quinta-feira, 8 de abril de 2010

Caloplaca saxicola (Teloschistaceae)














Para variar um pouco em relação às plantas vasculares, aqui fica um belíssimo líquen rupícola: Caloplaca saxicola (Hoffm.) Nordin, da família Teloschistaceae, ordem Teloschistales, classe Lecanoromycetes e divisão Ascomycota, do reino Fungi.
Trata-se de um líquen bastante comum, aqui fotografado sobre um velho muro calcário.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Calendula vulgaris (Asteraceae)

As listas de plantas características das classes de vegetação nitrófilas e seminitrófilas ibérica (vd. aqui) mostram-nos que uma parte muito significativa da nossa flora - as contas estão ainda por fazer - habita margens de caminhos, pousios, muros e taludes.
A identificação da flora nitrófila e seminitrófila não é fácil, bem pelo contrário. Alguns dos géneros mais representativos deste enorme grupo ecológico são muito diversos, e as suas espécies morfologicamente semelhantes. O bom florista não pode evitar a flora infestante e ruderal: tem que investir muitas e boas horas de intensivo treino, por exemplo, com dicotiledóneas ruderais dos géneros Carduus, Erodium, Fumaria, Sonchus, Spergularia, Silene, Trifolium, ou Vicia, ou com gramíneas dos géneros Avena, Bromus ou Hordeum.
A mestria florística de um botânico não se testa com plantas raras de morfologia exuberante, ou de ecologia e área de distribuição concreta e reduzida! Felizmente, a identificação das plantas ruderais e infestantes, não é menos exaltante do que a identificação de uma orquídea: os coleccionistas, de cromos a selos, entendem, certamente, como é gratificante a descoberta de uma planta nunca vista, por mais comum que ela seja. Depois, muitas destas plantas detêm pormenores entusiasmantes de biologia ou ecologia que vale a pena explorar.

Para decorar esta pequena reflexão trago hoje a mais do que comum Calendula vulgaris (Asteraceae) «erva-vaqueira»:


Uma curiosidade.
Os frutos, i.e. as cipselas, da maioria das asteráceas portuguesas, têm um papilho de pêlos, e dispersam-se pelo vento:


Os frutos da erva-vaqueira não têm papilho, mas sim pequenos tubérculos e espinhos, que facilitam a sua dispersão suspensos no ventre de um animal, na asa de uma ave, ou nos interstícios de umas botas de montanha (dispersão zoocórica):

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Viscum album (Santalaceae)

Ao correr algumas das minhas fotos encontrei-me com o visco, que fotografei há já alguns anos na Normandia (França).


Viscum album (Santalaceae) a parasitar macieira. Trata-se de um hemiparasita (tendo clorofila, converte a energia solar em energia química [ATP] e poder redutor [NADPH]), dióico, de bagas (na realidade pseudobagas, o ovário é ínfero) brancas, de polpa muito viscosa e tóxica (parece que bastam 20 para varar um homem). Tanto quanto sei as citações portuguesas da espécie são antigas e duvidosas.

Os herbalistas atribuem-lhe inúmeros usos medicinais. À semelhança do Leontopodium alpinum (Asteraceae), a edelweiss, ou estrela-de-prata, como lhe chamaram alguns tradutores, o visco é mais conhecido pelos livros do Astérix.
Uderzo desenha Panoramix, o amigo druída de Astérix, a colher visco em carvalhais de Quercus robur com uma foice de ouro, porque "só assim a planta mantém os seus poderes mágicos". No Astérix o Gaulês, o primeiro livro da série, logo na terceira prancha, Astérix e Obelix procuram Panoramix no bosque pristino que envolve a aldeia gaulesa: na versão em Mirandês (Asterix L Goulés), diz Astérix que "el debe de star ne l meio de la rama a apanhar bizgo cul sou foucin d'ouro". O tema retorna, por exemplo, no Astérix e a Foice de Ouro, ou no Astérix e os Godos.
Goscinny, o argumentista das melhores histórias de Astérix, fantasia em torno do visco e de algumas práticas druídicas, directa, ou indirectamente, inspirado em duas conhecidas passagens do Naturalis Historia de Plínio-o-Velho [23-73 d.C.].
São elas (tradução do inglês):
"Alguns supersticiosos acreditam que o visco é mais eficaz se colhido de um carvalho numa noite de lua nova, sem usar ferro, e sem que ele toque o solo ..."(XXIV, 6);
"Os druidas nada consideram mais sagrado do que o visco e a árvore onde ele cresce, desde que essa árvore seja um carvalho. ... O visco, porém, é raramente encontrado no carvalho, quando tal acontece é colhido com a maior cerimónia no nono dia da lua ... preparam um sacrificio ritual e um banquete sob a árvore ... um sacerdote vestido de branco sobe à árvore com uma foice de ouro e corta o visco ..." (XVI, 95).

O Naturalis Historia termina num breve e pungente parágrafo, de extraordinária beleza (copy past da tradução portuguesa de Pompeia, uma novela de Robert Harris): "Salvé Natureza, mãe de toda a criação, atenta que apenas eu entre os homens de Roma te louvei em todas as tuas manifestações, sê misericordiosa comigo".

sábado, 3 de abril de 2010

Iris japonica Thunb. (Iridaceae)















Fotografei hoje num jardim público, em local arenítico, esta bela erva florida. Penso que se deverá tratar provavelmente de uma Iridácea, mas desconheço o género e a espécie a que pertence.
Talvez algum dos estimados colaboradores e visitantes deste blog possa ajudar a esclarecer este singelo mistério!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Eruca vesicaria & Sinapis alba subsp. mairei (Brassicaceae)

A Terra Quente transmontana está fantástica dos meados de Março até aos meados de Maio.
Por esta altura dominam a biomassa das comunidades de plantas de taludes e margens de caminhos duas plantas da família da couve (Brassicaceae ou Cruciferae, o Código Internacional de Nomenclatura Botânica aceita as duas grafias): a Eruca vesicaria e a Sinapis alba subsp. mairei.

Eruca vesicaria (Brassicaceae) «rúcula-selvagem»
[Carrazeda de Ansiães, Foz Tua; Foto C. Aguiar]

A Eruca vesicaria «rúcula-selvagem» é apreciada pelo menos desde a Roma Clássica, e muito citada pelos gourmets de plantas não cultivadas.
No passado extraía-se um óleo da rúcula-selvagem, usado como condimento em substituição da mostarda. Actualmente, colhem-se as suas folhas, de preferência antes da floração, para consumo em fresco em saladas. O mesmo destino pode ser dado às flores e aos botões florais. A rúcula tem um sabor picante inconfundível devido à presença de um glucosinolato sulfurado - o ácido erúcico - cuja toxicidade não é consensual entre os especialistas. Pelo sim e pelo não mais vale consumir folhas de variedades melhoradas com baixos teores de ácido erúcico, que podem ser cultivadas com sucesso em qualquer horta urbana ou rural. Em alternativa, é fácil encontrar rúcula empacotada nos supermercados, vindas sabe-se lá de onde, e a que preço!
Alguns autores defendem que as linhagens cultivadas desta planta exibem uma morfologia distinta das populações selvagens, concretamente maior dimensão, folhas menos divididas, cálice persistente e flores mais pálidas - propondo a sua segregação sob o nome E. vericaria subsp. sativa. Outros afirmam que se observa um contínuo entre a subsp. vericaria e a subsp. sativa, que impede qualquer tratamento subespecífico da E. vesicaria

S. alba subsp. mairei (Brassicaceae)
[Carrazeda de Ansiães, Foz Tua; Foto C. Aguiar]

Das sementes moídas da S. alba subsp. alba, um domesticado da subsp. mairei de escasso valor taxonómico, faz-se uma mostarda suave (mostarda-branca). As mostardas mais picantes (mostardas francesas) baseiam-se nas sementes de Brassica nigra, uma planta de proveniência desconhecida, assilvestrada no sul do país. Dizem os livros que a mostarda-branca pode ser usada como condimento, ou em sinapismos (cataplasmas que provocavam um afluxo de sangue nas zonas de aplicação).

domingo, 28 de março de 2010

A flora de Outono-Inverno das hortas transmontanas

Em função das datas de floração, de Março a Setembro sucedem-se três grupos de plantas nas hortas transmontanas: infestantes de Outono-Inverno, infestantes de Primavera-Verão e infestantes de estivais (de Verão). Os dois primeiros grupos são do conhecimento de qualquer agricultor que preze a sua horta. O terceiro grupo é menos evidente, e mais pobre em espécies.
Estamos no início da Primavera, vejamos mais de perto algumas das plantas de Outono-Inverno que infestam, neste momento, as nossas hortas:

Uma horta transmontana semeada com nabos (Brassica napus), já parcialmente arrancados. Na segunda foto observam-se Lamium amplexicaule (Lamiaceae), Poa annua (Poaceae), Veronica persica (Plantaginaceae) e Stellaria media (Caryophyllaceae) (vd. posts mais antigos aqui, aqui e aqui)

Stellaria media (Caryophyllaceae)

Lamium amplexicaule (Lamiaceae)

Estas plantas são todas anuais; germinam com as primeiras chuvas outonais, desenvolvem o seu corpo vegetativo no Outono-Inverno, e florescem e frutificam no final do Inverno-início da Primavera. Como exigem solos férteis são francamente menos abundantes nas terras de cereal; aí a flora é outra.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Scrophularia sublyrata (Scrophulariaceae)

Vi esta planta pela segunda vez na semana passada:

Scrophularia sublyrata (Scrophulariaceae). N.b. folhas glabras (sem pelos) e sectas (profundamente recortadas, até à nervura média)

Scrophularia sublyrata (Scrophulariaceae) N.b. A corola das Scrophularia tem dois lábios: no superior evidenciam-se os segmentos de duas pétalas, e no inferior de três; na fauce (entrada) da corola, além das anteras de quatro estames (carregadas de pólen amarelo), observa-se uma espécie de dente, interpretado como sendo um estaminódio (estame estéril), cuja função, se é que a tem, desconheço.

Este endemismo ibérico descrito por Avelar Brotero para as redondezas de Setúbal, surge, muito pontualmente, em plataformas rochosas, ou no sopé de "boulders" ou afloramentos graníticos, revestidos com solos ricos em detritos orgânicos, geralmente localizados na vizinhança de bosques perenifólios. A S. sublyrata é umas daquelas plantas que embora rara (pelo menos aqui no NE), tem uma razoável área de ocupação (vd. tipos de raridade de Deborah Rabinowitz aqui).