Deambulando pela Terra-Fria Transmontana (Vinhais, Bragança e Miranda) para inventariar o conhecimento etnobotânico (levantamento de espécies, saberes, usos e práticas) encontramos referências ao uso de várias espécies silvestres que, tal como o Cytinus hypocistis, eram frequentemente consumidas em cru. Folhas, caules aéreos e subterrâneos, botões florais, flores e frutos podem ser chupados ou mastigados, libertando adocicados sucos ou oferecendo uma consistência fibrosa e durável, fazendo concorrência apreciável às actuais “gomas” e “pastilhas elásticas”.
E de facto, é assim que muitos informantes (as pessoas que participam num estudo etnobotânico e fornecem informação) gostam de apresentar este tipo de aproveitamento das plantas silvestres, isto é, como sendo uma brincadeira de crianças ou uma faceta temperamental associada aos pastores e contrabandistas, tidos como pessoas de convívio nem sempre fácil.
Idiossincrasias e jogos de crianças à parte, muitos informantes mais velhos recordam que nos tempos da sua meninice, a alimentação era pobre, pouco variada e com uma única refeição quente diária, o jantar. Durante o dia “enganavam a fome” com um naco de pão, queijo e um punhado de frutos secos. Assim sendo, nos intervalos da escola ou enquanto ajudavam nas tarefas agrícolas, procuravam alternativas para saciar a fome na natureza que os rodeava. E a verdade é que esses alimentos informais que recolhiam, além de satisfazerem a vontade de comer, funcionavam como suplementos alimentares e vitamínicos.
Considerando apenas as espécies consumidas durante a Primavera, ficando para outra oportunidade os frutos silvestres do Verão e Outono, listamos alguns exemplos de plantas silvestres comidas (chupadas ou mastigadas) em cru e da respectiva designação popular, registados nas regiões de Bragança, Miranda do Douro e Vinhais.
«Agreichos, puniqueijos, riqueijões» – Tubérculos de Conopodium majus subsp. marizii (Apiaceae)
«Azedas» – Caules e folhas de várias espécies de Rumex (Polygonaceae)
«Botas, botainas» – Caules intumescidos de Hypochoeris glabra (Asteraceae)
«Canastras, sapatetas, zapatetas» – Vagens imaturas de Astragalus pelecinus (Fabaceae)
«Chupa-méis» – Caules e flores de Lamium purpureum (Lamiaceae)
«Corniços, corneichos, corniçoilos» – Vagens imaturas de Astragalus cymbaecarpos (Fabaceae)
«Fogaças, tortas» – Frutos imaturos de Malva sylvestris (Malvaceae)
«Maias, mimos» – Flores de Cytinus hypocistis (Cytinaceae)
«Pipotes, bercegos, vercegos» – Rebentos jovens de Celtica (Stipa) gigantea (Poaceae)
«Rabos de gato» – Caules de Trifolium sp.pl. (Fabaceae)
«Sargaço branco» – Botões florais e cápsulas de Halimium lasianthum subsp. alyssoides (Cistaceae)
Uma curiosidade: outras partes de algumas destas espécies eram, ou são ainda, usadas na confecção de saladas, sopas e verduras para acompanhamento de pratos cozinhados e como plantas medicinais na preparação de remédios caseiros.
Astragalus pelecinus, exemplar seco [foto de A.M. Carvalho]
Halimium lasianthum subsp. alyssoides [foto de A.M. Carvalho]
