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sábado, 30 de dezembro de 2023
🎙️ Spes Libertatis, com Henrique Pereira dos Santos
Um vídeo com uma entrevista muito interessante, a um bem conhecido especialista, acerca de fogos, agricultura, pastoreio e problemas afins, incluindo uma referência à síntese da amónia, o famoso processo de Haber ou de Haber-Bosch (https://en.wikipedia.org/wiki/Haber_process).
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Azolla pinnata subsp. africana (Azollaceae) e Marsilea coromandeliana (Marsileaceae)
O arroz é o alimento base dos guineenses.
Tradicionalmente o ciclo de arroz segue o ciclo das chuvas. Começa a chover em Maio-Junho. Em Outubro a convergência intertropical migra para sul, e começa a seca. Portanto em Junho mobilizam-se os canteiros nas bolanhas (terras-baixas) e fazem-se os viveiros. A plantação do arroz decorre em Julho-Agosto, e a colheita em Novembro.
Um dos segredos da produtividade do arroz nos trópicos está num dos dois fetos! desta foto:
Dois fetos salviniales: Azolla pinnata subsp. africana (Azollaceae) [flutuante de cor castanha] e Marsilea coromandeliana (Marsileaceae) [semelhante a um trevo de 4 folhas]
É que escondido nas folhas das azolas está um ser muito peculiar, uma bactéria azul-esverdeada, de nome Anabaena azollae. Este microscópico simbionte tem no seu arsenal bioquímico uma enzima muito especial, exclusiva de alguns poucos procariotas, a nitrogenase, que consegue quebrar a irredutível ligação tripla do azoto molecular atmosférico, reduzindo-o a amónia. O mais difícil fica feito porque qualquer planta é depois capaz de construir aminoácidos (as peças de lego das proteínas) juntando amónia a cadeias carbonadas, direta ou indiretamente, provenientes da fotossíntese.
A A. azollae fixa azoto; a azola cresce e reproduz-se; a azola morre; o azoto mineral entra no agroecossistema arrozal; o arroz absorve o azoto mineral, cresce e produz grão ... e as gentes alimentam-se.
Tradicionalmente o ciclo de arroz segue o ciclo das chuvas. Começa a chover em Maio-Junho. Em Outubro a convergência intertropical migra para sul, e começa a seca. Portanto em Junho mobilizam-se os canteiros nas bolanhas (terras-baixas) e fazem-se os viveiros. A plantação do arroz decorre em Julho-Agosto, e a colheita em Novembro.
Um dos segredos da produtividade do arroz nos trópicos está num dos dois fetos! desta foto:
Dois fetos salviniales: Azolla pinnata subsp. africana (Azollaceae) [flutuante de cor castanha] e Marsilea coromandeliana (Marsileaceae) [semelhante a um trevo de 4 folhas]
É que escondido nas folhas das azolas está um ser muito peculiar, uma bactéria azul-esverdeada, de nome Anabaena azollae. Este microscópico simbionte tem no seu arsenal bioquímico uma enzima muito especial, exclusiva de alguns poucos procariotas, a nitrogenase, que consegue quebrar a irredutível ligação tripla do azoto molecular atmosférico, reduzindo-o a amónia. O mais difícil fica feito porque qualquer planta é depois capaz de construir aminoácidos (as peças de lego das proteínas) juntando amónia a cadeias carbonadas, direta ou indiretamente, provenientes da fotossíntese.
A A. azollae fixa azoto; a azola cresce e reproduz-se; a azola morre; o azoto mineral entra no agroecossistema arrozal; o arroz absorve o azoto mineral, cresce e produz grão ... e as gentes alimentam-se.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Trevos, anafes e luzernas de Portugal
A publicação deste livro dependente do número de pré-reservas.
P.f. demonstre o seu interesse através do endereço trevoseanafes@ipb.pt
O professor Vasco Garcia, conhecido por "o pipetas", décadas a fio professor de Microbiologia do Instituto Superior de Agronomia (ISA), costumava fazer uma pergunta tão simples, como de árdua resposta. O professor perguntava qualquer coisa do tipo: "que aconteceria ao mundo se as leguminosas desaparecessem ". Os deslumbrados e simples alunos do primeiro ano, desconhecedores da complexa mente do Prof. Garcia, discorriam, então, alongadamente sobre a interação simbiótica leguminosa-rizóbio, quando o professor, inquieto, pedia apenas uma lapidar resposta: "a morte".
Sim, sem leguminosas os ecossistemas terrestres, pouco produtivos, apenas poderiam contar com o escasso azoto proveniente das descargas atmosféricas, e das bactérias diazotróficas que habitam, livres, esse complexo habitat que é o solo. A complexidade da vida animal que hoje povoa a Terra não existiria.
Sem a incorporação de leguminosas a agricultura nunca teria sido o que foi, e a população humana o que é. E os sistemas de agricultura do futuro terão, obrigatoriamente, que incluir leguminosas e uma componente animal que as coma e digira.
Mas para trabalhar a agricultura do futuro é preciso saber coisas, muitas coisas, e entre elas conhecer profundamente esta família angular que são as leguminosas.
Boas notícias para todos.
Três autores de nomeada, do Instituto Superior de Agronomia, Maria Edite Sousa, Maria Lisete Caixinhas e Paulo Forte preparam-se para atirar para cá para fora um livro que a todos nos ajudará: ao agricultor, ao naturalista amador, ao agrónomo, ao botânico, ao curioso.
Chama-se ele: Trevos, anafes e luzernas de Portugal.
Eis o resumo:
Trabalhos
sobre o conhecimento botânico das espécies forrageiras têm sido efectuados por
muitos investigadores não apenas da União Europeia mas também do resto do
mundo. No entanto, em Portugal, somente em 1962 foi publicado pelo Serviço de
Informação Agrícola da Direcção-Geral dos Serviços Agrícolas da Secretaria de
Estado da Agricultura – Ministério da Economia – da autoria do Professor João
de Carvalho e Vasconcellos do Instituto Superior de Agronomia, o livro
intitulado “Ervas Forrageiras”.
Em 1990, Portugal enviou para a “FAO International”o relatório nacional das espécies da flora portuguesa potencialmente importantes, entre as quais foram mencionadas algumas forrageiras.Como aparece agora este trabalho, considerado como Manual Universitário a ser adoptado em Instituições Universitárias Agronómicas, Veterinárias e por Técnicos Agrícolas?Em 1995, foi apresentada uma tese de doutoramento sobre o tema: “Pastagens da Região de Setúbal” (Sousa, 1995), em que foram efectuados 422 levantamentos florísticos o que permitiu às autoras a selecção das espécies a serem estudadas nesta obra.Em 2001, foi publicado a 3ª edição de um livro (Caixinhas et al., 2001) em que foram divulgadas 200 espécies de plântulas de espécies adventícias das culturas. Entre estas foram incluídas 28 espécies de Leguminosas consideradas também como forrageiras.As cerca de 70 espécies agora apresentadas tidas como forrageiras importantes são estudadas desde a sua emergência após germinação até à formação da vagem com sementes.Pela experiência que temos desde há quatro décadas no Instituto Superior de Agronomia, baseada em respostas a consultas efectuadas por alunos de Agronomia ou Veterinária e por Técnicos destas áreas, sobre a identificação de espécies forrageiras, justifica-se que o seu conhecimento é tanto mais útil quanto mais jovens elas são; daí o interesse da sua identificação no estado de plântula. Também as aulas em que colaborámos nas disciplinas de Agricultura nos levaram à conclusão ser indispensável o conhecimento botânico de forrageiras desde os primeiros estados de desenvolvimento, enquanto ainda possuem cotilédones (planta jovem) – plântula.A obra agora apresentada é o resultado de um estudo iniciado em2003, em que se tem vindo a fotografar e descrever, desde então, algumas espécies de Medicago L., Melilotus Mill. e Trifolium L consideradas mais relevantes em Portugal como forrageiras.Foi adoptada a nomenclatura científica da Flora Ibérica (Castroviejo et al., 2000) e para os nomes vulgares adoptámos os divulgados por Rocha (1996).Na metodologia seguida, no que concerne ao estudo de cada espécie, menciona-se: a origem geográfica, a distribuição em Portugal, o habitat e referências ecológicas mais relevantes.Em cada descrição da plântula mencionam-se os caracteres morfológicos dos cotilédones, primeira, segunda e por vezes a terceira e as seguintes folhas. Sempre que a observação o permitiu, foram descritos: o hipocótilo, os cotilédones, o epicótilo e as folhas verdadeiras. Para os cotilédones e folhas verdadeiras seguiu-se geralmente a seguinte ordem: inserção (só para folhas verdadeiras), dimensões, forma geral, margem, ápice, base, textura, cor, indumento, superfície e nervação.Para as plantas adultas mencionam-se o tipo fisionómico de acordo com a classificação de Raunkjaer (1934) e a descrição morfológica do caule, folhas, inflorescências, flores, frutos e sementes bem como o início e final da floração.Para algumas espécies descreve-se também o seu valor económico, refere-se a sua importância no controlo da erosão do solo e o seu interesse como potencial fonte genética em programas de melhoramento de pastagens, como leguminosas proporcionam um enriquecimento do solo em azoto e fornecem elevada concentração de proteína à forragem.Actualmente, com a crescente importância da manutenção da biodiversidade, são fundamentais estudos botânicos que permitam a conservação e cultura de prados e pastagens para o incremento da produção forrageira.
Em 1990, Portugal enviou para a “FAO International”o relatório nacional das espécies da flora portuguesa potencialmente importantes, entre as quais foram mencionadas algumas forrageiras.Como aparece agora este trabalho, considerado como Manual Universitário a ser adoptado em Instituições Universitárias Agronómicas, Veterinárias e por Técnicos Agrícolas?Em 1995, foi apresentada uma tese de doutoramento sobre o tema: “Pastagens da Região de Setúbal” (Sousa, 1995), em que foram efectuados 422 levantamentos florísticos o que permitiu às autoras a selecção das espécies a serem estudadas nesta obra.Em 2001, foi publicado a 3ª edição de um livro (Caixinhas et al., 2001) em que foram divulgadas 200 espécies de plântulas de espécies adventícias das culturas. Entre estas foram incluídas 28 espécies de Leguminosas consideradas também como forrageiras.As cerca de 70 espécies agora apresentadas tidas como forrageiras importantes são estudadas desde a sua emergência após germinação até à formação da vagem com sementes.Pela experiência que temos desde há quatro décadas no Instituto Superior de Agronomia, baseada em respostas a consultas efectuadas por alunos de Agronomia ou Veterinária e por Técnicos destas áreas, sobre a identificação de espécies forrageiras, justifica-se que o seu conhecimento é tanto mais útil quanto mais jovens elas são; daí o interesse da sua identificação no estado de plântula. Também as aulas em que colaborámos nas disciplinas de Agricultura nos levaram à conclusão ser indispensável o conhecimento botânico de forrageiras desde os primeiros estados de desenvolvimento, enquanto ainda possuem cotilédones (planta jovem) – plântula.A obra agora apresentada é o resultado de um estudo iniciado em2003, em que se tem vindo a fotografar e descrever, desde então, algumas espécies de Medicago L., Melilotus Mill. e Trifolium L consideradas mais relevantes em Portugal como forrageiras.Foi adoptada a nomenclatura científica da Flora Ibérica (Castroviejo et al., 2000) e para os nomes vulgares adoptámos os divulgados por Rocha (1996).Na metodologia seguida, no que concerne ao estudo de cada espécie, menciona-se: a origem geográfica, a distribuição em Portugal, o habitat e referências ecológicas mais relevantes.Em cada descrição da plântula mencionam-se os caracteres morfológicos dos cotilédones, primeira, segunda e por vezes a terceira e as seguintes folhas. Sempre que a observação o permitiu, foram descritos: o hipocótilo, os cotilédones, o epicótilo e as folhas verdadeiras. Para os cotilédones e folhas verdadeiras seguiu-se geralmente a seguinte ordem: inserção (só para folhas verdadeiras), dimensões, forma geral, margem, ápice, base, textura, cor, indumento, superfície e nervação.Para as plantas adultas mencionam-se o tipo fisionómico de acordo com a classificação de Raunkjaer (1934) e a descrição morfológica do caule, folhas, inflorescências, flores, frutos e sementes bem como o início e final da floração.Para algumas espécies descreve-se também o seu valor económico, refere-se a sua importância no controlo da erosão do solo e o seu interesse como potencial fonte genética em programas de melhoramento de pastagens, como leguminosas proporcionam um enriquecimento do solo em azoto e fornecem elevada concentração de proteína à forragem.Actualmente, com a crescente importância da manutenção da biodiversidade, são fundamentais estudos botânicos que permitam a conservação e cultura de prados e pastagens para o incremento da produção forrageira.
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domingo, 27 de maio de 2012
Mulches de ferro
Haja água e calor e qualquer solo, pobre ou fértil, é rapidamente colonizado por plantas. Nas fitocenoses naturais e semi-naturais, a morte das plantas anuais e a folhada mantêm uma cobertura orgânica, quase contínua, do solo. Grandes extensões de solo nú (n.b. a rocha nua não é solo), que não resultem da acção directa do homem, são raras nas nossas latitudes.
Nos sistemas de agricultura industriais, pelo contrário, mantém-se o solo nu para reduzir o efeito da competição das ervas-daninhas, e, assim, disponibilizar espaço e concentrar a água, nutrientes e luz nas plantas cultivadas.
Cobrir o solo com resíduos vegetais, embora rara, era uma técnica praticada nos sistemas de agricultura tradicionais. Onde vivo, no NE de Portugal, cobriam-se com palha os alhos no final do Outono, ou as entrelinhas da batateira Primavera adentro, por exemplo. E não deixam de ser um tipo de mulch, os blocos de xisto que recobrem os solo das vinhas do Douro.
O mulch reduz-se as perdas de água por evaporação, elimina o efeito de splash (o poder de desagregação das partículas do solo) das gotas da chuva, ou da rega por aspersão, e o poder erosivo do escorrimento superficial da água das chuvas. Protegido o solo, a água da rega compacta menos, deprimem-se as infestantes, e as minhocas e outros organismos benéficos trabalham mais próximo da superfície do solo. Os mulches orgânicos, têm um efeito benéfico nos teores de matéria orgânica do solo.
O mulch reduz-se as perdas de água por evaporação, elimina o efeito de splash (o poder de desagregação das partículas do solo) das gotas da chuva, ou da rega por aspersão, e o poder erosivo do escorrimento superficial da água das chuvas. Protegido o solo, a água da rega compacta menos, deprimem-se as infestantes, e as minhocas e outros organismos benéficos trabalham mais próximo da superfície do solo. Os mulches orgânicos, têm um efeito benéfico nos teores de matéria orgânica do solo.
Muitas vantagens, uma grande desvantagem: o custo.
Na falda sul da Serra de Reboredo, Moncorvo, encontrei um extraordinário tipo de mulch, algo que nunca antes tinha visto: vinhas, olivais e amendoais cobertos por uma densa, espessa e contínua camada de calhaus de hematite, sem nesga de solo à vista. Extraordinário.
Não estou seguro como se formou este manto de hematite, não sou geólogo. Vou arriscar, aqui vai uma hipótese. Durante milhões de anos, resvalaram, de lá de cima, dos afloramentos de ferro do topo da Serra do Reboredo, blocos de hematite, entretanto esborcelados e polidos pelo atrito e pela meteorização química. O arado e a charrua puxaram-nos à superfície. A eliminação da vegetação pelo fogo, roça e mobilização amplificou o arrastamento das partículas finas do solo, por erosão laminar, da camada superficial do solo. Os óxidos de ferro produzidos pela meteorização química facilitaram o processo, porque rapidamente se desagregam e suspendem na água da chuva.
Poucas plantas conseguem sobreviver neste pavimento de pedras roladas, esbraseante nos dias de forte radiação solar, que se expande, contrai, move, com o calor e o frio.
Poucas plantas conseguem sobreviver neste pavimento de pedras roladas, esbraseante nos dias de forte radiação solar, que se expande, contrai, move, com o calor e o frio.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Os garranos e a biodiversidade
Garranos a pastar no planalto da serra de Arga (foto: João Gomes)
O pastoreio de equídeos (garranos) no Norte de Portugal é resultado da nova política europeia de apoio às raças autóctones. Apesar de tudo não é algo novo, pois no século XIX eram milhares os animais que circulavam nas serras nortenhas. O seu número era mais controlado pelas populações humanas que iam periodicamente recolher os potros, do que pelo lobo, o predador típico destes animais. Os garranos pastavam livremente na serra durante o Inverno, sendo depois condicionados para as áreas marginais durante a primavera, quando os prados húmidos de maior qualidade eram necessários para o gado bovino. Ora os cavalos e as vacas pastam de maneira diferente, introduzindo oportunidades para espécies com diferentes características funcionais. Os cavalos comem essencialmente gramíneas fibrosas, evitando dicotiledóneas com grande presença de metabólitos secundários. Conseguem comer rente ao solo devido à sua dupla dentição, arrancado mesmo algumas ervas mais fibrosas como Agrostis curtisii e Nardus stricta. As vacas não conseguem pastar vegetação muito curta porque precisam de puxar a vegetação com a língua para a poderem cortar com os dentes, sendo menos seletivas em relação às plantas que comem. Este duplo regime criou pastagens muito diversas, sendo muito importante para um habitat em particular, o cervunal. Os cervunais têm uma diversidade florística muito grande, sendo essa diversidade dependente do tipo de pastoreio. As ovelhas produzem cervunais pobres em espécies, dominados pelo cervum (Nardus stricta), espécie que evitam devido à sua baixa palatabilidade e reduzido conteúdo nutricional. Isso é notório tanto nos cervunais da Escócia como nos da serra da Estrela. Cavalos e vacas produzem cervunais ricos em espécies quando em regime misto, ou seja, pastados por equídeos no inverno e bovinos no verão. O grande problema é que neste momento os cavalos são largados no monte sem qualquer tipo de seguimento, sendo que o controle das crias em muitos casos só é feito para ver se há baixas causadas pelo lobo. No século XIX, o garrano era muito importante na economia agrícola e pastoril, sendo muito utilizado pelas populações. Neste momento, representa para muitos um importante recurso apenas em termos de subsídio. Os garranos pastam durante o ano todo nos cervunais, provocando alterações muito significativas nas gramíneas dominantes. Se a isto for adicionado alterações provocadas pela adição de fosfatos ao sistema, devido à escorrência de cinzas resultantes dos incêndios, o caso torna-se ainda mais complicado. Na serra de Arga, é possível nalguns locais contar os pés de cervum, a gramínea que supostamente devia dominar estas comunidades. A Quercus tem em mãos um projeto que visa recuperar este habitat que é claramente moldado pelas atividades humanas, e que será um caso de estudo muito interessante nos anos vindouros.
domingo, 2 de outubro de 2011
Glycine max (Fabaceae), a planta mais perigosa do mundo III
A evolução fez-nos heterotróficos e no que ao metabolismo das
proteínas e do azoto diz respeito, dependentes da ingestão
de proteínas de origem animal ou vegetal. A proteína foi sempre crítica na alimentação humana
pré-industrial. Não há muito tempo, conforme descrevem os higienistas
da primeira metade do séc. XX, a alimentação no Portugal rural baseava-se no pão, que chegava a suprir 90% das necessidades energéticas diárias. Fartura de carne só em dia de festa; no
dia-a-dia o homem do campo bastava-se com o sabor do osso que fervia dias a fio no
pote da sopa. Alguma leguminosa de horta mitigava a escassez crónica de
proteína.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades ... e os menús.
Hoje, a proteína é barata e a carne uma componente crescente da alimentação humana. A soja é a fonte mais barata de proteína. Se a procura de proteína animal aumenta a área cultivada de soja segue o mesmo padrão, na devida proporção.
Contrapondo a figura anterior (mais informação aqui) com a seguinte, constata-se que alguns dos espaços, à escala global, mais favoráveis ao cultivo da soja são áreas de elevada diversidade de plantas vasculares (e.g. SE dos EUA e Centro Oeste do Brasil). Mais importante ainda, muitos estes territórios possuem uma flora rica em plantas relíquia, com taxa supraespecíficos endémicos (e.g. Madagáscar ou Cerrado Brasileiro).
Investigadores da Universidade de S. Paulo provaram, nos anos 50 do séc. XX, a utilidade agrícola dos solos do Cerrado após a aplicação de fósforo e a correcção da acidez com calcário. Estava aberto o caminho para a colonização definitiva do Centro-Oeste brasileiro, idealizada por Getúlio Vargas e pela República Nova no final da década de 30.
A resolução da infertilidade natural dos solos do Cerrado foi o primeiro passo. A partir dos anos 60, apoiada por uma sistema eficiente de investigação agrária e uma política agressiva de subsídios, a agricultura da soja (e do milho) espalhou-se como uma mancha de óleo pelo Cerrado. O cultivo da soja no Brasil é a maior alteração da geografia agrícola global das últimas décadas.
No Cerrado onde não se cultiva soja ou milho faz-se pasto. A correcção das deficiências nutritivas dos solos do Cerrado facilita também as Brachiaria e outras gramíneas pratenses C4 de origem africana. A flora do Cerrado, que durante milhares de anos evoluiu num ambiente de escassez de fósforo, elevada acidez e toxicidade pelo alumínio, mingua de dia para dia, enquanto a agricultura e as exóticas pratenses, inexoravelmente, preenchem os solos melhorados pelo homem.
A expansão da soja a habitats de elevada diversidade biológica é o primeiro elemento de perigosidade da soja mas não é o mais importante. A dependência da agricultura da soja no fósforo é absoluta; o fósforo é finito e falta pouco tempo para sentirmos os efeitos da sua escassez (ver aqui). A economia do fósforo está condenada à extinção, provavelmente ainda antes da economia do petróleo.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades ... e os menús.
Hoje, a proteína é barata e a carne uma componente crescente da alimentação humana. A soja é a fonte mais barata de proteína. Se a procura de proteína animal aumenta a área cultivada de soja segue o mesmo padrão, na devida proporção.
Adequabilidade para o cultivo da soja a tecnologias intermédias
Contrapondo a figura anterior (mais informação aqui) com a seguinte, constata-se que alguns dos espaços, à escala global, mais favoráveis ao cultivo da soja são áreas de elevada diversidade de plantas vasculares (e.g. SE dos EUA e Centro Oeste do Brasil). Mais importante ainda, muitos estes territórios possuem uma flora rica em plantas relíquia, com taxa supraespecíficos endémicos (e.g. Madagáscar ou Cerrado Brasileiro).
Investigadores da Universidade de S. Paulo provaram, nos anos 50 do séc. XX, a utilidade agrícola dos solos do Cerrado após a aplicação de fósforo e a correcção da acidez com calcário. Estava aberto o caminho para a colonização definitiva do Centro-Oeste brasileiro, idealizada por Getúlio Vargas e pela República Nova no final da década de 30.
A resolução da infertilidade natural dos solos do Cerrado foi o primeiro passo. A partir dos anos 60, apoiada por uma sistema eficiente de investigação agrária e uma política agressiva de subsídios, a agricultura da soja (e do milho) espalhou-se como uma mancha de óleo pelo Cerrado. O cultivo da soja no Brasil é a maior alteração da geografia agrícola global das últimas décadas.
No Cerrado onde não se cultiva soja ou milho faz-se pasto. A correcção das deficiências nutritivas dos solos do Cerrado facilita também as Brachiaria e outras gramíneas pratenses C4 de origem africana. A flora do Cerrado, que durante milhares de anos evoluiu num ambiente de escassez de fósforo, elevada acidez e toxicidade pelo alumínio, mingua de dia para dia, enquanto a agricultura e as exóticas pratenses, inexoravelmente, preenchem os solos melhorados pelo homem.
A expansão da soja a habitats de elevada diversidade biológica é o primeiro elemento de perigosidade da soja mas não é o mais importante. A dependência da agricultura da soja no fósforo é absoluta; o fósforo é finito e falta pouco tempo para sentirmos os efeitos da sua escassez (ver aqui). A economia do fósforo está condenada à extinção, provavelmente ainda antes da economia do petróleo.
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quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Adubai com nitrato (de sódio) do Chile
Na sequência do excelente post de ontem, aproveitando a boleia, aqui fica um outro, bem mais modesto mas algo curioso. Excepcionalmente, trata-se de um post dedicado à Agricultura, uma actividade extremamente importante, como todos sabemos.
Desde há muito tempo que observávamos este interessante (e cada vez mais raro, infelizmente) cartaz de propaganda ou reclame antigo, composto por 49 azulejos (7 ao quadrado) - mas só agora nos aproximamos verdadeiramente do seu significado, graças à eloquente intervenção do amigo CA!
Deixamos aqui uma citação esclarecedora da colossal Wikipédia, a enciclopédia livre:
"O processo foi desenvolvido por Fritz Haber e Carl Bosch em 1909 e patenteado em 1910. Foi usado pela primeira vez, à escala industrial, na Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Para a produção de munição os alemães dependiam do nitrato de sódio importado do Chile, que era insuficiente e incerto."
Processo de Haber – Wikipédia, a enciclopédia livre
Como acompanhamento musical, fica hoje a belíssima "Sara", dos Fleetwood Mac:
Fleetwood Mac ~ Sara - YouTube
sexta-feira, 11 de março de 2011
Fertilidade da terra, Eça de Queirós e von Liebig (II)
O crescimento das plantas depende da disponibilidade de recursos.
Quem faz horta sabe que a falta de água e de fertilidade da terra, ou a sombra de um prédio vizinho se pagam com baixas produções. Se rareia a água, rega-se; se escasseia o azoto, estruma-se ou aduba-se a terra; se a sombra é muita, o melhor é mudar de horta. Reparem: a falta água não se resolve fertilizando a terra, bem pelo contrário: o adubo aumenta a pressão osmótica (quantidade de sais) da água do solo e só desajuda. Se a minha horta murcha, enquanto não abrir um furo de nada me vale gastar dinheiro na casa agrícola!
O dia-a-dia das 600 gerações de agricultores que povoaram a bacia do mediterrânico desde o final da última glaciação foi condicionada por estes, ou similares problemas.
von Liebig resumiu o efeito da escassez de nutrientes no solo na conhecida Lei do Mínimo. Observações simples pedem formulações teóricas tão simples como brilhantes. Escreve von Liebig: "o crescimento das plantas é limitadas pelo elemento, ou composto, que esteja presente em menor quantidade no solo". Portanto, se as necessidades em azoto das minhas batatas estão satisfeitas, a produtividade passará a estar limitada por outro nutriente, por exemplo pelo potássio.
Para explicar a Lei do Mínimo von Liebig serviu-se de uma fantástica metáfora (imagem sacada daqui) representada na imagem do lado. Parece que ainda sobrevive uma dorna semelhante à da figura no laboratório de von Liebig.
A Lei do Mínimo tem dois importantes corolários: 1) a produção é proporcional à quantidade do nutriente limitante disponível no solo para as plantas; 2) à medida que este nutriente for adicionado ao solo os rendimentos crescem cada vez mais lentamente (rendimentos decrescentes).
Quando a curva atinge um tecto outro nutriente passou a controlar a produtividade.
Estudei esta curva quando era estudante de agronomia há vinte e cinco anos atrás. O meu professor de química agrícola insistia, é claro, no lado direita da curva. Os rendimentos decrescentes e os consumos de luxo (consumo de nutrientes pelas plantas sem reflexos na produção) eram, e por enquanto ainda são, um problema sério para a agricultura industrial. Por outras palavras: a certa altura os ganhos de produção não pagam a adição de mais uma unidade de nutriente, e a nutrição das plantas representa uma fatia substancial das contas de cultura.
E o lado esquerdo da curva?
Se o Sr. Jacinto, o coveiro do "A Capital", soubesse interpretar gráficos, se tivesse estudado funções na escola, certamente concentraria a sua atenção no esquerdo da curva. O lado da abundância, quando a curva tende para um limite, ser-lhe-ia irrelevante. A derivada a convergir para o infinito,pelo contrário, perturbar-lhe-ia o sono. Aquele súbito mergulho da curva em direcção à origem representa uma das maiores condicionantes das tomadas de decisão, e da qualidade de vida dos agricultores orgânicos pré-industriais. Em momentos de escassez uma unidade de azoto, ou de qualquer outro nutriente limitante, valia uma vida. E essa unidade explica por que razão se reduziram a cinzas os bosques cobriam no início do Holocénico o território que é hoje Portugal, ou a dedicação de uma vida a recolher bostas de vaca pelas estradas das gândaras da região de Aveiro (vd. post anterior).
A dominância do Agrostis x fouilladei (Poaceae) ...
... ou das ericáceas nas serras graníticas do Norte e Centro de Portugal, por exemplo, conta a mesma história: é um testemunho de uma demanda milenar por aquela unidade milagrosa do nutriente limitante.
Erica umbellata (Ericaceae)
[continua]
Quem faz horta sabe que a falta de água e de fertilidade da terra, ou a sombra de um prédio vizinho se pagam com baixas produções. Se rareia a água, rega-se; se escasseia o azoto, estruma-se ou aduba-se a terra; se a sombra é muita, o melhor é mudar de horta. Reparem: a falta água não se resolve fertilizando a terra, bem pelo contrário: o adubo aumenta a pressão osmótica (quantidade de sais) da água do solo e só desajuda. Se a minha horta murcha, enquanto não abrir um furo de nada me vale gastar dinheiro na casa agrícola!
O dia-a-dia das 600 gerações de agricultores que povoaram a bacia do mediterrânico desde o final da última glaciação foi condicionada por estes, ou similares problemas.von Liebig resumiu o efeito da escassez de nutrientes no solo na conhecida Lei do Mínimo. Observações simples pedem formulações teóricas tão simples como brilhantes. Escreve von Liebig: "o crescimento das plantas é limitadas pelo elemento, ou composto, que esteja presente em menor quantidade no solo". Portanto, se as necessidades em azoto das minhas batatas estão satisfeitas, a produtividade passará a estar limitada por outro nutriente, por exemplo pelo potássio.
Para explicar a Lei do Mínimo von Liebig serviu-se de uma fantástica metáfora (imagem sacada daqui) representada na imagem do lado. Parece que ainda sobrevive uma dorna semelhante à da figura no laboratório de von Liebig.
A Lei do Mínimo tem dois importantes corolários: 1) a produção é proporcional à quantidade do nutriente limitante disponível no solo para as plantas; 2) à medida que este nutriente for adicionado ao solo os rendimentos crescem cada vez mais lentamente (rendimentos decrescentes).Quando a curva atinge um tecto outro nutriente passou a controlar a produtividade.
Estudei esta curva quando era estudante de agronomia há vinte e cinco anos atrás. O meu professor de química agrícola insistia, é claro, no lado direita da curva. Os rendimentos decrescentes e os consumos de luxo (consumo de nutrientes pelas plantas sem reflexos na produção) eram, e por enquanto ainda são, um problema sério para a agricultura industrial. Por outras palavras: a certa altura os ganhos de produção não pagam a adição de mais uma unidade de nutriente, e a nutrição das plantas representa uma fatia substancial das contas de cultura.
E o lado esquerdo da curva?
Se o Sr. Jacinto, o coveiro do "A Capital", soubesse interpretar gráficos, se tivesse estudado funções na escola, certamente concentraria a sua atenção no esquerdo da curva. O lado da abundância, quando a curva tende para um limite, ser-lhe-ia irrelevante. A derivada a convergir para o infinito,pelo contrário, perturbar-lhe-ia o sono. Aquele súbito mergulho da curva em direcção à origem representa uma das maiores condicionantes das tomadas de decisão, e da qualidade de vida dos agricultores orgânicos pré-industriais. Em momentos de escassez uma unidade de azoto, ou de qualquer outro nutriente limitante, valia uma vida. E essa unidade explica por que razão se reduziram a cinzas os bosques cobriam no início do Holocénico o território que é hoje Portugal, ou a dedicação de uma vida a recolher bostas de vaca pelas estradas das gândaras da região de Aveiro (vd. post anterior).
A dominância do Agrostis x fouilladei (Poaceae) ...
Erica umbellata (Ericaceae)
[continua]
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Fertilidade da terra, Eça de Queirós e von Liebig (I)
"...
O tio Jacinto contemplava, triste, o pé de roseira quebrado, rosnando:
— Corja! Quem!? Vão lá saber quem! Há-de ser a mesma cambada que me vinha roubar as batatas! Se eu pilho um!
— Então você plantava batatas no cemitério, homem?
— Então, porque não, Sr. Arturzinho? Mas lá o Sr. Alves, o da Câmara, começou a implicar. Disse que até era pecado. Pecado é tirar a um pobre o bocadinho do seu negócio. Ricas batatas; também lhe digo, não há terra de semeadura como isto. — E com um gesto largo indicava o cemitério: — É tudo o que V. Sª lhe plante. Está abarrotadinho de estrume!
..."
[A Capital, Eça de Queirós, 1925]
O Tio Jacinto sem perceber chavelho de química ou de pedologia sabia o que era preciso para repor a fertilidade da terra. Como todos os agricultores orgânicos seus contemporâneos tinha consciência que a fertilidade da terra dependia, em exclusivo, da incorporação no solo de matéria orgânica, viesse ela de cadáveres em decomposição, do enterramento de infestantes, dos resíduos das culturas, da nitreira ou da loja das vacas. O Tio Jacinto punha prática um dos princípios fundamentais de gestão da fertilidade da terra, formulado nos meados do séc. XIX, mais precisamente em 1848, o ano da comuna de Paris e do manifesto comunista, por Justus von Liebig: "[para manter a fertilidade da terra] tudo o que é extraído do solo tem que ser devolvido na sua totalidade».
Na agricultura pré-industrial a disponibilidade de nutrientes, sobretudo de azoto, era a maior limitação da produtividade agrícola. O herói do A Capital, o Arturzinho, e o coveiro Tio Jacinto vivem em Ovar. Para repor as perdas de azoto os ovarenses da altura dispunham de um extraordinário adubo: os moliços extraídos da ria de Aveiro. Como nos demais sistemas de agricultura orgânica, a gestão da fertilidade da terra do solo passava inevitavelmente pela reciclagem dos nutrientes, por exemplo pela compra de estrumes vendidos de porta em porta, por gente cuja profissão era recolher as bostas de vacas pelos caminhos rurais.
Passaram mais de cem anos desde que Eça de pena na mão desenhou personagens tão notáveis como Arturzinho, Gonçalinho ou Jacintinho, e discorreu como mais ninguém sobre a sociedade orgânica do Portugal do Séc. XIX.
Desconfio, porém, que sabia mais Eça de fertilidade da terra do que a larga maioria das gentes que hoje habita o país.
Não me surpreende.
Os nossos estudantes saem dos liceus a saber tudo sobre o ciclo de Krebs e demais parafernálias bioquímicas da modernidade, mas não fazem a menor ideia de que o solo e as plantas são reactores que obedecem às leias da química e da física que controlam uma reacção química simples num tubo de ensaio.
Se às plantas lhes faltam a comida e a luz param de crescer e senescem. E o seu destino, tal como o nosso, é mineralizarem-se no solo, num processo que os cientistas eufemisticamente apelidam de amonificação, e fecharem os ciclos de nutrientes. Foi neste novelo de ciclos de matéria e energia que se acomodou a agricultura, uns milhares de anos antes do Tio Jacinto.
O tio Jacinto contemplava, triste, o pé de roseira quebrado, rosnando:
— Corja! Quem!? Vão lá saber quem! Há-de ser a mesma cambada que me vinha roubar as batatas! Se eu pilho um!
— Então você plantava batatas no cemitério, homem?
— Então, porque não, Sr. Arturzinho? Mas lá o Sr. Alves, o da Câmara, começou a implicar. Disse que até era pecado. Pecado é tirar a um pobre o bocadinho do seu negócio. Ricas batatas; também lhe digo, não há terra de semeadura como isto. — E com um gesto largo indicava o cemitério: — É tudo o que V. Sª lhe plante. Está abarrotadinho de estrume!
..."
[A Capital, Eça de Queirós, 1925]
O Tio Jacinto sem perceber chavelho de química ou de pedologia sabia o que era preciso para repor a fertilidade da terra. Como todos os agricultores orgânicos seus contemporâneos tinha consciência que a fertilidade da terra dependia, em exclusivo, da incorporação no solo de matéria orgânica, viesse ela de cadáveres em decomposição, do enterramento de infestantes, dos resíduos das culturas, da nitreira ou da loja das vacas. O Tio Jacinto punha prática um dos princípios fundamentais de gestão da fertilidade da terra, formulado nos meados do séc. XIX, mais precisamente em 1848, o ano da comuna de Paris e do manifesto comunista, por Justus von Liebig: "[para manter a fertilidade da terra] tudo o que é extraído do solo tem que ser devolvido na sua totalidade».
Na agricultura pré-industrial a disponibilidade de nutrientes, sobretudo de azoto, era a maior limitação da produtividade agrícola. O herói do A Capital, o Arturzinho, e o coveiro Tio Jacinto vivem em Ovar. Para repor as perdas de azoto os ovarenses da altura dispunham de um extraordinário adubo: os moliços extraídos da ria de Aveiro. Como nos demais sistemas de agricultura orgânica, a gestão da fertilidade da terra do solo passava inevitavelmente pela reciclagem dos nutrientes, por exemplo pela compra de estrumes vendidos de porta em porta, por gente cuja profissão era recolher as bostas de vacas pelos caminhos rurais.
Passaram mais de cem anos desde que Eça de pena na mão desenhou personagens tão notáveis como Arturzinho, Gonçalinho ou Jacintinho, e discorreu como mais ninguém sobre a sociedade orgânica do Portugal do Séc. XIX.
Desconfio, porém, que sabia mais Eça de fertilidade da terra do que a larga maioria das gentes que hoje habita o país.
Não me surpreende.
Os nossos estudantes saem dos liceus a saber tudo sobre o ciclo de Krebs e demais parafernálias bioquímicas da modernidade, mas não fazem a menor ideia de que o solo e as plantas são reactores que obedecem às leias da química e da física que controlam uma reacção química simples num tubo de ensaio.
Se às plantas lhes faltam a comida e a luz param de crescer e senescem. E o seu destino, tal como o nosso, é mineralizarem-se no solo, num processo que os cientistas eufemisticamente apelidam de amonificação, e fecharem os ciclos de nutrientes. Foi neste novelo de ciclos de matéria e energia que se acomodou a agricultura, uns milhares de anos antes do Tio Jacinto.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Que árvore é esta? (III)
Genista florida (Fabaceae)
Como se constrói um montado de giestas?
Quatro etapas:
1) Suspensão da agricultura - a mobilização do solo elimina irremediavelmente as plantas herbáceas pratenses e os arbustos;
2) Reconstrução por sementeira ou por abandono do estrado arbustivo - a sementeira, por exemplo do Cytisus striatus, era uma prática comum no norte e centro de Portugal sendo a sementeira das giestas, muitas vezes, realizada em simultâneo com o cereal no último ano antes do pousio; as giestas instalavam-se então sob a protecção do cereal; durante a ceifa (à mão) havia o cuidado de não as danificar;
3) Desadensamento e condução dos arbustos;
4) Estabilização do coberto herbáceo pelo pastoreio.
Um dos últimos grandes agrónomo portugueses - o Engº Fernando Gusmão - contou-me há uns meses atrás, que no Barroso, antes da chegada dos adubos de síntese, se praticava uma rotação de 14 anos com giestas (C. striatus) nas terras mais pobres: 13 anos de giesta e 1 de cereal. Uma rotação semelhante de 7 anos foi-me explicada para a Terra-Quente transmontana.
Quem quiser aprofundar o papel das giestas nos sistemas de tradicionais de agricultura da montanha portuguesa tem que ler os artigos do Prof. George Estabrook (ver aqui).
Remato o post com uma ideia de investigação que pelos vistos nada tem de novo: o montado de giestas. A recuperação deste modelo não é despiciente se tomarmos em consideração as ameaças à segurança alimentar que pairam sobre globo, e que a síntese da amónia depende, em exclusivo, de energias fósseis. Depois até pode ser uma forma de ajudar a desenvolver no mediterrânico o conceito de "forest garden" proposto pelos permacultores.
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Que árvore é esta ? (II)
O meu último post continha uma pergunta descomprometida.
"Que estranha árvore é esta?"
A maior parte dos leitores que se deram ao trabalho de escrever um comentário identificaram correctamente a planta retratada na foto, ou andaram lá perto. Sim, trata-se de uma Genista florida, com porte arbóreo porque foi conduzida (podada) pelo homem, e ciclicamente debicada por ovelhas e pelas vacas.
O montado de giestas-piorneiras não é novidade, e o porquê da sua existência também não.
«Debajo de cada retama [Retama sphaerocarpa] se cría un borrego», dizem os castelhanos. O ilustre fitossociólogo, Prof. Salvador Rivas-Martínez, costuma servir-se deste ditado para explicar a importância das genísteas [leguminosas das tribo das Genisteae, i.e. das giestas] na gestão da fertilidade do solo no passado recente. As giestas são leguminosas e estabelecem um simbiose nas raízes com bactérias fixadoras de azoto. Por essa via, desempenhavam um papel fundamental na introdução deste elemento essencial à produtividade agrícola, nos sistemas orgânicos de agricultura. Por outro lado, as suas raízes mergulham no solo a profundidades superiores às das raízes das plantas herbáceas pratenses. Com o tempo, a bombagem activa de nutrientes para as camadas superficiais, e biologicamente mais activas do solo, acaba por criar uma ilha de fertilidade em redor das giestas. Para aproveitar estes elementos nutritivos em favor das plantas pratenses o agricultor necessita de desadensar o mato, de construir um montado. Uma elevada densidade de plantas arbustivas elimina as plantas herbáceas mais desejadas porque estas são estritamente heliófilas (exigentes em luz): a sombra e as ervas pratenses nunca combinaram.
(continua)
"Que estranha árvore é esta?"
A maior parte dos leitores que se deram ao trabalho de escrever um comentário identificaram correctamente a planta retratada na foto, ou andaram lá perto. Sim, trata-se de uma Genista florida, com porte arbóreo porque foi conduzida (podada) pelo homem, e ciclicamente debicada por ovelhas e pelas vacas.
O montado de giestas-piorneiras não é novidade, e o porquê da sua existência também não.
«Debajo de cada retama [Retama sphaerocarpa] se cría un borrego», dizem os castelhanos. O ilustre fitossociólogo, Prof. Salvador Rivas-Martínez, costuma servir-se deste ditado para explicar a importância das genísteas [leguminosas das tribo das Genisteae, i.e. das giestas] na gestão da fertilidade do solo no passado recente. As giestas são leguminosas e estabelecem um simbiose nas raízes com bactérias fixadoras de azoto. Por essa via, desempenhavam um papel fundamental na introdução deste elemento essencial à produtividade agrícola, nos sistemas orgânicos de agricultura. Por outro lado, as suas raízes mergulham no solo a profundidades superiores às das raízes das plantas herbáceas pratenses. Com o tempo, a bombagem activa de nutrientes para as camadas superficiais, e biologicamente mais activas do solo, acaba por criar uma ilha de fertilidade em redor das giestas. Para aproveitar estes elementos nutritivos em favor das plantas pratenses o agricultor necessita de desadensar o mato, de construir um montado. Uma elevada densidade de plantas arbustivas elimina as plantas herbáceas mais desejadas porque estas são estritamente heliófilas (exigentes em luz): a sombra e as ervas pratenses nunca combinaram.
(continua)
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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Bem-vindos à Gralheira
"...
Dois meses depois Amaro foi nomeado pároco de Feirão, na Gralheira, serra da Beira Alta. Esteve ali desde Outubro até o fim das neves.
Feirão é uma paróquia pobre de pastores e naquela época quase desabitada. Amaro passou o tempo muito ocioso, ruminando o seu tédio à lareira, ouvindo fora o Inverno bramir na serra. Pela Primavera vagaram nos distritos de Santarém e de Leiria paróquias populosas, com boas côngruas. Amaro escreveu logo à irmã contando a sua pobreza em Feirão; ela mandou-lhe, com recomendações de economia, doze moedas para ir a Lisboa requerer. Amaro partiu imediatamente. Os ares lavados e vivos da serra tinham-lhe fortificado o sangue; voltava robusto, direito, simpático, com uma boa cor na pele trigueira.
..."
[Eça de Queiroz, O Crime do Padre Amaro]
Ontem andei pelo Montemuro (Beira Alta).
Na aldeia da Gralheira, concelho de Cinfães, mesmo ao lado da Feirão do Padre Amaro, por lá continuavam os mesmos velhos de sempre, de cajado na mão e pele arrepanhada pelo frio, a gozar a volta do sol. Apressados, mas, suponho, com pouco que fazer, circulavam rostos femininos escondidos sob a capa burel, ataviados com a tradicional roupagem preta, mas de botas revestidas com pêlo por dentro, bem diferentes das socas de madeira de antigamente. À saída da aldeia um ou outro pastor vigiava com displicência pequenos rebanhos de arouquesas pachorrentas, a enfardelar com avidez os primeiros rebentos de final de Inverno. A ovelhas circulavam mais longe, para os lados da Lagoa de D. João, ou mais alto na serra, em redor das penedias graníticas.
Ao contrário do que seria esperar numa terra tão agreste e distante dos grandes centros, senti as gentes felizes, despreocupadas, bem. O contentamento circula por aquelas ruas de séculos maceradas pelo gelo e pelo vento. Este vento que penetra até aos ossos, a detestada ventania de Inverno é afinal a causa de uma súbita regeneração. A serra povoou-se de gigantescos moinhos de vento. Fantásticos geradores eólicos com pás de 40 m produzem electricidade dita renovável, e uma renda fixa que pinga em contínuo nos bolsos dos proprietários do monte que até há bem pouco tempo ninguém consegui a vender. Bem melhor do que o subsídio da CE ou o borrego de final de Outono! Com a nova indústria vieram mecânicos, electricistas, engenheiros e até turistas da grande cidade para quebrar a solidão do defeso invernal. Nunca faltam clientes no restaurante da aldeia, com prato do dia e onze empregados a tempo inteiro. Os migrantes de primeira e segunda geração recuperam palheiros e casas devolutas para gozar a reforma quantas vezes oferecidas ao virar os cinquenta. Alí ao lado, em Campo Bem-Feito, instalou-se um grupo profissional de Teatro. A Câmaras Municipais, com as rendas das eólicas, mantêm as estradas impecáveis. As carreiras de passageiros levam e trazem os garotos para os novos centros escolares com aquecimento central e cantina, professor de ginástica e de inglês.
Outro tempos aqueles a que Eça se refere no capítulo terceiro do "Crime do Padre Amaro"!


Parou de chover há três dias e os fogos despontaram, automaticamente, pela mão dos pastores, um pouco por toda a Serra. Melhor agora do que no pino de Verão. O solo está húmido e as plantas continuarão dormentes à espera dos calores de Primavera. Estes fogos frios e "ajardinados" são uma prática tão antiga como necessária. A palhuça seca de Agrostis x fouilladei, Molinia caerulea ou de Arrhenatherum elatius subsp. bubosum que por ora cobre a serra de pouco serve: é o pão seco e bafiento do animal. Os tapetes densos de Halimium ou as toiças envelhecidas de Ulex minor «tojo-molar» atrapalham a circulação dos animais e retiram espaço à forragem. Uma pequena carqueja aqui, um pequeno giestal acolá, tudo somado dá muito fogo que não entra nas estatísticas, que escapa à atenção de jornalistas e analistas, mas que regenera o pasto e dá de comer aos rebanhos. Nas áreas queimadas, a partir da Primavera os rebentos túrgidos de proteína do Ulex minor podem ser pastados com proveito e compensar a fibra bruta das gramíneas do monte. Um fabuloso endemismo regional, a Armeria beirana, também é beneficiado pelas "limpezas" de Inverno de potenciais competidoras. Os bosquetes de carvalho-negral (Quercus pyrenaica) suprimem o fogo e lucram com a eliminação dos arbustos de Erica arborea que lhe consomem a luz. Se é certo que o fogo pode atrasar a regeneração do bosque também é verdade que a não impede. Cada vez que vou ao Montemuro vejo mais árvores.
Os fogos violentos de Verão, esses sim, são indesejáveis e um produto da modernidade.
Dois meses depois Amaro foi nomeado pároco de Feirão, na Gralheira, serra da Beira Alta. Esteve ali desde Outubro até o fim das neves.
Feirão é uma paróquia pobre de pastores e naquela época quase desabitada. Amaro passou o tempo muito ocioso, ruminando o seu tédio à lareira, ouvindo fora o Inverno bramir na serra. Pela Primavera vagaram nos distritos de Santarém e de Leiria paróquias populosas, com boas côngruas. Amaro escreveu logo à irmã contando a sua pobreza em Feirão; ela mandou-lhe, com recomendações de economia, doze moedas para ir a Lisboa requerer. Amaro partiu imediatamente. Os ares lavados e vivos da serra tinham-lhe fortificado o sangue; voltava robusto, direito, simpático, com uma boa cor na pele trigueira.
..."
[Eça de Queiroz, O Crime do Padre Amaro]
Ontem andei pelo Montemuro (Beira Alta).
Na aldeia da Gralheira, concelho de Cinfães, mesmo ao lado da Feirão do Padre Amaro, por lá continuavam os mesmos velhos de sempre, de cajado na mão e pele arrepanhada pelo frio, a gozar a volta do sol. Apressados, mas, suponho, com pouco que fazer, circulavam rostos femininos escondidos sob a capa burel, ataviados com a tradicional roupagem preta, mas de botas revestidas com pêlo por dentro, bem diferentes das socas de madeira de antigamente. À saída da aldeia um ou outro pastor vigiava com displicência pequenos rebanhos de arouquesas pachorrentas, a enfardelar com avidez os primeiros rebentos de final de Inverno. A ovelhas circulavam mais longe, para os lados da Lagoa de D. João, ou mais alto na serra, em redor das penedias graníticas.
Ao contrário do que seria esperar numa terra tão agreste e distante dos grandes centros, senti as gentes felizes, despreocupadas, bem. O contentamento circula por aquelas ruas de séculos maceradas pelo gelo e pelo vento. Este vento que penetra até aos ossos, a detestada ventania de Inverno é afinal a causa de uma súbita regeneração. A serra povoou-se de gigantescos moinhos de vento. Fantásticos geradores eólicos com pás de 40 m produzem electricidade dita renovável, e uma renda fixa que pinga em contínuo nos bolsos dos proprietários do monte que até há bem pouco tempo ninguém consegui a vender. Bem melhor do que o subsídio da CE ou o borrego de final de Outono! Com a nova indústria vieram mecânicos, electricistas, engenheiros e até turistas da grande cidade para quebrar a solidão do defeso invernal. Nunca faltam clientes no restaurante da aldeia, com prato do dia e onze empregados a tempo inteiro. Os migrantes de primeira e segunda geração recuperam palheiros e casas devolutas para gozar a reforma quantas vezes oferecidas ao virar os cinquenta. Alí ao lado, em Campo Bem-Feito, instalou-se um grupo profissional de Teatro. A Câmaras Municipais, com as rendas das eólicas, mantêm as estradas impecáveis. As carreiras de passageiros levam e trazem os garotos para os novos centros escolares com aquecimento central e cantina, professor de ginástica e de inglês.
Outro tempos aqueles a que Eça se refere no capítulo terceiro do "Crime do Padre Amaro"!


Parou de chover há três dias e os fogos despontaram, automaticamente, pela mão dos pastores, um pouco por toda a Serra. Melhor agora do que no pino de Verão. O solo está húmido e as plantas continuarão dormentes à espera dos calores de Primavera. Estes fogos frios e "ajardinados" são uma prática tão antiga como necessária. A palhuça seca de Agrostis x fouilladei, Molinia caerulea ou de Arrhenatherum elatius subsp. bubosum que por ora cobre a serra de pouco serve: é o pão seco e bafiento do animal. Os tapetes densos de Halimium ou as toiças envelhecidas de Ulex minor «tojo-molar» atrapalham a circulação dos animais e retiram espaço à forragem. Uma pequena carqueja aqui, um pequeno giestal acolá, tudo somado dá muito fogo que não entra nas estatísticas, que escapa à atenção de jornalistas e analistas, mas que regenera o pasto e dá de comer aos rebanhos. Nas áreas queimadas, a partir da Primavera os rebentos túrgidos de proteína do Ulex minor podem ser pastados com proveito e compensar a fibra bruta das gramíneas do monte. Um fabuloso endemismo regional, a Armeria beirana, também é beneficiado pelas "limpezas" de Inverno de potenciais competidoras. Os bosquetes de carvalho-negral (Quercus pyrenaica) suprimem o fogo e lucram com a eliminação dos arbustos de Erica arborea que lhe consomem a luz. Se é certo que o fogo pode atrasar a regeneração do bosque também é verdade que a não impede. Cada vez que vou ao Montemuro vejo mais árvores.Os fogos violentos de Verão, esses sim, são indesejáveis e um produto da modernidade.
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Stress ou perturbação
domingo, 5 de dezembro de 2010
A neve e o frio, e as vacas, as ovelhas e as cabras
Estas fotos vêm da Serra de Montemuro, tiradas na semana que passou pelo meu amigo Tiago Henriques.
Semanas a fio de frio e neve eram frequentes há poucas décadas a trás. O isolamento pouco significava para as gentes da montanha, porque isolados eram por natureza os povoados do interior norte e centro de Portugal. Difícil sim era sustentar o gado com o monte coberto de neve. Uma vaca consome ca. de 15 kg de matéria seca por dia e uma ovelha ou uma cabra cerca de 1/6 deste valor. E a falta de alimento tem um enorme impacto na saúde e na performance produtiva dos herbívoros domésticos. O feno cuidadosamente armazenado em Julho/Agosto era a solução mais fácil para obviar a escassez alimentar. As folhas dos ramos de carrasco [nome dado à azinheira, Quercus rotundifolia, no NE de Portugal] amontoados debaixo do sobrado eram outra. Muitas vezes não havia alternativa a sair com as vacas para o cucuruto do monte limpo da neve pelo vento, armado de galochas de cano alto, capa de burel pelas costas e um balde sal grosso pendurado no braço. Em tempos ainda mais recuados calçavam-se socas de amieiro e vestia-se a croça [capa de palha]. Para aumentar a palatibilidade e a ingestão pelos animais aspergiam-se com sal os ramos das carquejas (Pterospartum tridentatum subsp. pl.) e as folhas dos carrascos, duas espécies com algum valor alimentar, particularmente resistentes aos efeitos do vento frio e da geada.
Bem mais fácil é escrever posts com os pés no quente, e o vento frio e a neve contidos do lado de fora da janela hermética de PVC.
Semanas a fio de frio e neve eram frequentes há poucas décadas a trás. O isolamento pouco significava para as gentes da montanha, porque isolados eram por natureza os povoados do interior norte e centro de Portugal. Difícil sim era sustentar o gado com o monte coberto de neve. Uma vaca consome ca. de 15 kg de matéria seca por dia e uma ovelha ou uma cabra cerca de 1/6 deste valor. E a falta de alimento tem um enorme impacto na saúde e na performance produtiva dos herbívoros domésticos. O feno cuidadosamente armazenado em Julho/Agosto era a solução mais fácil para obviar a escassez alimentar. As folhas dos ramos de carrasco [nome dado à azinheira, Quercus rotundifolia, no NE de Portugal] amontoados debaixo do sobrado eram outra. Muitas vezes não havia alternativa a sair com as vacas para o cucuruto do monte limpo da neve pelo vento, armado de galochas de cano alto, capa de burel pelas costas e um balde sal grosso pendurado no braço. Em tempos ainda mais recuados calçavam-se socas de amieiro e vestia-se a croça [capa de palha]. Para aumentar a palatibilidade e a ingestão pelos animais aspergiam-se com sal os ramos das carquejas (Pterospartum tridentatum subsp. pl.) e as folhas dos carrascos, duas espécies com algum valor alimentar, particularmente resistentes aos efeitos do vento frio e da geada.
Bem mais fácil é escrever posts com os pés no quente, e o vento frio e a neve contidos do lado de fora da janela hermética de PVC.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Sinapis arvensis (Brassicaceae)
No passado mês de Junho, num leito de cheias cascalhento de um pequeno rio transmontano, longe de tudo e de todos, herborizei esta planta:
«A linha de água está pouco perturbada e as encostas sobranceiras revestidas por abundantes azinhais climácicos. A planta deve ser rara!», pensei então. Entusiasmado, corri para o herbário; segui as chaves das Floras e observei ao pormenor os meus exemplares herbário de brassicáceas com frutos compridos (silíquas). O resultado era sempre o mesmo. «Não pode ser! O sítio é perfeito para plantas invulgares!». Recusei-me a aceitar. Enviei uma foto a um amigo botânico; o veredicto foi rápido e claro: Sinapis arvensis, a mais do que frequente mostarda-dos-campos. Que desilusão! Não tinha, afinal, encontrado uma espécie nova para Trás-os-Montes, e muito menos para Portugal.
Este relato pequenino pouco interesse tem; não chega sequer para um blogue descomprometido de divulgação botânica. Porém estimula a imaginação, oferece uma razão para recuperar, ainda brevemente, uma das especulações preferidas da comunidade fitossociológica: na paisagem pristina, há mais de 5000 anos, qual era o habitat das espécies que hoje preenchem os nossos campos e matos? Por outras palavras: Onde estavas tu, planta daninha, arbusto enfadonho, antes do Neolítico?
Estas dúvidas não têm uma resposta simples e objectiva. Vai-se especulando, vai-se cambiando de ideias com novas observações, com pequenas epifanias. Cada planta é um caso, e um caso por natureza insolúvel.
De qualquer modo, a dita Sinapis arvensis (Brassicaceae), o Pinus pinaster (Pinaceae) «pinheiro-bravo» e o Cistus ladanifer (Cistaceae) «esteva» numa escapa, a Erica australis (Ericaceae) «urze-vermelha» encavalitada numa crista quartzítica, a Spergula arvensis (Caryophyllaceae) que germina às primeiras chuvas num mato recentemente ardido ou o Cynodon dactylon (Poaceae) «grama» a perfurar um exíguo mouchão de areias acumulado nas margens de um rio de montanha, estas e muitas outras plantas, fazem-me suspeitar da sua raridade, ou, pelo menos, infrequência nas paisagens pristinas.
O Neolítico, a agricultura, alterou a ordem das coisas: o que era raro volveu abundante e o comum incomum. Com muitas excepções, suponho.
A conservação da natureza, como muito bem dava a entender o Luís Moreira num comentário a este post, está impregnada pelos modelos de paisagem das sociedades orgânicas tradicionais, que sobreviviam, mal, muito mal, a malhar nos ecossistemas naturais, numa luta diária para recuperar ou colher o átomo de azoto e de fósforo e com ele fazer a seara e a horta, e compensar à justa a enorme despesa energética dos corpos retorcidos pela enxada e pela gadanha.
Este referencial em cima do qual raciocinamos a conservação da natureza, no fundo, esta ideologia, não parece lá muito lógica.
«A linha de água está pouco perturbada e as encostas sobranceiras revestidas por abundantes azinhais climácicos. A planta deve ser rara!», pensei então. Entusiasmado, corri para o herbário; segui as chaves das Floras e observei ao pormenor os meus exemplares herbário de brassicáceas com frutos compridos (silíquas). O resultado era sempre o mesmo. «Não pode ser! O sítio é perfeito para plantas invulgares!». Recusei-me a aceitar. Enviei uma foto a um amigo botânico; o veredicto foi rápido e claro: Sinapis arvensis, a mais do que frequente mostarda-dos-campos. Que desilusão! Não tinha, afinal, encontrado uma espécie nova para Trás-os-Montes, e muito menos para Portugal.
Este relato pequenino pouco interesse tem; não chega sequer para um blogue descomprometido de divulgação botânica. Porém estimula a imaginação, oferece uma razão para recuperar, ainda brevemente, uma das especulações preferidas da comunidade fitossociológica: na paisagem pristina, há mais de 5000 anos, qual era o habitat das espécies que hoje preenchem os nossos campos e matos? Por outras palavras: Onde estavas tu, planta daninha, arbusto enfadonho, antes do Neolítico?
Estas dúvidas não têm uma resposta simples e objectiva. Vai-se especulando, vai-se cambiando de ideias com novas observações, com pequenas epifanias. Cada planta é um caso, e um caso por natureza insolúvel.
De qualquer modo, a dita Sinapis arvensis (Brassicaceae), o Pinus pinaster (Pinaceae) «pinheiro-bravo» e o Cistus ladanifer (Cistaceae) «esteva» numa escapa, a Erica australis (Ericaceae) «urze-vermelha» encavalitada numa crista quartzítica, a Spergula arvensis (Caryophyllaceae) que germina às primeiras chuvas num mato recentemente ardido ou o Cynodon dactylon (Poaceae) «grama» a perfurar um exíguo mouchão de areias acumulado nas margens de um rio de montanha, estas e muitas outras plantas, fazem-me suspeitar da sua raridade, ou, pelo menos, infrequência nas paisagens pristinas.
O Neolítico, a agricultura, alterou a ordem das coisas: o que era raro volveu abundante e o comum incomum. Com muitas excepções, suponho.
A conservação da natureza, como muito bem dava a entender o Luís Moreira num comentário a este post, está impregnada pelos modelos de paisagem das sociedades orgânicas tradicionais, que sobreviviam, mal, muito mal, a malhar nos ecossistemas naturais, numa luta diária para recuperar ou colher o átomo de azoto e de fósforo e com ele fazer a seara e a horta, e compensar à justa a enorme despesa energética dos corpos retorcidos pela enxada e pela gadanha.
Este referencial em cima do qual raciocinamos a conservação da natureza, no fundo, esta ideologia, não parece lá muito lógica.
sábado, 20 de novembro de 2010
Cereal-pousio: erosão com o apoio da UE
Imagens como esta continuam a ser frequentes em Trás-os-Montes e em todo o sequeiro mediterrânico português:
Mesmo em declives suaves, qualquer que seja o número, a época ou o sentido das mobilizações, a rotação cereal-pousio herdada da Roma clássica origina enormes perdas de solo por erosão (para entender o porquê proponho a leitura do capítulo IV deste livro):
A terra acaba por se esvair. Sobra um solo de palmo, com a mesma profundidade a que se desloca a relha da charrua:
A rotação cereal-pousio é apoiada financeiramente pela UE porque - é senso comum - terá um papel essencial na conservação de uma certa biodiversidade animal. Faz sentido trocar um recurso não renovável - o solo - por um hipotético efeito benéfico em espécies cuja área de ocupação actual é um produto da perturbação antrópica holocénica? Para mim não faz, e duvido que as gerações futuras agradeçam tamanho empenho. A rotação cereal-pousio é anacrónica.
Preparação do solo - para trigo, talvez - no sentido do maior declive
Mesmo em declives suaves, qualquer que seja o número, a época ou o sentido das mobilizações, a rotação cereal-pousio herdada da Roma clássica origina enormes perdas de solo por erosão (para entender o porquê proponho a leitura do capítulo IV deste livro):
Seara de centeio [PNM, Carragosa, Outubro de 2010]
A terra acaba por se esvair. Sobra um solo de palmo, com a mesma profundidade a que se desloca a relha da charrua:
Restolho de Trigo [Concelho de Macedo de Cavaleiros]
A rotação cereal-pousio é apoiada financeiramente pela UE porque - é senso comum - terá um papel essencial na conservação de uma certa biodiversidade animal. Faz sentido trocar um recurso não renovável - o solo - por um hipotético efeito benéfico em espécies cuja área de ocupação actual é um produto da perturbação antrópica holocénica? Para mim não faz, e duvido que as gerações futuras agradeçam tamanho empenho. A rotação cereal-pousio é anacrónica.
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segunda-feira, 1 de novembro de 2010
O castanheiro e a castanha, outra vez
Duas semanas de geada e secura retiveram a castanha nos ouriços, e os ouriços nas árvores. Alguns agricultores, preparavam-se já para pulverizar a copa dos castanheiros com água, a fim de promover uma queda uniforme dos ouriços e a expulsão da castanha. Dois homem, um tractor, uma cisterna a reboque e uma pistola de pulverização, ou um homem e um tractor com um atomizador acoplado aos três pontos são suficientes para a operação.
Felizmente nos últimos três dias choveu com abundância.
Hoje está um belíssimo dia de sol. A castanha cai em força. Nos soutos a azáfama é grande: gente amarrada ao chão apanha castanha para sacas de adubo ou de batata-semente, drenadas para os armazéns da cidade em carrinhas de caixa aberta.
No passado recente ninguém se atreveria a trabalhar no Dia de Todos os Santos. Os tempos são outros!
Alguns números que certamente alguns dos leitores deste blog gostarão de saber:
As fotos de plantas endémicas disponíveis na net são melhores e mais variadas do que de muitas plantas agrícolas. É mais fácil conseguir listas de plantas do que descrições satisfatórias de sistemas de agricultura. Há mais informação etnobotânica publicada do que etnoagrícola. As práticas festivas tradicionais das sociedades camponesas estão descritas com mais pormenor na bibliografia do que o dia a dia agrícola e pastoril.
Este enviesamento é impróprio e reflecte o crescente afastamento das economias e das sociedades modernas das suas bases produtivas. E a agricultura é tão ou mais interessante do que a botânica!
Felizmente nos últimos três dias choveu com abundância.
Hoje está um belíssimo dia de sol. A castanha cai em força. Nos soutos a azáfama é grande: gente amarrada ao chão apanha castanha para sacas de adubo ou de batata-semente, drenadas para os armazéns da cidade em carrinhas de caixa aberta.
No passado recente ninguém se atreveria a trabalhar no Dia de Todos os Santos. Os tempos são outros!
A) Ouriço aberto depois da castanha tombar ao solo; n.b. as quatro valvas características dos ouriços de Castanea e as três cicatrizes deixadas por cada uma das castanhas. B) Ouriços acabados de abrir em consequência das chuvas de ontem (mais informação sobre a morfologia floral do castanheiro aqui e aqui).
Alguns números que certamente alguns dos leitores deste blog gostarão de saber:
- Um castanheiro dos grandes produz mais de 200 kg de castanha;
- Um bom souto de castanhas pode produzir 15 T/ha de castanha;
- Um homem pode colher 200 kg/dia, mas à jorna raramente ultrapassa os 150-180 kg/dia;
- Uma saca de adubo com castanha pesa cerca de 40 kg;
- Este ano a castanha está a ser paga entre 1 a 1,5 euros/kg; as variedades de castanha grande e precoce (e.g. 'Judia') são as mais bem pagas;
- A jorna está a 45-50 euros;
- A colheita da castanha custa, em média, 0,3 euros/kg; os grageios e o transporte oneram com mais 0,2 euros/kg o preço da castanha.
As fotos de plantas endémicas disponíveis na net são melhores e mais variadas do que de muitas plantas agrícolas. É mais fácil conseguir listas de plantas do que descrições satisfatórias de sistemas de agricultura. Há mais informação etnobotânica publicada do que etnoagrícola. As práticas festivas tradicionais das sociedades camponesas estão descritas com mais pormenor na bibliografia do que o dia a dia agrícola e pastoril.
Este enviesamento é impróprio e reflecte o crescente afastamento das economias e das sociedades modernas das suas bases produtivas. E a agricultura é tão ou mais interessante do que a botânica!
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quarta-feira, 30 de junho de 2010
Sobre a ecologia dos Trifolia «trevos» (Fabaceae) anuais
2010 é o ano de todos os trevos. O ano correu-lhes de feição. As chuvas persistentes e o frio deprimiram as gramíneas - os seus mais sérios competidores - no final do Inverno-início de Primavera. O tempo aqueceu em Maio, com muita água no solo, e as plantas do género Trifolium cresceram de forma nunca vista.
Este ano, não só a biomassa de Trifolia é imensa, como parecem ser mais fáceis de encontrar as espécies menos frequentes do género, e.g. T. bocconei, T. ligusticum, T. phleoides e T. leucanthum.
Este ano, não só a biomassa de Trifolia é imensa, como parecem ser mais fáceis de encontrar as espécies menos frequentes do género, e.g. T. bocconei, T. ligusticum, T. phleoides e T. leucanthum.
Trifolium ligusticum [fotos cedidas por Miguel Sequeira; fantásticas, não são?]. Este trevo caracteriza-se pela presença de pêlos na página superior das folhas, de pêlos erectos (em pé) nos caules, e de inflorescências sésseis (sem pedúnculo, apoiadas nas folhas)
A maioria dos Trifolia indígenas de Portugal - é pouco provável que este género ocorresse nos arquipélagos atlânticos antes da chegada dos europeus - mostra uma marcada preferência por margens de caminhos ou solos húmidos vizinhos de cursos de água. As clareiras de matos e bosques, abertas pelo fogo ou pelos animais, são também um importante habitat primário de muitas espécies deste género. Suspeito que a biomassa de Trifolia seja hoje muito superior à de há 100 anos atrás. Um século de uso de superfosfatos e de redistribuição do fósforo pelos excrementos animais e humanos certamente expandiu os nichos ecológicos das leguminosas.
Em média os Trifolia fixam cerca de 20 kg de azoto por tonelada de matéria seca. Um valor significativo se tivermos em consideração que 100 kg de azoto/ha é um valor referência da fertilização do trigo no mediterrânico, e que facilmente se atingem as 5 t de matéria seca/ha numa pastagem de trevo-subterrâneo. Por outro lado, o nichos ecológicos da grande maioria dos trevos anuais são razoavelmente ricos em nutrientes, entre os quais azoto. Parece então existir um contradição entre as exigências ecológicas dos Trifolia e a sua capacidade de aceder ao azoto atmosférico, fixado por bactérias que colonizam as suas raízes.
As "contradições", as "incongruências" na natureza merecem sempre uma reflexão.
Os nichos ecológicos dos Trifolia anuais são naturalmente ricos em azoto, certo; mas também em fósforo e em outros nutrientes concentrados pelos animais ou pela água. Sabe-se, por exemplo, que vários nutrientes são fundamentais para o funcionamento dos sistemas enzimáticos envolvidos na fixação do azoto atmosférico (e.g. molibdénio). Por outro lado, ao contrário do que muitas vezes é referido na bibliografia, o azoto pode ser favorável aos trevos no início do seu ciclo vegetativo (até ao final do Inverno) porque a simbiose com as bactérias fixadoras de azoto não é imediatamente funcional. Quer tudo isto dizer que os conceitos de planta nitrófila e subnitrófila têm que ser usados com muita cautela.
Estes pequenos pormenores de ecologia, na interface entre a botânica, a fisiologia e a agricultura são absolutamente fascinantes. Desculpem o desabafo: tão ou mais interessantes do que muitas das matérias que enchem, sem grande variação de ano para ano, os livros de ciências dos nossos liceus e escolas preparatórias..
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domingo, 2 de maio de 2010
Flora do lameiro do Poulão V: Alopecurus arundinaceus (Poaceae)
Interrompido o pastoreio, o lameiro do Poulão incha de erva. Quem manda nos lameiros em Maio e Junho são as gramíneas (= poáceas): os meristemas apicais destas plantas deixaram de produzir caule e folhas em Março, diferenciam agora flores; desde o início de Abril os entre-nós situados imediatamente abaixo da parte reprodutiva alongam-se aceleradamente pela acção de meristemas intercalares. As plantas prostradas produzem quanto antes sementes, preparando-se para serem submergidas por uma floresta de colmos (nome dado aos caules das gramíneas).
Entretanto floriu a primeira gramínea perene:
Este ano foi particularmente chuvoso e muitos prados não puderam ser pastoreados em Março-inícios de Abril. Por outro lado há água em abundância, suficiente em muitos deles até ao fim de Junho, início de Julho. Consequentemente, em muitos lameiros a erva será muito alta, a produção de feno elevada, porém de qualidade baixa. Se a erva é muita, parte das folhas da base das gramíneas e de outras plantas não terão acesso à luz e apodrecerão. Fenos assim são pouco apreciados pelos animais.
Por hora não faltam ervas nos campos para alimentar ovelhas. Os lameiros de pasto alimentam as vacas. Mas aproxima-se o mês mais crítico na alimentação dos animais na montanha: Junho. O pouco feno que sobra do ano anterior já não presta, os animais torcem-lhe o nariz; os prados anuais de plantas indígenas estão cobertos de uma fina camada de plantas anuais secas, de baixa digestibilidade e proteína bruta; o lameiros de feno estão fechados a acumular biomassa; restolhos de cereais só mais tarde, depois da ceifa.
Ser agricultor na montanha não é tarefa fácil!
Entretanto floriu a primeira gramínea perene:
Alopecurus arundinaceus (Poaceae), a primeira gramínea a florir nos lameiros do NE de Trás-os-Montes. Tem uma clara preferência por solos encharcados bem expostos ao sol (vd. imagem 2). Ao mesmo género pertence o A. myosuroides, a mais temível infestante de cereais da Europa temperada; em Portugal as infestantes de cereais são outras.
Este ano foi particularmente chuvoso e muitos prados não puderam ser pastoreados em Março-inícios de Abril. Por outro lado há água em abundância, suficiente em muitos deles até ao fim de Junho, início de Julho. Consequentemente, em muitos lameiros a erva será muito alta, a produção de feno elevada, porém de qualidade baixa. Se a erva é muita, parte das folhas da base das gramíneas e de outras plantas não terão acesso à luz e apodrecerão. Fenos assim são pouco apreciados pelos animais.
Por hora não faltam ervas nos campos para alimentar ovelhas. Os lameiros de pasto alimentam as vacas. Mas aproxima-se o mês mais crítico na alimentação dos animais na montanha: Junho. O pouco feno que sobra do ano anterior já não presta, os animais torcem-lhe o nariz; os prados anuais de plantas indígenas estão cobertos de uma fina camada de plantas anuais secas, de baixa digestibilidade e proteína bruta; o lameiros de feno estão fechados a acumular biomassa; restolhos de cereais só mais tarde, depois da ceifa.
Ser agricultor na montanha não é tarefa fácil!
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sábado, 21 de novembro de 2009
Vale da Vilariça (Moncorvo)
O chão transmontano é pouco propício a uma agricultura capitalista intensiva. Os solos são ácidos e pobres em nutrientes. A boa terra agrícola reduz-se a pequenas nesgas alongadas de coluvião de fundo de encosta comprimido entre a linha de água e a aldeia, ou a algum depósito de cobertura neogénico (com uma idade inferior a 23 milhões de anos). Quando faz calor escasseia a água, como é próprio do clima mediterrânico. No Inverno a chuva por vezes é tanta que os cereais não enraízam em profundidade o suficiente para adequadamente suportarem as primaveras mais secas. A natureza do solo e o relevo movimentado obviam o desenvolvimento do regadio, e explicam a dominância das culturas de sequeiro de baixa produtividade nos sistemas regionais de agricultura.
Vale da Vilariça (Moncorvo). No centro da imagem, pelo monte acima, o fantástico azinhal-zimbral da Quinta da Terrincha.
Os planaltos ácidos e oligotróficos e os exíguos coluviões que caracterizam a paisagem agrária transmontana são interrompidos por dois vales neotectónicos profundos (de formação recente, à escala de tempo geológica, claro) - o Vale da Vilariça e a Veiga de Chaves - preenchidos com solos de grande aptidão agrícola. Estes vales simbolizam, de algum modo, aquilo que Trás-os-Montes nunca foi: uma terra úbere, benevolente para com os seus povoadores.
Na Vilariça além do mosaico policultural, só de si digno da atenção do naturalista que gosta de plantas, sobressaem os fabulosos bosques mistos de azinheira e zimbro da Quinta da Terrincha.
Bosque misto de Quercus rotundifolia (Fagaceae) «azinheira» e Juniperus oxycedrus (Cupressaceae) «zimbro», um importante habitat prioritário Rede Natura 2000 ("9560 Florestas endémicas de Juniperus sp.", vd. aqui). Uma parte significativa do bosque da Terrincha ocupa mortórios, i.e. solos cultivados com vinha até à crise da filoxera, na segunda metade do séc. XIX (vd.este post). N.b. a copa avermelhada (efeito das folhas senescentes) de Pistacia terebinthus (Anacardiaceae) «cornalheira», uma das raras espécies caducifófias do nosso bosque perenifólio, passe a aparente contradição; as árvores despidas de folhas são choupos híbridos (Populus x canadensis, Salicaceae) de plantação recente.

Churra-badana (em cima) [foto Amândio Esteves] e Churra-da-terra-quente (em baixo) [foto C. Aguiar]
Conta-me o meu bom amigo Manuel Cardoso, ilustríssimo médico veterinário e escritor de Macedo de Cavaleiros, que a raça ovina Churra-da-terra-quente, também conhecida por ovelha Terrincha, "nasceu" de um cruzamento experimental entre a rústica Churra-badana, uma raça trasmontana seriamente ameaçada de extinção (o efectivo não ultrapassa os 3000 animais), e a produtiva Mondegueira, realizado na Quinta da Terrincha, no séc. XIX.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Aster aragonensis (Asteraceae)
Nos meados de Setembro, depois de três meses, ou mais, sem chuva, a terra ressequida que intervala as estevas do vale profundo da Terra Quente, ou os arbustos da montanha nordestina, brilha sob o sol ainda vibrante do final do Verão. As plantas perenes cerram os estomas até ao ponto em que a temperatura das folhas periga todo o sistema fotossintético. As plantas anuais há muito concluíram o seu ciclo biológico, e permanecem escondidas no solo, expectantes, reduzidas a semente. Os regatos secaram, e com eles as Mentha, os Epilobium, Scrophularia, e demais plantas higrófilas. Aqui e ali desponta uma folha de gramínea perene beneficiada por um veio capilar de água subterrânea. Os animais domésticos comem, ou comiam, quando os havia, melhor dizendo, a folha ripada do Fraxinus angustifolia «freixo-de-folhas-estreitas» e do Ulmus minor «ulmeiro», um raminho novo de Ulex «tojo» ou Pterospartum «carqueja», uma ponta de restolho calcinado pelo sol, o caule agostado de um Agrostis ou de um Arrhenatherum, ou, ainda, uma rara ervita fresca de sítio sombrio e húmido. Complementavam a alimentação do animal, alguma Cucurbita maxima «abóbora-porqueira» ou erva da cortinha, segada com foice ou gadanha, palha e pouco feno (há que guardá-lo para o Inverno), o mesocarpo (polpa) da drupa da Prunus dulcis «amendoeira» (a amêndoa fica para trás, protegida pelo caroço, i.e. pelo endocarpo) ou, mesmo, a folha libertada pela Olea europaea «oliveira», também ela sedenta, e precisada de reduzir a copa transpirante. Os rebanhos mais afortunados de gado miúdo (ovelhas e cabras) desciam ao vale do grande rio permanente, ao Sabor ou ao Côa, por exemplo, e pastavam a estreita margem verde de Festuca ampla, Agrostis e Paspalum, que serpenteia na imediata vizinhança dos poços lênticos ou de um teimoso fiozinho de água.

Terra-Quente transmontana (NE de Portugal). Em primeiro plano oliveiras, em segundo amendoeiras, e lá de trás bosque misto de Quercus rotundifolia (Fagaceae) «azinheira» e Juniperus oxycedrus (Cupressaceae) «zimbro», com algum Quercus suber (Fagaceae) «sobreiro» emergente. N.b. o J. oxycedrus distingue-se pelas copas semelhantes à chama de uma vela [Concelho de Alfândega da Fé]]
Sente-se um compasso espera. A vida está em suspenso até à chegada das primeiras chuvas outonais. Até o agricultor, se não tiver uvas para vindimar, goza dias de calmaria, enquanto aguarda pela época das sementeiras.
Acabaram as flores. O botânico pode regressar ao herbário, ou partir de férias, até Outubro, altura ideal para colher as bulbosas de Outono.
Será?
Aqui, no Nordeste, numa unidade geológica a que os geólogos chamam, se não estou enganado, "Unidade Autóctone Superior", temos uns xistos ditos verdes, duros e de lenta meteorização ("formam" solo muito lentamente), ricos em bases (e.g. cálcio e magnésio), que albergam uma flora bem curiosa. Uma das plantas que aqui se encontram é esta:
Aster aragonensis (Asteraceae), um endemismo ibérico, pontual no NE de Portugal. N.b. na 2ª foto as folhas glaucas (=azuladas) de outro endemismo ibérico, a Festuca summilusitana (Poaceae), descrita por J. do Amaral Franco e Mª da Luz Rocha Afonso em 1980. A esta gramínea nem as cabras lhe pegam! [Bragança, Serra de Nogueira]
Pois bem. Tudo seco? Dizia eu? Nem tudo, acreditem. Não sei como é, mas este Aster transpira, literalmente, vida, quando tudo o mais morre pela chegada da água e das noites frescas de Outono.
[fotos C. Aguiar]
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