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sexta-feira, 6 de maio de 2016

Os jovens velhos

As avoadinhas são das plantas mais comuns em Portugal, mas também são das mais ignoradas. O seu nome popular deriva da capacidade das sementes tem de se dispersar pelo vento, já que o vento a faz voar distâncias consideráveis. O nome do género em latim deriva do nome grego (Konyza) de outra planta da mesma família, Inula conyza, sendo o nome dado pela semelhança dos capítulos entre as duas. Anteriormente, as avoadinhas eram classificadas no género Erigeron, que deriva do grego (eri = cedo; geron = velho) e que significa mais ou menos rapidamente velho. Também as compostas do género Senecio tem uma referência geriátrica, já que senex em latim significa igualmente velho. Quando estas plantas estão cobertas de aquénios plumosos é fácil compreender a razão pela qual os botânicos clássicos utilizaram estas referências alegóricas relativas à velhice. Na foto encontram-se duas espécies que apesar de muito semelhantes à primeira vista, se podem diferenciar muito facilmente. A do lado esquerdo (Conyza sumatrensis) possui pêlos por toda a superfície da folhas e dos invólucros dos capítulos enquanto a da direita (Conyza bilbaoana), possui invólucros dos capítulos glabros e cílios apenas na margem e nervura inferior das folhas. Apesar de ser tido uma naturalização recente, a expansão rápida da C. bilbaoana pelo norte de Portugal e Espanha e restante Europa ocidental, faz-nos suspeitar que esta será uma das espécies com maior potencial invasor no território.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

azevinhos e carvalhos

Azevinhal na serra da Peneda (foto: P. Alves). Os azevinhais são das formações mais interessantes em Portugal, devido à raridade e carácter pontual com que aparecem na paisagem. A sua permanência parece ter origem na resiliência do azevinho face a perturbação recorrente pelos incêndios, mas não explica completamente o fenómeno. Os azevinhais aparecem no topo das serras em locais onde todos os carvalhos foram cortados há muito tempo. Os carvalhos são árvores com um grande sucesso de germinação e a grande quantidade de endosperma das bolota dá-lhes uma vantagem competitiva mesmo quando jovens plântulas. Mas essa vantagem é uma inconveniência quando falamos na dispersão das sementes. Se não existir um carvalho que forneça propágulos na proximidade, dificilmente teremos carvalhais na paisagem. Pelo contrário, o azevinho é um campeão nesse particular, especialmente quando falamos de dispersão zoocórica. As aves são os seus maiores aliados e uma semente de azevinho chega quase a todo o lado. E por essa razão vemos bosques de azevinho exuberantes na serrana da Peneda e não conseguimos descobrir nem um pequeno carvalho…

terça-feira, 5 de abril de 2011

Ulex europaeus (Fabaceae), uma invasora dentro de casa

Os taludes das estradas são utilizados por muitas espécies de plantas como corredores de dispersão. Só assim se explica a presença, por exemplo, do termófilo Cistus albidus (Cistaceae) a 700 m de altitude, mesmo às portas de Bragança.

O Ulex europeus destaca-se no fundo acinzentado de uma paisagem ainda invernal porque em Trás-o-Montes floresce no final de Março, início de Abril, quando a maior parte das árvores ainda nem sequer abrolhou. Primavera após Primavera, acompanhei nos últimos vinte anos a penetração do U. europaeus, desde a região de Vila-Real até ao extremo NE de Portugal, pelos taludes do IP4. Já chegou ao norte do concelho de Miranda do Douro.

 Embora seja uma espécie indígena de Portugal, o U. europaeus tem claramente um comportamento invasor no NE. Por enquanto, permanece contido nos taludes viários, não quer dizer que um destes dias não salte da vizinhança do IP4, ou das estradas que a ele têm acesso, para as terras abandonadas colonizadas por Cytisus sp.pl. «giestas».

Na Primavera, há medida que as florações se sucedem, conseguem-se detectar padrões de outro modo impossíveis de observar. Há que aproveitar que o tempo está óptimo.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Trifolium subterraneum (Fabaceae) II

A biologia da dispersão do T. subterraneum é extraordinária.
Finda a ântese (floração) os pedúnculos inflectem em direcção ao solo, e enterram os frutos encerrados no interior de capítulos frutíferos semelhantes a uma bola. Cada fruto de trevo contem uma única semente. Se quisermos ser cuidadosos com os conceitos e a linguagem, o fruto dos trevos não é uma vagem, como acontece na grande maioria das leguminosas, mas sim um aquénio.

 Aquénios de  T. subterraneum (Fabaceae) encerrados num capítulo frutífero. N.b. flores estéreis brancas de cálice reduzido a uma espécie de estrela de 5 pontas

Os capítulos frutíferos de T. subterraneum apresentam-se revestidos por um grande número de flores estéreis. Esta fantástica "descoberta evolutiva" resolve de uma penada vários problemas que qualquer planta pratense que se preze teve que lidar durante a sua história evolutiva. A flores localizadas no ápice da inflorescência estão reduzidas a pequenos cones com função de facilitar o enterramento dos frutos. Os cálices das restantes flores estéreis funcionam como as farpas de um anzol: ancoram os capítulos frutíferos no solo. Este mesmo carácter permite que os capítulos fiquem retidos entre as unhas ou no pêlo dos ungulados (e.g. ovelhas e vacas), que entretanto se encarregam de os dispersar a longa distância. Os cascos dos ungulados também facilitam o enterramento dos frutos no solo. Os serviços "comprados" pelo trevo-subterrâneo aos ungulados ficam concluídos com uma copiosa fertilização orgânica. Os excrementos animais, sobretudo dos ovinos, melhoram a fertilidade dos microsítios onde germinam as sementes após a chegada das primeiras chuvas outonais.

Capítulos frutíferos de T. subterraneum

O trevo-subterrâneo exige intensidades luminosas elevadas, tem um hábito prostrado e apresenta um pico de acumulação de biomassa  relativamente tardio. Estas três características ajudam a explicar a sensibilidade desta espécie à competição por gramíneas e outras plantas de porte erecto. Intensidades elevadas de pastoreio no final do Inverno (Fevereiro-Março) são essenciais para manter elevados graus de cobertura de trevo-subterrâneo quer em prados semi-naturais, quer em pastagens semeadas. Nos solos muito húmidos as gramíneas anuais, tão abundantes nos pastos mediterrânicos, são substituídas por gramíneas perenes (e.g. Holcus lanatus). Nestas condições o trevo-subterrâneo titubeia e é substituído por trevos perenes (e.g. T. repens «trevo-branco» ou T. pratense «trevo-violeta») ou por congéneres anuais de floração alta (e.g. T. dubium). Solos compactados e pisoteados pelos grandes herbívoros domésticos, secos e duros de Verão, pelo contrário, não o incomodam. Por alguma razão, no NE de Portugal, os melhores prados de trevo-subterrâneo podem ser encontrados nos terrenos baldios situados à entrada das aldeias, onde os animais descansam ao final da tarde, depois de um extenuante e longo dia de pastoreio, antes de regressarem aos seus alojamentos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Apologia do fogo - uma divagação sem rumo


Infrutescência de Banksia sp. após fogo recente. Em cada folículo aberto é visível um septo caduco, e a asa de algumas sementes
(este post é baseado em observação pessoal e não em bibliografia, algumas ideias podem estar erradas. Peço desde já desculpa pela extensão do post)

No sudoeste da Austrália, o clima também é mediterrânico. Também, como cá, as plantas aprenderam a sobreviver às grandes flutuações climáticas, em precipitação e temperatura, quer ao longo do ano, quer entre anos diferentes. Também, como cá, as plantas aprenderam a sobreviver ao fogo - mas cá, apenas algumas; lá, praticamente todas.
O fogo na Austrália mediterrânica faz parte do quotidiano das plantas, ao contrário de cá. Cá existem muitas comunidades que, após um fogo, acabam severamente alteradas na sua composição, podendo levar muitas décadas ou séculos a restabelecerem-se como eram - mas não vou entrar por aqui - ao passo que lá, mesmo as florestas dos eucaliptos gigantes - aqueles que atingem 90 metros de altura (karri, Eucalyptus diversicolor e tingle, Eucalyptus jacksonii) - mesmo estas florestas estão de alguma forma dependentes do fogo; a regeneração de semente não ocorre se não após um incêndio, a floresta "climácica" não é auto-sustentável sem esta perturbação. As árvores que fazem a floresta - vários eucaliptos - comportam-se, no fundo, como plantas pioneiras mas de vida longa.

Infrutescência de Banksia sp. antes do fogo. À direita, inflorescência de Banksia coccinea

A grande maioria das plantas arbustivas e arbóreas na Austrália possui uma estratégia que é raríssima cá: a serotinia, isto é, as sementes são apenas libertadas do fruto após um estímulo externo (e não na sua maturação, como é costume), que no caso australiano é quase sempre o fogo, quer directamente pelo calor e desidratação, quer indirectamente por matar a planta-mãe, o que resulta também na desidratação do fruto. O banco de sementes está, portanto, na copa das plantas, a salvo dos predadores, fungos e demais intempéries, e não no solo como cá acontece nas plantas a que costumamos chamar de seeders.
Entre as mais fantásticas, estão dois géneros formidáveis, Banksia e Hakea (já consigo ouvir muitos portugueses a contorcerem-se quando disse este último nome...), ambos da família Proteaceae. As infrutescências de Banksia são estruturas impressionantes. Imaginem um ananás de madeira compacta; é mais ou menos isso. Cada inflorescência de Banksia produz largas centenas de flores (milhares nalgumas espécies como B. grandis), mas só uma ínfima percentagem produz fruto. Contudo, todas as flores, polinizadas ou não, se mantém na infrutescência e endurecem, fazendo uma estrutura compacta e pesada. Uma estrutura tão compacta que não arde.

Fruto de Hakea sp. (a referida no texto), totalmente "escancarado". Vêem-se as cavidades, uma de cada lado, onde estavam alojadas as 2 únicas sementes. 55g de "madeira", 2 sementes.

Tenho alguns dados concretos, mas são medidas únicas, não médias, devem ser vistos com cautela. Um "cone" de Banksia grandis, que pesa 765g (peso seco) tem cerca de 180 sementes (o peso das sementes é desprezável). Não parece nada de especial, mas comparem com uma pinha de pinheiro bravo, que tem cerca de 180 sementes e pesa ca. 95g. Mesmo assim, a B. grandis não lhe fica muito à frente. Já uma Banksia menziesii produz um cone com 100g e que contém 18 sementes... uma outra Banksia, 190g para 18 sementes... e finalmente, uma Hakea sp. (foto acima): um fruto que pesa 55g (peso seco sem as sementes), contém apenas 2 sementes... resumindo:
Pinus pinaster: 0.6 g/semente
B.nutans: 1.1 g/s
B.grandis: 4.25 g/s
B.menziesii: 5.6 g/s
B.sp. (nenhuma das fotografadas): 10.6 g/s
Hakea sp. (foto em cima): 27.5 g/s

Hakea victoria, uma das mais famosas. A planta vai reabsorvendo os pigmentos, ano a ano, das folhas velhas, o que provoca uma gradação de cores verde>amarelo>vermelho>senescência devido aos pigmentos que ficam. Segundo bibliografia, tal não acontece quando a planta cresce em solos férteis (raros), por motivos óbvios.

É um investimento brutal em carbono fixado que estas plantas fazem, para tão poucas sementes. O caso da Hakea sp. é inacreditável. Tudo isto para garantir a sua protecção - contra o fogo e contra predadores terríveis como as cacatuas - ou para outro fins que agora não vislumbro.
As sementes, como já se depreende, permancem bem fechadas dentro dos frutos lenhificados (folículos) indefinidamente e são apenas libertadas por acção do fogo. Nada como fazer um churrasco de cones de Baksia para observar este fenómeno, que é bastante rápido após o fogo passar.
A explosão de vida após um fogo, lá, é ainda mais intensa do que cá. Para além de Banksia e Hakea, muitos outros arbustos exibem serotinia, nomeadamente uma miríade de géneros da família Myrtaceae (Melaleuca, Beaufortia, Calothamnus, Eucalyptus e sei lá quantos mais...), que é altamente diversificada naquela região; e também da família Casuarinaceae (Allocasuarina e Casuarina). Todas estas sementes de todas estas espécies aproveitam o pós-fogo, numa apoteose de germinação, favorecida pela abundância de nutrientes acabados de libertar. Outras plantas só agora florescem, a sua floração é rara e praticamente só ocorre estimulada pelo fogo. Mas isso fica para depois.
Infrutescência de Banksia grandis - 25 cm, 765g.

E termino por aqui, que já vai longo, mas ficou muita coisa por dizer. A partir desta base, que não é quase nada, podia-se abordar tantos outros temas. Em próximos posts, talvez, outras perspectivas!

Os frutos protagonistas.
Fotos: Ana Júlia Pereira e Miguel Porto

sábado, 13 de novembro de 2010

Tamus communis (Dioscoriaceae)

O Outono é a estação dos frutos.
Esgotou-se a cor das pétalas, mas aqui ali pontua a paisagem o apelo vermelho, violeta ou negro dos frutos carnudos. As flores chamam polinizadores; os frutos coloridos dispersores. A maior parte das nossas flores com perianto é polinizada por insectos; os frutos carnudos regra geral são dispersas por aves. Não surpreende, por isso, que os frutos carnudos geralmente sejam maiores e mais ricos em energia do que as flores que os precederam.

Um encontro feliz numa das minhas últimas passeatas botânicas:


Tamus communis «norça-preta», a única Dioscoriácea da flora Portuguesa. Os frutos são venosos, porém  menos do que os rizomas. N.b. em fundo, folhas e frutos de Hedera helix subsp. helix (Araliaceae)

sábado, 6 de novembro de 2010

Frutos de Prunus dulcis (Rosaceae)

Os frutos carnudos deiscentes, por outras palavras, os frutos brandos ricos em água que se rompem e libertam as sementes na maturação, tanto quanto sei, só ocorrem nos trópicos. Recordei este facto há 15 dias atrás enquanto observava estas amendoeiras.

Prunus dulcis (Rosaceae) «amendoeira»

Passo a explicar.
A amendoeira produz um fruto carnudo - uma drupa -, não comestível, ao contrário do fruto do Prunus persica «pessegueiro», uma espécie próxima também do subgénero Amygdalus. Nas drupas, o endocarpo, a parte mais interna do fruto, é rijo e protege uma semente, comestível no caso da amendoeira. Portanto, a amêndoa é uma semente, e não um "fruto seco", um termo agronómico de uso corrente, incorrecto do ponto de vista botânico. A parte carnuda das drupas da amendoeira - o mesocarpo - chegado o outono, abre uma larga fenda, solta-se e, geralmente, tomba no solo antes do caroço [endocarpo mais a semente]. Mas, atenção, a drupa da amendoeira não é deiscente porque a semente permanece sequestrada no endocarpo.
Uma curiosidade botânica menor.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Trifolium tomentosum (Fabaceae)

Nos prados de sequeiro com trevos-subterrâneos (T. subterraneum), naturais ou semeados, quando os anos são húmidos abundam as plantas de solos temporariamente encharcados, conforme referi neste post. Se os anos forem secos ganham dominância plantas mais xerófilas (melhor adaptadas à secura do solo), entre as quais se conta este trevo anual:

Trifolium tomentosum (Fabaceae)

Este pequeno trevo é uma das espécies do género Trifolium, indígenas de Portugal, de ciclo biológico mais curto, e mais resistentes ao pisoteio e à compactação do solo. Primavera meada não passa desapercebido em prados, margens de caminhos, estradas e passeios, com as suas frutificações esféricas prontas a rebolar pelo solo ao sabor do vento, até se encravarem numa pequena reentrância entre os paralelos de uma estrada rural ou num tufo seco de gramíneas. A anemocoria (dispersão pelo vento) neste trevo, à semelhança do T. resupinatum (vd. aqui), resulta da presença de cálices acrescentes (que crescem) após a fecundação, e colaescem numa infrutescência de grande volume e pouco peso.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Trifolium resupinatum (Fabaceae)

Para recomeçar nada melhor do que um trevo indígena da nossa flora, muito usado em misturas comerciais de plantas pratenses: o Trifolium resupinatum «trevo-da-pérsia».

O T. resupinatum aprecia solos húmidos, inclusivamente algo salinos, percorridos por animais. É muito fácil de distinguir no campo. Além dos vistosos capítulos de flores rosadas, apresenta a corola resupinada. Quer isto dizer que a corola sofre uma rotação de 180º, ficando o estandarte em baixo e a quilha em cima (a corola papilionada que caracteriza muitas leguminosas é constituída por 4 peças, 1 estandarte, 2 asas e 1 quilha). Nas leguminosas de corola resupinada os insectos polinizadores podem estacionar no estandarte - geralmente a maior das peças da corola papilionada - e, calmamente, aceder à sua recompensa, cumprindo o seu papel de polinizadores.


Finda a fecundação, os cálices alargam-se e a inflorescência toma a forma de uma bola. O T. resupinatum é uma espécie anemocórica: dispersa-se pela acção do vento.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Flora do (meta)lameiro do Poulão VII: (meta)Poa bulbosa

Os lameiros são mosaicos de comunidades vegetais organizadas ao longo de um gradiente mesotopográfico, regido pela disponibilidade de água na primavera e pelo encharcamento do solo. Os lameiros são, portanto, lameiros de lameiros, i.e. metalameiros.
Como referi num post anterior, as plantas dos habitats mais secos de lameiro geralmente são mais precoces a florir do que as plantas dos habitats de lameiro mais húmidos. Este fenómeno é particularmente evidente entre as gramíneas.

Nas cotas mais elevadas do metalameiro do Poulão floresce abundantemente por esta altura a Poa bulbosa:
Conto discorrer um pouco mais sobre a ecologia desta espécie, quando um dia escrever um grupo de postas sobre os prados naturais, ou semeados, de Trifolium subterraneum - de todas as plantas deste mundo a que mais me fascina. Para já queria chamar a vossa atenção para dois pormenores curiosos da morfologia da Poa bulbosa.
Conforme podem observar na foto, os colmos (= caule das gramíneas) da P. bulbosa apresentam um curioso engrossamento na base (daí o restritivo bulbosa). Este engrossamento deve-se à acumulação de água e amido num entrenó basal do colmo. As estruturas caulinares formadas por um ou mais entrenós alargados com função de reserva chamam-se cormos (= bolbos sólidos). Os cormos podem ser subterrâneos, ou aéreos; não preciso de explicar a diferença. Tanto os cormos como os bolbos de pequena dimensão, diferenciados nas inflorescências (e.g. Allium vineale), ou na axila de folhas (e.g. dentes de alho), são apelidados por bolbilhos.
Os bolbilhos têm um papel fundamental na propagação e dispersão da P. bulbosa. Com facilidade fragmentam-se, e são transportados, por exemplo, entre os cascos das ovelhas, e plantados no solo, dando origem a novas plantas.
Os bolbilhos são muito apreciados por porcos (bravos ou mansos) e ovelhas que os procuram activamente (com muito mais sucesso o porco do que a ovelha).
A P. bulbosa é, à semelhança de outras plantas do género Poa, uma planta vivípara. A maioria das flores, quando não todas as flores, são substituídas por bolbilhos aéreos, suspensos nos ramos da inflorescência. Em contacto com o solo, enraízam rapidamente, sustentados pelas reservas injectadas pela planta-mãe no bolbilho e pela actividade de folhas fotossintéticas (visíveis na foto).
O aspecto desgrenhado destes bolbilhos aéreos tem a sua lógica evolutiva. As pequenas folhas são rijas, e ligeiramente curvas, duas características morfológicas destinadas a facilitar a dispersão dos bolbilhos, pendentes da pelagem dos mamíferos (dispersão ectozoocórica).

A analogia subjacente ao termo vivíparo aplicado pelos botânicos à P. bulbosa é abusiva, e muito ao estilo do essencialismo biológico do séc. XVIII, e da primeira metade do séc. XIX. Os animais ditos vivíparos parem indivíduos com característica próximas dos adultos, i.e. num estadio de desenvolvimento mais avançado do que o ovo dos insectos, dos répteis, das aves, ou dos mamíferos monotrématos (nota: existem insectos e répteis vivíparos). Os bolbilhos aéreos não são sementes germinadas, mas sim estruturas vegetativas, morfologica e geneticamente idênticas à planta mãe (vd. primeira foto). Os bolbilhos aéreos são pequenas P. bulbosas suspensas no ar e no tempo, enquanto aguardam por um dispersor. Assim sendo, a P. bulbosa é uma planta de plantas: uma metaplanta, uma meta-Poa.
A analogia da P. bulbosa com os animais vivíparos só seria aceitável se existissem, por exemplo, gatos ou cães assexuados, com proliferações celulares somáticas em vez de órgãos sexuais, que no decurso da sua ontogénese felina ou canina, se diferenciassem em novos gatos, ou novos cães. Nunca vi metagatos, nem metacães clonais, de oito ou mais patas. Aliás, estou razoavelmente seguro que são uma impossibilidade biológica, porque tanto os gatos como os cães - ao contrário das plantas - são seres unitários, i.e. não têm uma estrutura modular.

Quanto mais seco o habitat da Poa bulbosa maior a quantidade de bolbilhos subterrâneos na base dos colmos, e aéreos na inflorescência. Quando a disponibilidade de água é maior, os pequenos cormos basais não se chegam a diferenciar, e maior a proporção de flores na inflorescência, i.e. maior a importância da reprodução sexuada.
A Poa bulbosa "lê" o habitat, e em conformidade modula a sua forma. Por isso, tanto coloniza prados perenes mesotróficos (lameiros), como pastagens de trevo-subterrâneo, ou afloramentos rochosos cobertos com uma delgada camada de solo. A plasticidade ecológica da P. bulbosa provavelmente é uma propriedade emergente da sua plasticidade morfológica.
Planta extraordinária, não é?

terça-feira, 6 de abril de 2010

Calendula vulgaris (Asteraceae)

As listas de plantas características das classes de vegetação nitrófilas e seminitrófilas ibérica (vd. aqui) mostram-nos que uma parte muito significativa da nossa flora - as contas estão ainda por fazer - habita margens de caminhos, pousios, muros e taludes.
A identificação da flora nitrófila e seminitrófila não é fácil, bem pelo contrário. Alguns dos géneros mais representativos deste enorme grupo ecológico são muito diversos, e as suas espécies morfologicamente semelhantes. O bom florista não pode evitar a flora infestante e ruderal: tem que investir muitas e boas horas de intensivo treino, por exemplo, com dicotiledóneas ruderais dos géneros Carduus, Erodium, Fumaria, Sonchus, Spergularia, Silene, Trifolium, ou Vicia, ou com gramíneas dos géneros Avena, Bromus ou Hordeum.
A mestria florística de um botânico não se testa com plantas raras de morfologia exuberante, ou de ecologia e área de distribuição concreta e reduzida! Felizmente, a identificação das plantas ruderais e infestantes, não é menos exaltante do que a identificação de uma orquídea: os coleccionistas, de cromos a selos, entendem, certamente, como é gratificante a descoberta de uma planta nunca vista, por mais comum que ela seja. Depois, muitas destas plantas detêm pormenores entusiasmantes de biologia ou ecologia que vale a pena explorar.

Para decorar esta pequena reflexão trago hoje a mais do que comum Calendula vulgaris (Asteraceae) «erva-vaqueira»:


Uma curiosidade.
Os frutos, i.e. as cipselas, da maioria das asteráceas portuguesas, têm um papilho de pêlos, e dispersam-se pelo vento:


Os frutos da erva-vaqueira não têm papilho, mas sim pequenos tubérculos e espinhos, que facilitam a sua dispersão suspensos no ventre de um animal, na asa de uma ave, ou nos interstícios de umas botas de montanha (dispersão zoocórica):

domingo, 10 de janeiro de 2010

Ligustrum vulgare (Oleaceae)

Uma foto outonal de Ligustrum vulgare (Oleaceae), uma das poucas oleáceas indígenas de Portugal Continental (6 espécies), no nosso país quase exclusiva do NE transmontano.


Frutos carnudos (drupas) de Ligustrum vulgare (Oleaceae). Esta planta é relativamente frequente em orlas arbustivas espinhosas altas, acompanhada por outros arbustos espinhosos como sejam as Rosa sp.pl. (Rosaceae) «rosas», os Rubus sp.pl. (Rosaceae) «silvas», os Prunus sp.pl. (Rosaceae) «abrunheiros» e o Crataegus mongyna (Rosaceae) «pilriteiro». N.b. "sp.pl." é uma forma abreviada de dizer "várias espécies"; em alternativa pode usar-se a abreviatura "spp."

Alguns autores defendem que os frutos carnudos de maturação estival (Verão) são geralmente vermelhos ou laranja, para sobressairem no meio da folhagem verde. Os frutos carnudos de Outono seriam, pelo contrário, tendencialmente negros, para as aves dispersoras não os confundirem com a folhagem senescente (de cores avermelhadas). Claro que há muitas excepções.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Frutos e sementes de Paeonia broteroi (Paeoniaceae)

As peónias (género Paeonia, Paeoniaceae) demonstram uma morfologia exuberante em dois momentos distintos do seu ciclo de fenológico anual: na floração (vd. aqui e aqui), e quando o fruto maduro se rompe e expõe as sementes ao exterior.



Frutos maduros de Paeonia broteroi (Paeoniaceae). As sementes negras são viáveis, as sementes vermelhas são estéreis e resultam de primórdios seminais não fecundados [Bragança, S. Pedro de Sarracenos, Setembro de 2009; fotos CA].

Porque investe a peónia na produção de sementes estéreis grandes e coloridas? Não seria energeticamente mais barato abortar os primórdios não fecundados, como faz a maioria das plantas? Porque é tão vistosa a parede interna do fruto? Tamanha exuberância tem, ou teve, certamente uma função. Uma vez que as sementes férteis são ricas em alcalóides, as cores berrantes do fruto e das sementes estéreis podem ser um aviso do género: "cuidado, não tocar", ou, melhor, "não comer, sementes tóxicas". Ou o inverso, uma forma de atrair eventuais dispersores (actuais, ou já extintos) com a mensagem "aceita-se dispersor de sementes, pagamento garantido". Um sinal enganador, diga-se, porque tanto as sementes estéreis, como as férteis são pobres em nutrientes, i.e. não oferecem recompensas alimentares.
Deixo as duas hipóteses a pairar no ar porque ainda não encontrei na bibliografia uma resposta plausível para a espectacularidade dos frutos maduros de Paeonia. Pode ser que algum dos leitores deste blogue me possa ajudar.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ecballium elaterium (Cucurbitaceae)

Com o Outono meado, procurando aqui e ali, nos sítios (habitats) certos, lá se vai encontrando uma ou outra flor. Não há defeso para naturalista que gosta de plantas :-)
Por exemplo, nos entulhos de construção, um pouco por todo o país, é fácil observar esta curiosa planta:

Flores e frutos de Ecballium elaterium (Cucurbitaceae) «pepino-de-são-gregório» [foto C. Aguiar, Moncorvo]

Como pertence à família das cucurbitáceas, o E. elaterium produz um pseudofruto (fruto s.l. derivado de um ovário ínfero) baciforme (semelhante a uma baga), que os botânicos, por convenção, apelidam de pepónio. Portanto, são pepónios o melão, a melancia, e os frutos das demais cucurbitáceas cultivadas. O pepónio do pepino-de-são-gregório tem, porém, uma característica muito particular. Na maturação, naturalmente, ou quando perturbado pela passagem de um animal (e.g. homem), destaca-se do pedúnculo e, nesse instante, projecta violentamente as sementes a longa distância. Diz-se que o E. elaterium possui um pepónio espermabólico. Um engenhoso exemplo de dispersão autocórica, i.e. com meios próprios, da planta, é claro.
Aqui vai uma sequência de imagens a retratar o acto de dispersão das sementes nesta espécie (p.f. clicar para ampliar):

[fotos C. Aguiar: Moncorvo]

Experimentem percorrer, em passo acelerado, um "pepinal" de S. Gregório. Parece um dia de carnaval! Esguichos de sementes por todo o lado, em todas as direcções. Cuidado, podem atingir os olhos! Depois cumpram a vossa função de dispersores animais: sacudam a roupa nos entulhos de construção do vizinho ;-)

quinta-feira, 19 de março de 2009

Ulmeiros e freixos

Os ulmeiros e freixos têm gomos florais e gomos foliares. No mês de Março, talvez mais cedo nas áreas mais quentes e litorais, os gomos florais, concentrados na base dos ramos do ano anterior, emitem grupos de flores polinizadas pelo vento. Cerca de quinze dias mais tarde são activados os gomos foliares, localizados na extremidade dos ramos formados no ano anterior. No interior de cada gomo folhear está abrigado um pequeno grupo de células com capacidade de produzir um novo caule com folhas, i.e. um ramo. Quando “deitam a folha” os ulmeiros têm os frutos quase maduros; nos freixos o ovário ainda não começou a inchar. Todos os freixos florescem abundantemente. Os ulmeiros, não.
Em Trás-os-Montes a maioria dos pequenos ulmeiros que ainda não foram aniquilados pela grafiose (uma doença fúngica mortal) não produzem sementes. Pontualmente, encontram-se grupos de indivíduos que se “desfazem” em semente. Este padrão adere à hipótese do ulmeiro ser um arqueófito, i.e. uma planta introduzida antes dos descobrimentos (por convenção antes de 1500 d.C.), provavelmente na proto-história (I milénio a.C.). O ulmeiro é propagado com estacas herbáceas no Verão ou por poulas (= chupões) radiculares no Outono-Inverno. Depois de instalado, com facilidade se dissemina por via vegetativa em torno das plantas-mãe. A dominância dos clones estéreis só se pode explicar pela acção do homem. Convém referir que num passado ainda recente as folhas dos ulmeiros eram fundamentais na alimentação dos animais domésticos, sobretudo dos porcos, no pino do estio.
Temos uma segunda espécie Ulmus em Portugal. O Ulmus glabra foi recentemente descoberto no norte do país. Esta espécie é certamente indígena (vd. P. Bingre et al., Guia de campo. As árvores e os arbustos de Portugal Continental, 2007). De norte a sul de Portugal encontramos uma única espécie de freixo, o F. angustifolia, embora nas plantações que por aí se fazem se vejam indivíduos de F. excelsior.


Ulmus glabra (Ulmaceae) [foto C. Aguiar]