quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O azevinho


(foto de A. Magalhães)

O azevinho, um dos arbustos mais excêntricos das nossas florestas, é uma das raras plantas que teve direito a uma legislação especial destinada à sua protecção. Apesar de não ser um arbusto raro, começava a desaparecer de algumas zonas do nosso pais devido à procura que tinha como enfeite natalício. Os azevinhos fêmeas eram os mais procurados e para impedir que se repetisse um processo semelhante ao do teixo, fez-se legislação que impedisse a colheita de azevinho espontâneo, resultando daí o Decreto-Lei n.º 423/89. O teixo já foi mais comum nas nossas montanhas, mas desapareceu rapidamente devido à destruição das plantas fêmea pelos pastores, já que eram frequentemente ingeridas pelo gado, levando à sua intoxicação. A razão da utilização do azevinho como enfeite de natal tem origens que remontam aos tempos do paganismo. Como algumas plantas morriam ou perdiam as suas folhas durante o outono e o inverno, os pagãos da zona da Germânia responsabilizavam os espíritos malignos pela destruição da flora. No solstício de inverno levavam para casa ramos verdes, de coníferas ou de azevinho, para lhes fornecerem energia para resistirem aos poderes do frio e da escuridão. Nasceu assim a tradição da árvore de Natal e do ramo de azevinho, mostrando que Natureza foi a primeira divindade a ser adorada pelo Homem. Mas porque razão permanece o azevinho com as suas folhas enquanto todos os outros arbustos deixam cair as suas no outono? O azevinho é relíquia de tempos antigos, durante os quais o clima na Europa era mais quente. As relíquias paleotropicais são fáceis de identificar, porque normalmente são as únicas representantes da sua família. O loureiro das Lauraceas, a murta das Mirtaceas e o azevinho das Aquifoliaceas são alguns desses exemplos mas com uma diferença. O azevinho não se refugiou nas zonas mais amenas do Sul da Europa, mas pelo contrário, avançou para territórios mais a Norte. E para combater o frio e os herbívoros esfomeados dos meses de inverno, teve de se armar até aos dentes. As folhas do azevinho possuem uns dentes afilados durante a fase em que possuem um porte arbustivo, perdendo os dentes quando chegam a velhas, pois nessa altura os ramos estão mais altos e são mais difíceis de alcançar. As folhas estão cheias de celulose para serem pouco palatáveis, e possuem altos conteúdos de sacarose, proteínas e lípidos que funcionam como um anticongelante. O azevinho é um arbusto extremamente bonito, fácil de cultivar, sendo um dos poucos que aguenta bem crescer ao sol ou à sombra. No seu ambiente natural, as árvores que estão acima dele estão despidas durante o inverno, deixando passar os raios solares. No verão, pelo contrário, permanece à sombra das copas cerradas, tendo por essa razão evoluído para viver entre estas duas posições extremas. Parece que os antigos pagãos tinham razão, o azevinho tem realmente poderes extraordinários.

4 comentários:

  1. Mais um post muito bonito e original!

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  2. Este post induz-nos, por exemplo, à reflexão para as questões de como lidar com o complexo problema do uso e conservação dos recursos biológicos.
    Continuação do bom trabalho. :)

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  3. Parece que foi combinado, mas este outro texto sobre o azevinho apareceu exactamente no mesmo dia.

    (Gosto muito de ambos os textos, e até acho que se complementam. Não estou a fazer publicidade em causa própria, pois não escrevi nenhum deles.)

    P.S. Já agora, Paulo, é um gosto vê-lo por aqui, pois há muito que não o encontro no JB do Porto.

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  4. Há realmente coincidências incríveis. Mas realmente, os dois complementam-se...

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