas, pratenses ou não.

As plantas do "Das grosse Rasenstück" estão identificadas ao pormenor: Achillea millefolium (Asteraceae), Agrostis stolonifera (Poaceae), Bellis perennis (Asteraceae), Cynoglossum officinale (Boraginaceae), Dactylis glomerata (Poaceae), Plantago major (Plantaginaceae), Poa pratensis (Poaceae), Taraxacum officinale (Asteraceae) e Veronica chamaedrys (Plantaginaceae).
Entre estas espécies são particularmente evidentes as seguintes (todas elas indígenas de Portugal Continental):

Plantago major (Plantaginaceae)

Poa pratensis (Poaceae)

Taraxacum officinale (Asteraceae). N.b. brácteas involucrais reflexas (dobradas para trás), como é característico deste Taraxacum

A entrada da Wikipedia refere que o "Das grosse Rasenstück" retrata um grupo aleatório de plantas. Muito pelo contrário! Dürer pintou, com precisão, uma comunidade pratense de solos eutróficos que os fitossociólogos actuais não teriam dificuldade em classificar. Dürer era, certamente, um grande naturalista.
[fotos C. Aguiar]

domingo, 28 de junho de 2009

Flores de Castanea sativa «castanheiro» (Fagaceae) I

O castanheiro floresce na segunda metade Junho, início de Julho nas terras mais altas do Norte e Centro de Portugal.


Na Europa ocorrem apenas três géneros de fagáceas: Castanea, Fagus e Quercus.
Nos géneros Quercus e dos Fagus as flores masculinas e femininas estão organizadas em inflorescências distintas (vd. este post). As flores masculinas dispõem-se em amentos pêndulos e unissexuais.

O arranjo das flores em Castanea é muito distinto:


As inflorescências dos castanheiros são de um único tipo: amentos erectos. Os primeiros amentos do ano são exclusivamente masculinos (na imagem, em baixo). Os últimos amentos a serem produzidos (amentos androgínicos) possuem geralmente 1-4 grupos de 3 flores femininas, sendo as restantes flores masculinas (na imagem, em cima).
[fotos C. Aguiar]

Flores de videira

Acabam de florir as últimas videiras das terras altas do interior Norte e Centro de Portugal.
A esta altitude o vinho é de fraca qualidade, um resquício dos sistemas de agricultura secularmente construídos com o objectivo de garantir a auto-suficiência das comunidades camponesas.

Duas fotos da Vitis vinifera «videira-europeia» em flor.
A floração na videira (e em todas as espécies do género Vitis) envolve a libertação (deiscência) da corola (caliptra em Vitis) e a extrusão dos estames.

Vitis vinifera «videira-europeia» . N.b. sépalas muito reduzidas (não visíveis na foto); pétalas soldadas pela extremidade numa estrutura em forma de capuz conhecida por caliptra ou caruma (vd. caliptra em vias de se soltar da flor situada no ápice distal do cacho); 5 estames de filete longo; ovário súpero, i.e. restantes peças da flor inseridas por debaixo do ovário

Vitis vinifera «videira-europeia» . N.b. pétalas caducas na floração tombando em conjunto (vd. caliptras dispersa na folha situada imediatamente abaixo do cacho)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

A flor das angiospérmicas III

A interpretação da flor ancestral mudou significativamente a partir do início da década de 90 do séc. XX (vd. este post). Sucederam-se em catadupa as publicações. Num artigo ainda quentinho, publicado este ano no American Journal of Botany, Peter Endress e James Doyle fazem um ponto da situação e (re)discutem em profundidade a questão (em evolução das plantas, como em muitas outras áreas científicas, é suficiente memorizar uma dúzia nomes e para saber as novidades basta visitar ciclicamente as suas páginas pessoais).

As angiospérmicas basais (e.g. Amborella trichopoda e nenúfares [Nymphaeaceae]) e o registo fóssil, tratados com as ferramentas conceptuais e estatísticas apropriadas, indiciam que a flor primitiva entre outros caracteres possuía: mais de dois nós (= verticilos) de tépalas e de estames; carpelos ascidiados, livres e fechados por secreções (sem um tecido a conectar as margens do carpelo). Não é claro se esta flor era unissexual ou hermafrodita, se a filotaxia das peças florais era verticilada ou alterna em espiral ou, ainda, se as tépalas eram diferenciadas em sépalas e pétalas. As flores dos grupos basais (“mais primitivos”) actuais ao que parece resultam da simplificação de flores mais complexas quando há pouco tempo se admitia serem primitivamente simples.

Nuphar lutea «golfão-amarelo» (Nymphaeaceae), uma angiospérmica basal

Os mais sérios candidatos a polinizadores das primeiras angiospérmicas são agora as moscas (ordem Diptera).

Lucilia caesar, uma belíssima espécie da ordem díptera (certamente já falecida :-) porque os insectos geralmente "vivem depressa e morrem cedo", ao contrário da maioria das plantas)

Os filogenistas de plantas bem se esforçam por encontrar trilhos seguros e consistentes para explorar o passado das plantas com semente (inc. plantas com flor). Infelizmente continuam a escassear respostas definitivas; cada novo paper sobre o tema parece adicionar mais entropia ao tema do que soluções. É bem provável que, um destes dias, a interpretação da flor primitiva se altere radicalmente com a descoberta de mais um estranho fóssil numa remota montanha da China ou nos depósitos argilosos do mesozóico em Portugal, ou com a (re)interpretação evolutiva de uma pequena planta esquecida pelos botânicos num dos recantos deste mundo.
[fotos C. Aguiar]

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Rubus brigantinus (Rosaceae)

Outro Rubus endémico descrito por Gonçalo Sampaio: o Rubus brigantinus.
A localidade clássica desta espécie situa-se na aldeia de Montesinho (Concelho de Bragança), daí o restritivo específico.
Caracteres diagnóstico da espécie: plantas de cor vinosa; folhas frequentemente debruadas a cor de vinho; acúleos turionais heterogéneos (de diferente tamanho) com uma base algo engrossada; presença de glândulas pediculadas nos turiões; turiões de indumento variável, por vezes glabrescentes, sem placas de pruina.



Rubus brigantinus (Rosaceae) [fotos C. Aguiar]

domingo, 21 de junho de 2009

João Manuel António Paes do Amaral Franco

João Manuel António Paes do Amaral Franco o patriarca da botânica portuguesa, autor da sua última flora, faleceu em Lisboa no dia 8 de Maio de 2009, aos 87 anos de idade.
Nasceu a 25 de Junho de 1921 em Santos-o-Velho, Lisboa tendo representado ao longo da sua vida como botânico uma linha de mais de um século de insignes botânicos do Instituto Superior de Agronomia e da Botânica portuguesa.
Foi professor de Botânica de várias gerações de engenheiros agrónomos e silvicultores tendo sido responsável pelas disciplinas de botânica no Instituto Superior de Agronomia de 1950 até à sua jubilação em 1991. Foi ainda membro de uma grande parte dos júris de doutoramento, e outros, dos botânicos portugueses seniores da actualidade.
O seu curriculum inclui mais de 150 publicações sendo o exemplo do trabalho profícuo de um taxónomo e sistemata. Realizou centenas de descrições, redescrições, aperfeiçoamentos em descrições anteriores, alteração de corologias, traduzindo nos herbários que estudou, particularmente em LISI, a mais significativa das mais valias.
O Professor João Amaral Franco iniciou a sua actividade científica ainda como aluno e prolongou-a pelos últimos 67 anos.
O primeiro período (1940 a 1950) da sua vida científica corresponde à precoce introdução à taxonomia vegetal sobretudo através de estudos de dendrologia de coníferas. Durante este período inicia a sua longa carreira académica como docente ao ser contratado como segundo assistente no Instituto Superior de Agronomia.
Depois de 1950, e até 1960, já como Professor agregado, continua a publicação de diversas notas sobre coníferas datando deste período um consistente alargamento do horizonte taxonómico dos seus interesses e publicações a que não serão alheios os períodos passados em Kew e no Museu de História Natural de Londres. Nesta década publica diversas notas sobre a flora de Portugal algumas de índole biogeográfica, a par da principal linha de investigação em taxonomia vegetal.
A década de 60 fica marcada pela sua colaboração com o projecto Flora Europaea e pelas notas publicadas em colaboração com o A. R. Pinto da Silva bem como com a M. L. Rocha Afonso. Ainda na década de 60 foi nomeado professor extraordinário do 1º grupo de disciplinas do Instituto Superior de Agronomia.
A partir de 1971 João Amaral Franco iniciou (por sugestão do Prof. V. Heywood e do Prof. T.G. Tutin) a publicação da Nova Flora de Portugal, da qual publica o primeiro volume. Ainda na década de 70 inicia a colaboração com a iniciativa Atlas Florae Europaeae e colabora no terceiro e quarto volume da Flora Europaea. Datam deste período as suas principais contribuições na fitogeografia e corologia da flora de Portugal, mantendo assinalável produção científica taxonómica patente nas Notulae Systematicae
Na década de 80 vê o seu curriculum científico e académico reconhecido tendo sido nomeado professor Catedrático do 1º grupo de disciplinas do Instituto Superior de Agronomia. Neste período alarga os seus estudos sobre monocotiledóneas sobretudo gramíneas grupo sobre o qual publica diversos artigos e notas. Publica o segundo volume da Nova Flora de Portugal e a Distribuição de Pteridófitos e Gimnospérmicas em Portugal. Mantém a colaboração como o Atlas Florae Europaeae datando deste período a sua colaboração com a Med-Checklist projecto de que foi Conselheiro Nacional, e no projecto Flora Ibérica do qual é editado o primeiro volume.
Após a sua jubilação 1991, continua a colaborar activamente no herbário e Departamento de Protecção de Plantas e de Fitoecologia do Instituto Superior de Agronomia, bem como nos projectos Flora Ibérica e Atlas Florae Europaeae. Em 1994 publica, em colaboração com M.L. Rocha Afonso o primeiro fascículo do terceiro volume da Nova Flora de Portugal, bem como diversos artigos e notas resultado da preparação do segundo fascículo dedicado às gramíneas.
Nos primeiros anos do novo milénio vê a luz do dia o terceiro (e último) fascículo do terceiro volume Nova Flora de Portugal. Nestes anos João Amaral Franco continuou a manter intensa actividade de revisão de material herborizado no herbário LISI, tendo revisto para nova edição o primeiro Volume da Nova Flora de Portugal.
Foi autor de cerca de 160 novos taxa ou combinações tendo-lhe sido recentemente dedicadas as espécies Teucrium francoi e Festuca francoi.
O seu exemplo e a sua obra na produção de revisões e monografias, na publicação de novidades florísticas ou taxonómicas, reflecte o trabalho de uma vida na taxonomia, a sua Flora foi, e é, uma ferramenta de excelência, primando pelo rigor da linguagem pelas extensas descrições. A Botânica portuguesa deve-lhe muito pois a sua obra exemplar possuio sempre um rumo coerente, contínuo e pertinaz, características exemplares de um curriculum que contribui para o progresso da ciência e da taxonomia vegetal em particular.
Recordo o Professor João Amaral Franco no antigo herbário LISI debruçado sobre algum espécimen enquanto centenas de outros esperavam o momento de serem escrutinados, que esta imagem de labor contínuo e o resultante curriculum nos sirvam de exemplo.

A sua obra perdurará.


Miguel Pinto da Silva Menezes de Sequeira, Funchal, 12 de Maio de 2009.