Se perguntarem a um botânico, com um mínimo de experiência, quais os grupos de plantas vasculares de taxonomia mais difícil em Portugal é muito provável que o rol inclua os géneros apomíticos
Hieracium,
Rubus e
Taraxacum, algumas plantas de sapal como as
Salicornia, às tantas
Armeria e, inevitavelmente,
Centaurea gr.
Centaurea.
Este último grupo de plantas, pertencente à família das asteráceas, foi até há bem pouco tempo designado por
Centaurea gr.
Paniculata. O género
Centaurea foi neotipificado em 2001: a espécie tipo passou a ser a
C. paniculata. Por imposição do Código de Nomenclatura Botânica o grupo a que pertence o tipo herda o nome do género, daí
Centaurea gr.
Centaurea.
As chaves dicotómicas de
Centaurea gr.
Centaurea publicados na Nova Flora de Portugal não funcionam e o conceito de alguns dos
taxa reconhecidos no grupo não é claro. De facto, tanto no campo como em herbário é geralmente impossível distinguir
C. langeana de
C. micrantha ou de
C. melanosticta. A
C. lusitanica já parece fazer sentido, assim como a
C. coutinhoi, a
C. rothmalerana e outras espécies mais.
Finalmente parece que este pântano de espécies e nomes foi posto na ordem. Os botânicos espanhóis J. Devesa e E. López publicaram uma série de artigos (disponíveis
aqui,
aqui e
aqui) que os interessados neste grupo essencial da flora vascular portuguesa não devem deixar de ler. Pelas mãos destes botânicos uma parte significativa das espécies de C. gr.
paniculata foi despromovida à categoria de subespécie no âmbito da
C. langei, e.g., a
C. coutinhoi que habita as cotas mais altas da Serra de S. Mamede, e a
C. exilis uma planta frequente na Beira-Baixa, apelidam-se agora, respectivamente,
C. langei subsp.
coutinhoi e
C. langei subsp.
exilis (ver mapa). Faz sentido.
O nome
C. langei subsp.
langei, por tricas nomenclaturais que não interessa agora explorar, é o nome correcto para as
C. gr.
paniculata que povoam o NE de Portugal, designadas por
C. langeana nas Floras de referência.
Centaurea langei subsp. langei
As versões de
C. langei de capítulos mais pequenos, próprias de ambientes ensolarados e secos (
C. micrantha), e as plantas de brácteas mais escuras abundantes no NW e em prados mais a NE (
C. melanosticta) foram incorporadas no conceito de
C. langei subsp.
langei.
Os nomes e os conceitos em taxonomia, ao contrário do que muitos pensarão, mudam por que têm de mudar, porque os sistemas taxonómicos têm que se aproximar cada vez mais de algo de real que é exterior a nós: a diversidade vegetal.