sexta-feira, 21 de maio de 2021
Macaronésia: como as plantas cruzam oceanos, com Jorge Capelo
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Duas notas sobre Pittosporum (Pittosporaceae) II
As pittosporáceas estão extintas das Canárias. Os últimos exemplares indígenas do P. coriaceum sobrevivem na laurissilva madeirense, concretamente na laurissilva temperada da Ocotea foetens (Lauraceae) «til». O recém-publicado Livro Vermelho da Flora Europeia (importar lista aqui) atribui-lhe a categoria UICN CR (em perigo crítico). O P. coreaceum é, assim, a árvore mais rara de Portugal e estará no top 3 das espécies arbóres mais ameaçadas da Europa. Com tanto P. undulatum nos Açores, quem diria que um outro Pittosporum, por sinal ameaçado, se esconde nas florestas das nuvens da Ilha da Madeira!
Uma foto de um P. coriaceum cultivado no Jardim Botânico da Madeira.
domingo, 16 de janeiro de 2011
Echium portosanctense (Boraginaceae)
Estão descritos dois Echium endémicos na ilha da Madeira:
o Echium nervosum nos andares de vegetação basais e o ...
... Echium candicans lá em cima, na montanha.
Boas notícias! Acabou de ser descrito um novo Echium endémico, desta feita na Ilha de Porto Santo (ver aqui).
Aqui está ele:
[fotos C. Aguiar]
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Dracaena draco (Ruscaceae) I
A justificação de uma região biogeográfica Macaronésica assenta, tradicionalmente, na presença de alguns taxa peculiares de carácter reliquial, e.g. Myrica faya, Dracaena draco, Laurus e Euphorbia subsect. Pachycladae, e na partilha (muito desigual) de uma radiação adaptativa em alguns géneros, entre os quais se contam os inevitáveis Echium (Boraginaceae), mas também Artemisia (Asteraceae), Euphorbia (Euphorbiaceae), Globularia (Plantaginaceae), Sonchus (Asteraceae), Tolpis (Asteraceae), Erysimum (Brassicaceae), Lotus (Fabaceae), Festuca (Poaceae) ou Deschampsia (Poaceae). Embora os arquipélagos da Madeira, Selvagens e Canárias tenham um elemento florístico e "vegetacional" comum assinalável, a semelhança da sua flora e coberto vegetal com os Açores, a Norte, ou com Cabo Verde, a Sul, é marginal. Não vale a pena sequer perder tempo a procurar pontes entre a flora e a vegetação tropical árida a desértica de Cabo Verde, e o verde luxuriante dos Açores.
Fiz uma leitura rápida das Floras e das checklists das plantas-com-flor dos arquipélagos de Cabo Verde, Canárias, Madeira e Açores e encontrei uma única espécie indígena comum a todos eles, a Dracaena draco. Isto, partindo do princípio que não andam por aí perdidas uma, ou mais, Dracaena por descrever.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Smilax pendulina Lowe
Em recente viagem á Madeira vi levadas, que por terem rebentado, arrastaram partes significativas de encostas com laurissilva de til (Clethro arboreae-Ocoteetum foetentis) e lembrei-me entretanto desta planta. Tem sido referida em floras e outras publicações, como 'Smilax aspera', esta salsaparrilha da Madeira. É uma planta da laurissilva madeirense. São plantas geralmente inermes (sem espinhos), as folhas verde-claras, são baças ou com um brilho mate e ceroso e têm consistência sub-rígida, por vezes quase herbácea. Os frutos são avermelhado-claros quando completamente maduros, com ca. de 1,2 - 1,5 cm de diâmetro, de secção triangular-arredondada. Solicito agora o pequeno incómodo de confrontar os citados caracteres com uma descrição de S. aspera. Pode ser aqui na Flora iberica. Os deslizamentos na laurissilva resultam do encontro da perturbação gravitacional espontânea, das chuvadas catastróficas e de alguma irreflectida engenharia. Com muitas outras plantas, entre elas tis centenários, as derrocadas deste ano - algumas com largas dezenas de metros de extensão, arrastaram banais Smilax aspera ou endémicos S. pendulina? Julguem os leitores por si próprios , se nos serve uma taxonomia assim?
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Musschia isambertoi (Campanulaceae)

segunda-feira, 6 de julho de 2009
Vaccinium padifolium & V. cylindraceum (Ericaceae)
Vaccinium padifolium, planta madeirense (foto: J. Capelo, 2006; clique para aumentar)quinta-feira, 4 de junho de 2009
Os sabugueiros (Adoxaceae)

sexta-feira, 15 de maio de 2009
Aeonium glandulosum (Aiton)Webb. & Berth. (Crassulaceae)
[Foto: Sandra Mesquita, 2003]
(clique para aumentar)
Na Madeira, as paredes de basalto, traquitos e piroclastos cobrem-se frequentemente com tapetes verde-rosados desta planta: Aeonium glandulosum (Aiton)Webb. & Berth. São pequenos caméfitos arrosetados, de folhas suculentas e marchescentes. O género Aeonium tem cerca de 35 espécies distribuídas pela Madeira, Canárias, Marrocos e África oriental (Montanhas Semien na Etiópia). Este tipo de vegetação peculiar foi sistematizado, em termos fitossociológicos, numa classe própria: Grenovio-Aeonietea - e na Madeira existem descritas seis comunidades distintas desta unidade endémica canário-madeirense. Nas Canárias, onde a classe tem a maior diversidade de espécies, descreveram-se treze comunidades só para ilha de Tenerife.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Alguma flora da montanha madeirense I
A montanha madeirense alberga uma avassaladora riqueza de endemismos acima dos 1500 e até aos 1862 metros de altitude atingidos no Pico Ruivo: o terceiro mais alto do país. São sobretudo plantas casmofíticas (das fendas das rochas) ou comofíticas (da superfície das rochas). Estes três taxónes são apenas exemplos. Um facto curioso e importante é que esta flora tem recuperado devido à recente exclusão do pastoreio por cabras. Em patamares terrosos naturais que se acham no meio das escarpas, antes pastoreados e designados 'mangas' têm-se assistido a um recuperar da flora endémica por esta mesma razão.
Fotos: Sandra Mesquita, 2003
terça-feira, 28 de abril de 2009
Árvores filogenéticas
O gráfico da figura 2 é uma árvore filogenética das plantas que compõem uma única comunidade florestal da laurissilva temperada madeirense, dominada por til, Ocotea foetens (por isso mesmo, na nomenclatura fitossociológica das comunidades vegetais designada por Clethro arboreae-Ocoteetum foetentis - figura 1). Foi construída por mim a partir de dados moleculares publicados em bases de dados públicas e é apenas uma aproximação. Esta não é uma forma habitual de árvore filogenética, pois expressa a estrutura filogenética de uma comunidade e não de um grupo taxonómico. Como uma boa parte dos processos de evolução são de co-evolução no seio de comunidades, é altamente informativo obter estas árvores para comprender como se organizaram essas mesmas comunidades. Uma parte da comunidade é constituída por plantas pré-adaptadas ás condições do habitat e uma parte evoluiu para se adaptar. Percebe-se também quais foram espécies simplesmente ´filtradas' pelo habitat e quais as que evoluiram, assim como quais os caracteres morfologicos novos e antigos na comunidade.
Na foto 1, da esquerda para a direita, no meio de um sub-bosque dominado pelo pteridófito Diplazium caudatum (Athyriaceae): Jorge Capelo, Roberto Jardim, José Carlos Costa, Paulo Gouveia e Miguel Sequeira.
terça-feira, 24 de março de 2009
Recordações da flora da Madeira
Argyranthemum montanum (Asteraceae) [foto C. Aguiar]

Pericallis aurita (Asteraceae) [foto C. Aguiar]
Quem gosta de plantas compre quanto antes uma passagem para ilha da Madeira. Na mochila dois documentos obrigatórios: Press & Short, A Flora da Madeira, 1994 e J. Capelo et al., The vegetation of Madeira Island (Portugal), Quercetea 7, 2005. Depois, não esquecendo um impermeável, percorra demoradamente as levadas e muitos caminhos pedonais que cruzam a ilha. Para experimentar sensações botânicas extremas, sim, uma nova variante da biofilia, faça o caminho entre os Picos do Arieiro e o Pico Ruivo e acabe a excursão no Cabo Girão, não esquecendo uma visita à ponta de São Lourenço.
Deixo para o Jorge a explicação por que razão explorar a laurisilva madeirense é uma viagem no tempo de 20 milhões de anos. É ele quem sabe do assunto.
sexta-feira, 20 de março de 2009
Sonchus fruticosus L. fil. (Asteraceae)

Sonchus fruticosus L. fil. (Madeira, Levada do Folhadal; foto: Sandra Mesquita, 2003)
Sonchus fruticosus L. fil. pertence a um grupo de táxones neo-endémicos da Ilha da Madeira.
É uma planta com um caule lenhoso esguio, pouco ramificado, atingindo 4 - 5 m de altura e com uma única roseta de folhas terminal. Diz-se um 'caulirosulado'. Na laurisilva da Madeira e Canárias existem vários caulirosulados. São exemplos, Muschia wollastonii (campanulaceae), Euphorbia longifolia (= E. meliferea, euphorbiaceae), Isoplexis sceptrum (scrophulariaceae), Melanoselinum decipiens (apiaceae) e outras. Constituem um tipo de vegetação florestal especial constituída por plantas adaptadas a solifluxões catastróficas (derrocadas, deslizamentos de terras) ou qualquer fenómeno que resulte numa interrupção do copado cerrado das árvores dominantes da laurisilva. Evoluiram recentemente (por isso são neo-endemismos) a partir de antepassados continentais herbáceos, geralmente a partir de um unico evento colonizador (uma semente?), seguido de um processo evolutivo muito rápido dando origem a várias espécies em distintos habitats (radiação adaptativa). Este fenómeno de evolução de um hábito lenhoso a partir de antepassados herbáceos é universal nas ilhas e chamou-se 'síndrome de hábito lenhoso insular' (island woodiness sindrome). Pensa-se que o mecanismo evolutivo esteve ligado à sobrevivência em ambiente florestal dominante na ilha, favorecendo descendência alta e lenhosa, que garantisse a persistência temporal de inflorescências grandes para as expôr a insectos polinizadores generalistas (o seu polinizador específico terá ficado para trás no continente, talvez). Assim, os caulirosulados como 'arvores improvisadas' adaptaram-se a um nicho florestal temporário onde não sofriam a competição das grandes árvores lauráceas (Ocotea, Laurus): as derrocadas. As levadas e leitos rochosos de ribeiras são emulações (a primeira artificial) do habitat das caulirosuladas e aí são muito frequentes.
Se serve este post para suscitar interesse acerca da vegetação da Ilha da Madeira, veja-se então aqui alguma informação mais completa. Sobretudo, logo o primeiro capítulo 'origem e evolução da flora da Madeira'.







