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sábado, 12 de maio de 2012

Caixas florais pintadas à mão (várias famílias)

Já há muito tempo que aqui não se postava nada, por isso fica hoje um post, bastante diferente dos habituais, neste caso sobre arte botânica, com três fotos de caixas florais pintadas à mão, incluindo imagens das seguintes espécies: Na foto com duas caixas, de cima para baixo: Apocynaceae: Vinca difformis Pourr., Mem. Acad. Toul. iii. (1788) 333. basionym of: Vinca major L. subsp. difformis (Pourr.) M.Laínz, Aport. Conoc. Fl. Gallega 6: 22. 1968 [26 Oct 1968]. Ranunculaceae: Hepatica nobilis Mill., Gard. Dict., ed. 8. Hepatica no. 1 [textus s.n.]. 1768 [16 Apr 1768] Type Information: native of North America; cultivated in UK. Convolvulaceae: Calystegia sepium ( L. ) R.Br., Prodr. Fl. Nov. Holland. 483. 1810 [27 Mar 1810] basionym: Convolvulus sepium L., Sp. Pl. 1: 153. 1753 [1 May 1753]. Na foto com três caixas, de cima para baixo: Orchidaceae: Cypripedium calceolus L., Sp. Pl. 2: 951. 1753 [1 May 1753] Distribution: Europe, Asia & North America Type Information: Type Specimen: Dodoens, Stirp. Hist. Permpt. ed. 2, 180, fig. 1, 2. 1616. Plantaginaceae: Kickxia spuria ( L. ) Dumort., Florula Belgica 1827 = Antirrhinum spurium L., Sp. Pl. 2: 613. 1753 [1 May 1753] Kickxia spuria (L.) Dumort. subsp. integrifolia (Brot.) R. Fern. = Antirrhinum spurium L. var. integrifolium Brot. Plantaginaceae: Linaria triornithophora ( L. ) Cav., Elench. Pl. Horti Matr. 21 (1803); cf. Rothm. in Fedde, Repert. xlix. 52(1940). = Antirrhinum triornithophorum L., Sp. Pl. 2: 613. 1753 [1 May 1753], um endemismo exclusivo da Península Ibérica. E, na foto com seis caixas, no sentido dos ponteiros do relógio: Solanaceae: Solanum dulcamara L., Sp. Pl. 1: 185. 1753 [1 May 1753] Type Location: lectotype LINN (NO. 248.7). Oxalidaceae: Oxalis acetosella L., Sp. Pl. 1: 433. 1753 [1 May 1753] Type Information: Locality: "Habitat in Europae borealis sylvis." Alismataceae: Alisma sp., flores brancas de uma bela planta aquática, espontânea em Portugal, em locais frescos e húmidos. Iridaceae: Moraea sisyrinchium (L.) Ker Gawl., Ann. Bot. [König & Sims]. 1(2): 241. 1804 [1 Sep-6 Nov 1804] = Iris sisyrinchium L., Sp. Pl. 1: 40. 1753 [1 May 1753] Original Data: Notes: Reg. Mediterr.; Oriens; Afghan = Gynandriris sisyrinchium (L.) Parl., Nuov. Gen. Sp. 52. = Helixyra sisyrinchium (L.) N.E.Br. Geraniaceae: Geranium sanguineum L., Sp. Pl. 2: 683. 1753 [1 May 1753] Distribution: "Europae pratis siccis umbrosis"; introduced in North America Type Information: lectotype BM (HERB. CLIFFORD 343). Myrsinaceae: Trientalis europaea L., Sp. Pl. 1: 344. 1753 [1 May 1753] Type Information: Locality: "Habitat in Europae borealis sylvis & juniperetis." Informações provenientes de IPNI: http://www.ipni.org/ipni.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A Marquesa de Alorna e a botânica

Leonor de Almeida Portugal [1750-1835], Marquesa de Alorna, teve uma vida tão longa como acidentada. Sofreu as perseguições do Marques de Pombal, e refugiou-se por duas vezes exilada no estrangeiro. Assistiu ao terramoto de 1755, à primeira fase da decadência dos Braganças, às invasões francesas, à guerra civil e à instauração da monarquia constitucional. A adolescência passou-a desterrada num mosteiro, em Chelas, não sem o convívio de visitadores masculinos. Casou com um alemão que, como era e ainda é hábito na nação, dado o berço alóctone, subiu meteoricamente no poder e na escala social indígena. Aparentemente, esteve envolvida no assassinato de um general francês. Uma filha foi amante de Junot; um filho acompanhou os exércitos de Napoleão à Rússia. Conviveu com a nata da nobreza europeu e o melhor da elite cultural portuguesa. Acabou os seus dias, bem, numa quinta apalaçada nos arredores de Lisboa.
Mulher de densa cultura, estupenda inteligência e incontida petulância aristocrática, pintou e foi autora de traduções e de uma obra poética vasta. Um dos seus livros de poesia tem por título "Recreações botanicas". Conheço dois artigos sobre o livro, ricos de comentários e transcrições, da autoria de Luis de Pina (1953) e da Prof. Maria Helena Rocha Pereira (1983). Da sua leitura percebo que além de um acurado conhecimento teórico da ciência botânica e da sua história - leu Lineu e Tournefort, louva Correia da Serra e Brotero e recomenda a botânica como fonte de prazer e elevação - a Marquesa de Alorna percepcionou a forma das plantas, entendeu o sistema sexual lineano, e conhecia de facto as plantas e o seu uso.
Atentem nestes dois trechos de poesia.
Sobre as leguminosas:

Quantos legumes saborosos cobre
Uma silica branca! Com que graça
Verde e branco o faval recrêa a vista!
Como a luzerna, que viçosa cresce
D'esmeraldas os campos alcatifa!
Quantas mais com profusos dons contentam
Homens, aves, quadrupedes, insectos!
As artes, a saúde, a economia,
Implorando os aureílios desta Classe,
Sem as plantas que pródiga concede
Talvez parcos triunfos obteriam.

Medicago orbicularis (Fabaceae), uma luzerna anual, frequente nas áreas de clima mediterrânico de Portugal continental, com algum interesse nas misturas de sementes de pastagens ricas em leguminosas

E das labiadas:

As labiadas são familia illustre
Que a Natureza distinguiu vaidosa,
Pela forma do calix, pelas bracteas,
Pela corolla as reconhece as eschola.
Destas plantas cheirosas as virtudes.
Combatem as tristeza, a dôr, e a morte:
...

Teucrium heterophyllum (Lamiaceae), um soberbo endemismo madeirense e canarino

Ficam pela certa bem a abrir uma dissertação sobre metabolitos secundários e substâncias aromáticas ou, então, um panegírico dirigido às leguminosas, ao rizóbio e à nitrogenase. O último servia também um livro de agricultura biológica, não fora a natureza alternativa da política de muitos dos seus praticantes.
[fotos C.Aguiar]

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Das grosse Rasenstück (Albrecht Dürer, 1503)

Numa exposição dedicada a Albrecht [Alberto] Dürer, organizada pelo Museu do Prado em 2005, com base no acervo do Museu Albertina de Viena de Austria, tive a rara oportunidade de fruir uma das mais espantosas pinturas naturalistas de toda a história da arte: o "Das grosse Rasenstück".
Bragança é mais perto de Madrid do que de Lisboa, o que tem as suas vantagens!

Imagem extraída daqui.

A tradução (via inglês) para português deste título, corrija-me quem sabe, poderá ser: "O grande tufo de erva" ou, com um pouco mais de liberdade, porque não, "O grande pedaço de arrelvado". O termo arrelvado é muito rico; foi usado pelo Prof. Amaral Franco na sua Nova Flora de Portugal para designar, de forma genérica, comunidades herbáceas, pratenses ou não.

As plantas do "Das grosse Rasenstück" estão identificadas ao pormenor: Achillea millefolium (Asteraceae), Agrostis stolonifera (Poaceae), Bellis perennis (Asteraceae), Cynoglossum officinale (Boraginaceae), Dactylis glomerata (Poaceae), Plantago major (Plantaginaceae), Poa pratensis (Poaceae), Taraxacum officinale (Asteraceae) e Veronica chamaedrys (Plantaginaceae).
Entre estas espécies são particularmente evidentes as seguintes (todas elas indígenas de Portugal Continental):

Plantago major (Plantaginaceae)

Poa pratensis (Poaceae)

Taraxacum officinale (Asteraceae). N.b. brácteas involucrais reflexas (dobradas para trás), como é característico deste Taraxacum

A entrada da Wikipedia refere que o "Das grosse Rasenstück" retrata um grupo aleatório de plantas. Muito pelo contrário! Dürer pintou, com precisão, uma comunidade pratense de solos eutróficos que os fitossociólogos actuais não teriam dificuldade em classificar. Dürer era, certamente, um grande naturalista.
[fotos C. Aguiar]