"...
Dois meses depois Amaro foi nomeado pároco de Feirão, na Gralheira, serra da Beira Alta. Esteve ali desde Outubro até o fim das neves.
Feirão é uma paróquia pobre de pastores e naquela época quase desabitada. Amaro passou o tempo muito ocioso, ruminando o seu tédio à lareira, ouvindo fora o Inverno bramir na serra. Pela Primavera vagaram nos distritos de Santarém e de Leiria paróquias populosas, com boas côngruas. Amaro escreveu logo à irmã contando a sua pobreza em Feirão; ela mandou-lhe, com recomendações de economia, doze moedas para ir a Lisboa requerer. Amaro partiu imediatamente. Os ares lavados e vivos da serra tinham-lhe fortificado o sangue; voltava robusto, direito, simpático, com uma boa cor na pele trigueira.
..."
[Eça de Queiroz, O Crime do Padre Amaro]
Ontem andei pelo Montemuro (Beira Alta).
Na aldeia da Gralheira, concelho de Cinfães, mesmo ao lado da Feirão do Padre Amaro, por lá continuavam os mesmos velhos de sempre, de cajado na mão e pele arrepanhada pelo frio, a gozar a volta do sol. Apressados, mas, suponho, com pouco que fazer, circulavam rostos femininos escondidos sob a capa burel, ataviados com a tradicional roupagem preta, mas de botas revestidas com pêlo por dentro, bem diferentes das socas de madeira de antigamente. À saída da aldeia um ou outro pastor vigiava com displicência pequenos rebanhos de arouquesas pachorrentas, a enfardelar com avidez os primeiros rebentos de final de Inverno. A ovelhas circulavam mais longe, para os lados da Lagoa de D. João, ou mais alto na serra, em redor das penedias graníticas.

Ao contrário do que seria esperar numa terra tão agreste e distante dos grandes centros, senti as gentes felizes, despreocupadas, bem. O contentamento circula por aquelas ruas de séculos maceradas pelo gelo e pelo vento. Este vento que penetra até aos ossos, a detestada ventania de Inverno é afinal a causa de uma súbita regeneração. A serra povoou-se de gigantescos moinhos de vento. Fantásticos geradores eólicos com pás de 40 m produzem electricidade dita renovável, e uma renda fixa que pinga em contínuo nos bolsos dos proprietários do monte que até há bem pouco tempo ninguém consegui a vender. Bem melhor do que o subsídio da CE ou o borrego de final de Outono! Com a nova indústria vieram mecânicos, electricistas, engenheiros e até turistas da grande cidade para quebrar a solidão do defeso invernal. Nunca faltam clientes no restaurante da aldeia, com prato do dia e onze empregados a tempo inteiro. Os migrantes de primeira e segunda geração recuperam palheiros e casas devolutas para gozar a reforma quantas vezes oferecidas ao virar os cinquenta. Alí ao lado, em Campo Bem-Feito, instalou-se um grupo profissional de Teatro. A Câmaras Municipais, com as rendas das eólicas, mantêm as estradas impecáveis. As carreiras de passageiros levam e trazem os garotos para os novos centros escolares com aquecimento central e cantina, professor de ginástica e de inglês.
Outro tempos aqueles a que Eça se refere no capítulo terceiro do "Crime do Padre Amaro"!



Parou de chover há três dias e os fogos despontaram, automaticamente, pela mão dos pastores, um pouco por toda a Serra. Melhor agora do que no pino de Verão. O solo está húmido e as plantas continuarão dormentes à espera dos calores de Primavera. Estes fogos frios e "ajardinados" são uma prática tão antiga como necessária. A palhuça seca de
Agrostis x fouilladei,
Molinia caerulea ou de
Arrhenatherum elatius subsp.
bubosum que por ora cobre a serra de pouco serve: é o pão seco e bafiento do animal. Os tapetes densos de
Halimium ou as toiças envelhecidas de
Ulex minor «tojo-molar» atrapalham a circulação dos animais e retiram espaço à forragem. Uma pequena carqueja aqui, um pequeno giestal acolá, tudo somado dá muito fogo que não entra nas estatísticas, que escapa à atenção de jornalistas e analistas, mas que regenera o pasto e dá de comer aos rebanhos. Nas áreas queimadas, a partir da Primavera os rebentos túrgidos de proteína do
Ulex minor podem ser pastados com proveito e compensar a fibra bruta das gramíneas do monte. Um fabuloso endemismo regional, a
Armeria beirana, também é beneficiado pelas "limpezas" de Inverno de potenciais competidoras. Os bosquetes de carvalho-negral (
Quercus pyrenaica) suprimem o fogo e lucram com a eliminação dos arbustos de
Erica arborea que lhe consomem a luz. Se é certo que o fogo pode atrasar a regeneração do bosque também é verdade que a não impede. Cada vez que vou ao Montemuro vejo mais árvores.
Os fogos violentos de Verão, esses sim, são indesejáveis e um produto da modernidade.