terça-feira, 31 de março de 2009

Drosophyllum lusitanicum (L.) Link, uma planta carnívora


Pormenor da folha de Drosophyllum lusitanicum (Droseraceae) [foto P. Arsénio]


O grupo das 'plantas carnívoras' sempre me fascinou, dado que o mais comum é ver um animal a alimentar-se de plantas e não o contrário. Embora os insectos sejam as suas principais vitimas (daí que a designação de 'plantas insectívoras' também seja correntemente utilizada para classificar este grupo de plantas), estas conseguem capturar e digerir diversos tipos de invertebrados e em ambientes tropicais podem mesmo predar pequenos anfíbios e até micromamíferos. Tal característica constitui uma forma suplementar de obtenção de nutrientes (como o fósforo e o azoto), dado que as plantas carnívoras ocorrem tipicamente em ambientes pobres em nutrientes como sejam turfeiras ou prados inundados (em geral por águas oligotróficas).

Mariposa capturada por Drosophyllum lusitanicum (Droseraceae) [foto P. Arsénio]

Em Portugal ocorrem de forma espontânea plantas carnívoras dos géneros Drosera e Drosophyllum (Droseraceae), Utricularia e Pinguicula (Lentibulariaceae).
Ultimamente tenho andado em trabalho de campo na área do litoral alentejano e sempre que passo nas proximidades da Serra de São Luís (Cercal) não resisto a fazer um pequeno desvio para fazer mais umas fotografias desta planta de aspecto tão exótico, que por ser a única que ocorre em terreno enxuto (ao contrário dos restantes géneros, que preferem os terrenos mais 'alagadiços') me permite passar algum tempo estendido no chão, fazendo mais uma série de fotografias macro.

Moscas capturadas por Drosophyllum lusitanicum (Droseraceae) [foto P. Arsénio]

segunda-feira, 30 de março de 2009

Flores de salgueiro

Os salgueiros, i.e. as plantas do género Salix (fam. Salicaceae), têm indivíduos masculinos e femininos ... são dióicas, como nós.
As flores dos salgueiros estão organizadas inflorescências muito densas, necessariamente unissexuais, que levam o nome de amentos. Este tipo de inflorescência é muito frequente em árvores polinizadas pelo vento (anemófilas). Os amentos das Salicáceas são rígidos, em contrapartida, os seus ramos são muito flexíveis. As árvores de ramos rígidos, pelo contrário, geralmente possuem amentos mais flexíveis (e.g. Quercus). Ao serem agitados pelo vento os salgueiros-macho carregam os filetes de ar com pólen; as flores femininas exploram as massas de ar em busca de pólen. As flores são orgãos energeticamente muito caros. Por essa razão, as flores anemófilas são, regra geral, simples, despojadas, energeticamente baratas.
A floração dos salgueiros na Terra Fria está a acabar. Os amentilhos masculinos pronto tombarão no solo. As flores femininas preparam-se para se transformar em fruto e produzir sementes. É sempre assim.

Amento masculino de Salix atrocinerea (Salicaceae) «borrazeira-negra» (foto C.Aguiar)

Amento feminino de Salix atrocinerea (Salicaceae) «borrazeira-negra» (foto C.Aguiar)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Ophrys bombyliflora Link. (Orchidaceae)


[J.Capelo, 2009, foto de telemóvel. A espantosa profundidade de campo, tipo 'pinhole' é muito boa para estas brincadeiras].


Só mais uma para a biodiversidade urbana agraciando com esta órquídea o novel Instituto Nacional de Recursos Biológicos (instituto público). Se eu em eu tal acreditasse, diria uma graça da providência. Notar os pauzinhos que a protegem. Na ausência de políticas e estratégias de investigação consistentes para a área da conservação da biodiversidade, vamos-nos enternecendo com estas coisas que surgem no nosso relvado.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Cereais de outros tempos

Recentemente, contaram-me que o Fagopyrum esculentum «trigo-sarraceno» ainda era cultivado nos anos 50 no concelho de Vinhais. Certamente, também o seria noutros concelhos nordestinos. O F. esculentum perdeu-se porque tem várias desvantagens: produz pouco, o teor em farelo é muito alto e a maturação dos frutos dá-se de forma irregular. Depois é difícil de mecanizar. Actualmente, diz-se que poderá ser interessante cultivá-lo, por exemplo na vizinhança de pomares, para atrair insectos auxilares. Vai para seis anos encontrei uma pequena população assilvestrada de Fagopyrum esculentum na Ilha de S. Jorge.


Fagopyrum esculentum (Polygonaceae) [foto C.Aguiar]

A Setaria italica «milho-paínço» é citada pelos botânicos dos finais do séc. XIX, início do séc. XX. Parece que a sua memória se perdeu em Trás-os-Montes.


Setaria italica (Poaceae) [foto C.Aguiar]

quarta-feira, 25 de março de 2009

Gagea pratensis (Liliaceae)


Neste último fim de semana dei uma voltinha nas rochas ultrabásicas nordestinas. Reencontrei a Gagea pratensis. Esta espécie é, sem dúvida, a planta mais rara do género em Portugal. Tem a particularidade de, no nosso país, ser exclusiva dos afloramentos ultrabásicos do maciço de Bragança-Vinhais. Como acontece com as restantes espécies indígenas do género gosta de solos muito delgados, com cascalho grosseiro à superfície e um substrato rochoso bem fissurado. As comunidades com Gagea, Ornithogalum, Poa bulbosa, Scleranthus, Sedum, etc. estão todas por estudar. Um bom tema para quem se quiser descrever novas comunidades de plantas.

Gagea pratensis (Liliaceae) [foto C. Aguiar]

terça-feira, 24 de março de 2009

Plantas cultivadas raras ou extintas no NE de Portugal

Para um trabalho que tenho em mãos, fiz um apanhado das plantas cultivadas de interesse agrícola extintas, nos últimos cem anos, ou em franca regressão no NE de Portugal. São elas: aveia-negra (Avena strigosa), aveião (A. sativa subsp. byzantina), cânhamo (Cannabis sativa var. sativa), garroba (Vicia articulata), linho (Linum usitantissimum), mastruço-ordinário (Lepidium sativum), milho-miúdo (Panicum miliaceum), milho-painço (Setaria italica), trigo-sarraceno (Fagopyrum esculentum), variedades tremeses de trigo-mole (T. aestivum) e de centeio (Secale cereale), trigo-spelta (Triticum spelta) e trigo-túrgido (T. turgidum).


Avena strigosa (Poaceae) [foto C.Aguiar]


Desta lista, tanto quanto sei, sobrevivem a aveia-negra (Avena strigosa), cultivada nos solos mais pobres do planalto de Miranda, e o linho (Linum usitantissimum), pontualmente cultivado como uma curiosidade de outros tempo. Aqui e ali, na margem de caminhos ou como infestante em culturas de Primavera-Verão (e.g. milho-graúdo), vêem-se plantas de milho-miúdo (Panicum miliaceum) provenientes das misturas de sementes para pássaros.

Panicum miliaceum (Poaceae) [foto C.Aguiar]

Recordações da flora da Madeira

Aquela tarde morna e húmida de colheita e observação de plantas na mata Albergaria, há vinte anos atrás, citada no penúltimo post do Jorge, é um bom pretexto para vasculhar a memória em busca de mais recordações botânicas. Pois bem, há quanto tempo? seis? sete anos atrás? telefono ao Jorge Capelo para saber como estava a decorrer a primeira excursão exploratória da vegetação da Madeira de membros ALFA-Associação Lusitana de Fitossociologia. Do outro lado da linha recebo um brado excitado: “estou numa floresta Miocénica”! Sensação estanha esta de comunicar com o passado por telemóvel e cabo submarino! A imagem deixou-me empolgado e impaciente. Pela mão do Jorge, do Miguel Sequeira e do Roberto Jardim tive, no ano seguinte, a oportunidade de experimentar sensação de me abraçar a uma Ocotea e a uma Apollonias, de estremecer de surpresa ao deparar com o meu primeiro Isoplexis sceptrum ou quando vislumbrei ao longe, numa quebrada, esse excesso da natureza que só as ilhas nos podem oferecer: a Musschia wollastonii.

Isoplexis sceptrum (Plantaginaceae) [foto C.Aguiar]
A exceptionalidade da flora madeirense confirma-se também num sem número de arbustos como o Pericallis aurita, o Geranium palmatum ou as várias espécies de Argyranthemum, nos fetos que vivem na sombra das grandes árvores da laurisilva ou na original flora que povoa os dois extremos ecológicos da ilha: as montanhas mais altas ou as áreas litorais mais secas, da encosta sul.

Argyranthemum montanum (Asteraceae) [foto C. Aguiar]


Pericallis aurita (Asteraceae) [foto C. Aguiar]

Quem gosta de plantas compre quanto antes uma passagem para ilha da Madeira. Na mochila dois documentos obrigatórios: Press & Short, A Flora da Madeira, 1994 e J. Capelo et al., The vegetation of Madeira Island (Portugal), Quercetea 7, 2005. Depois, não esquecendo um impermeável, percorra demoradamente as levadas e muitos caminhos pedonais que cruzam a ilha. Para experimentar sensações botânicas extremas, sim, uma nova variante da biofilia, faça o caminho entre os Picos do Arieiro e o Pico Ruivo e acabe a excursão no Cabo Girão, não esquecendo uma visita à ponta de São Lourenço.
Deixo para o Jorge a explicação por que razão explorar a laurisilva madeirense é uma viagem no tempo de 20 milhões de anos. É ele quem sabe do assunto.