sábado, 13 de junho de 2009

Alliaria petiolata (Brassicaceae)

A Alliaria petiolata é muito frequente em orlas de bosques caducifólios e em margens sombrias de caminhos no centro e norte de Portugal continental.
Tem uma uma característica inconfundível vertida no nome genérico: liberta um intenso odor a alho quando esmagada.

Alliaria petiolata (Brassicaceae)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Silene marizii (Caryophyllaceae)

A Silene marizii é um quase-endemismo português (a maior parte das populações mundiais residem em Portugal) morfologicamente muito próximo da S. latifolia (vd. este post). Ambas as espécies são dióicas (pertencem à secção Elisanthe) e possuem uma estrutura floral muito semelhante. A A. marizii geralmente tem um hábito prostrado (cresce rente ao substrato). Por outro lado, as plantas de A. marizii são glandulosas ao tacto e têm os frutos mais pequenos do que os de S. latifolia.


Silene marizii [fotos C. Aguiar]

A S. latifolia tem por habitat primário orlas sombrias de bosques. A S. marizii é um comófito esciófilo, i.e. habita fendas ou plataformas terrosas de afloramento rochosos ou paredes graníticas arenizadas (granitos com feldspatos parcialmente transformados em caulinite pela acção da água), evitando uma exposição directa ao sol.

A S. marizii é frequente em afloramentos graníticos no NW de Portugal continental. Penetra em Trás-os-Montes pelo vale do Douro pelo menos até à foz do Rio Tua. 

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Silene latifolia (Caryophyllaceae)

A vegetação de margens de caminhos, i.e. as comunidades de plantas que habitam uma estreita faixa contígua à área pisoteada dos caminhos, é muito diversa. Os factores que têm maior influência na sua estrutura florística são a exposição à luz e a disponibilidade de água (na Primavera e princípios do Verão), a compactação do solo e a concentração em azoto assimilável no solo.

Nos caminhos mais sombrios, mas também nas orlas dos bosques, é muito frequente, um pouco por todo o país, a Silene latifolia (Caryophyllaceae).


Como é característico das espécies da secção Elisanthe do género Silene, a S. latifolia é uma planta dióica, i.e. as suas flores são unissexuais, co-existindo plantas masculinas e plantas femininas numa mesma populações. Enfim, como acontece com a nossa espécie, Homo sapiens.

Flor masculina de S. latifolia (extirpado 1/2 do cálice e retiradas 2 das pétalas para facilitar a observação do androceu). N.b. só tem estames.

Flor feminina de S. latifolia (extirpado 1/2 do cálice e retiradas 3 das pétalas para facilitar a observação do gineceu)N.b. estames ausentes e ovário súpero com 5 estigmas (um deles pouco visível na fotografia).

As flores das S. latifolia do NW são um pouco mais pequenas do que as flores das populações mediterrânicas da espécie. Está publicado um nome para elas: S. latifolia subsp. alba. Quem as quiser ver basta fazer a autoestrada Porto-Braga ou a Circunvalação e a Via-Norte na cidade do Porto e olhar para os separadores ou para os taludes que as marginam.

sábado, 6 de junho de 2009

Alyssum serpillifolium subsp. lusitanicum (Brassicaceae) II

O A. serpillifolium subsp. lusitanicum tem uma característica fisiológica muito curiosa: hiperacumula níquel (Ni). Este metal pesado pode ultrapassar a concentração de 35 g Ni/kg matéria seca, i.e. representar mais de 3,5 % do peso seco desta planta.

Qualquer planta suporta uma comunidade de herbívoros que vivem à sua custa. Está provado que o Ni entra nas cadeias tróficas através dos herbívoros que consomem Alyssum. Bem perto de minha casa, no termo de Samil, os gafanhotos que pastam Alyssum revelaram teores elevados de Ni: estão naturalmente contaminados com metais pesados!


Existem várias explicações para a hiperacumulação de Ni (e de outros metais pesados) nos tecidos das plantas, todas elas partindo do princípio que acumulação de grandes quantidades de Ni é adaptativa, i.e. que aumenta o sucesso reprodutivo dos seus portadores. As hipóteses mais plausíveis são: 1) a defesa contra herbívoros e microorganismos patogénicos (hipótese da defesa); 2) enriquecimento superficial do solo em Ni de modo a conter potenciais plantas competidoras (hipótese da alelopatia).
A hiperacumulação de Ni (por convenção plantas com mais de 1 g Ni/kg peso seco) está comprovada em mais de 320 espécies de plantas vasculares, a maioria delas pertencentes às famílias Euphorbiaceae, Flacourtiaceae (família hoje em dia incluida nas Salicaceae), Sapotaceae, Violaceae, Buxaceae e Brassicaceae.
Na Europa as plantas hiperacumuladoras de Ni são todas Brassicáceas, pertencentes a dois géneros: Alyssum e Thlaspi. Estão descritos perto de 50 microendemismos no género Alyssum que hiperacumulam Ni, dois deles na Península Ibérica: o A. serpillifolium subsp. lusitanicum, no NE de Portugal e Galiza, e o A. malacitanum, no SE da Andaluzia.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Alyssum serpyllifolium subsp. lusitanicum (Brassicaceae) I

A. serpillifolium subsp. lusitanicum (= A. pintodasilvae) é uma pequeno arbusto da família da couve (Brassicaceae), supostamente endémico das rochas ultrabásicas do NE de Portugal (Maciços de Morais e de Bragança-Vinhais) e da Galiza (Melides). Encontra-se, neste momento, em plena floração cobrindo de um manto amarelo os serpentinitos transmontanos.


Comunidade de A. serpillifolium subsp. lusitanicum (Samil, Bragança) [foto C. Aguiar]

Esta espécie coloniza solos recentemente abandonados pela agricultura cerealífera e margens de caminhos. Embora menos abundante é frequente em estevais de Cistus ladanifer e Genista hystrix e em comunidades herbáceas vivazes.
A regeneração do Alyssum depende da perturbação do solo. A mobilização mecânica do solo, a movimentação dos animais domésticos, as fossadas dos javalis ou os ciclos de congelamento-descongelamento da superfície do solo nos dias frios de Inverno facilitam a instalação desta espécie. A sua abundância está, em grande medida, relacionada  com o historial recente de uso agrícola do solo.
A correlação entre a presença desta espécie e os afloramentos de rochas ultrabásicas é absoluta. Uma boa ajuda para os especialistas em cartografia geológica e para os prospectores de minerações de níquel, crómio e platina.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Os sabugueiros (Adoxaceae)

O sabugueiro (Sambucus nigra) é um arbusto alto de ramos flexíveis e folhas compostas, frequente no interior de Portugal continental em quintais abandonados, caminhos sombrios, orlas de bosques ripícolas e sebes.

Sambucus nigra nas margens do rio Fervença (Bragança)

É tão agradável nestes dias quentes de final de Primavera sentir, pelo fresco da manhã, o odor a erva-doce libertado pelas flores deste arbusto!

Flores e folhas de Sambucus nigra. N.b. flores brancas, pequenas, organizadas em grandes inflorescências +/- planas; folhas compostas com um número ímpar de folíolos (folhas penaticompostas imparifolioladas)

Está na moda consumir frutos maduros - bagas de cor negra - de sabugueiro, parece que são ricos em anti-oxidantes. A exportação de baga de sabugueiro para a Alemanha é uma importante actividade económica em muitos dos concelhos do Douro Sul; e.g. Armamar, Tarouca, Moimenta da Beira, Lamego e Tabuaço.

Em Portugal continental ocorre uma segunda espécie do género Sambucus: o S. ebulus. Trata-se de uma erva-alta, pontual em Trás-os-Montes e no Alto-Alentejo em margens de caminhos, muros e nas orlas de prados ou de bosques húmidos com solos fundos, húmidos, ricos em azoto mineral e em argila.

Sambucus ebulus

O S. lanceolata é um endemismo madeirense morfologicamente semelhante ao S. nigra (distingue-se por ter folhas glabras e frutos amarelados). Com algum esforço pode ser observado nas linhas de água que sulcam a laurissilva do til (Ocotea foetens, Lauraceae) (laurissilva das nuvens).

Sambucus lanceolata 

As Floras clássicas colocam os Sambucus nas Caprifoliaceae, à semelhança dos géneros Lonicera (madressilvas), Viburnum e Leycesteria. Os autores do Sistema APG II transferiram recentemente o género Sambucus, assim como o género Viburnum, para a família Adoxaceae (vd. aqui).
[fotos C. Aguiar]

terça-feira, 2 de junho de 2009

Vinhas do Sabor

O "Voyage en Portugal ..." (vd. este post) faz uma referência curiosa à videira-europeia (Vitis vinifera). O Conde de Hoffmansegg ao percorrer o termo de Brunhoso (concelho de Mogadouro) constatou que “caminhos difíceis atravessam uma espessa floresta onde cresce a vinha selvagem que sobe pelas árvores”. Esta passagem refere-se, claramente, a bosques não ripícolas.
Em 1867 as vinhas durienses foram invadidas por uma praga temível: a filoxera (Daktulosphaira vitifoliae, Homoptera). Pouco anos mais tarde, logo no início da década de 7o do mesmo século, a filoxera devastou por completo as vinhas durienses: a videira-europeia demonstra uma susceptibilidade absoluta a este insecto. A depressão económica subsequente só foi ultrapassada quando as videiras-europeias começaram a ser enxertadas em Vitis de origem norte-americana.
As videiras-europeias observadas pelo conde Hoffmansegg nos sobreirais, ou nos azinhais, sobranceiros ao rio Sabor não sobreviveram à filoxera. Hoje em dia as videiras-europeias ferais que persistem na região estão acantonadas às margens de curso de água permanentes, por exemplo, ao rio Sabor.  Nestes habitats as raízes desta liana são ciclicamente submersas pela água obviando, deste modo, os ataques de filoxera. 
A memória da tragédia da filoxera está a perder-se. Muita gente, porque é mais fácil,  porque está na moda, voltou a plantar estacas de videira-europeia ... e a filoxera está de volta ao Douro.

Vitis vinifera «videira-europeia» [foto C. Aguiar]